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Emanuel Jorge Botelho: uma sombra no risco da noite

Emanuel Jorge Botelho: uma sombra no risco da noite

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«vem de longe a calamidade, a imaginária sombra». Assim começa um poema de Emanuel Jorge Botelho, num livro que data de 1982, intitulado Cesuras. Encima-o, numa epígrafe, a referência ao famoso quadro de Edvard Munch, O Grito, que o poeta admite revisitar. Partindo da força evocativa quer do termo «calamidade», quer do rosto cadavérico segundo o pintor norueguês, torna-se quase incontornável a disposição deste poeta para captar, no desfiar das décadas que somam os seus 71 anos, «o que há de terror na queda dos dias», «o lixo embuçado», ou «o som liso de máscaras» – isto, com alguma malícia enviesada da minha parte, ou simples fruição de liberdade crítica, para ir derramar versos escritos pelo poeta em 1993, do livro Casos de Bolso (páginas 285, 288 e 291, respectivamente), no ordálio moroso a que a pandemia sujeitara, mais a uns do que a outros, os cadáveres adiados que somos todos.

E se é ridículo falar-se de visionarismo quando se pressente, nas malhas dos versos de um poeta, a constância da morte e do desastre, é perfeitamente justo que, num caso como o de Emanuel Jorge Botelho, se perceba a absoluta coerência de quem insiste em tocar num conjunto muito seu de motivos, de pequenas obsessões tópicas, como um morse unipessoal. É disso prova, aliás, o seu livro mais recente, Manual dos Dias Cavos, brevíssimo e discreto, editado pela Averno em Janeiro de 2021. O título é, em si mesmo, uma discreta contradição: que regras seguir, afinal, perante o vazio instalado? Sobretudo, quando estes «dias cavos», pelo circunstancialismo histórico que os enformam, são os dias da pandemia, dos confinamentos, das quarentenas decretadas, de cada nova vaga ou variante – e que só uma nota final claramente endereça: «[…] as primeiras versões dos poemas que dão corpo a este Manual dos Dias Cavos remetem para a era do confinamento» (p. 27). Não fosse esta nota e um ou outro título com referentes temporais específicos, e a beleza sombria destes poemas pareceria ter saído de outras calamidades anunciadas, de um «desconsolo» (p. 12) comum a todos os tempos, mas que ganha neste tempo uma peculiar pregnância expressiva.

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Natural de São Sebastião, em Ponta Delgada, o poeta nasceu a 11 de Agosto de 1950, licenciou-se em Ciências Político-Sociais e foi professor. É membro do GICA – Grupo de Intervenção Cultural Açoriano, tendo fundado e dirigido a revista Aresta e coordenado o suplemento literário «Raiz», do jornal Correio dos Açores. E quanto a informações de cariz biográfico e profissional, eis tudo o que a net me dá.

Emanuel Jorge Botelho não vive sem livros, sem o mar e a ilha, sem Lorena, a sua amante – e à poesia, de uma contenção tremenda, subtilmente esculpida num aprumo de cinzel, dá o autor a honra de um compromisso de sangue e uma profunda dignidade intrínseca, sem planos de vida literária, veleidades grosseiras ou aplausos altissonantes (razão mais que certa para a invisibilidade a que os seus livros são votados). Começou a publicar em 1978, não tendo escapado à sensibilidade exigente de editores como Vítor Silva Tavares na & etc (Full Auto Shut Off, 1981; Sardas, 1984; Asas e Penas, 1988), Paulo da Costa Domingos na Frenesi (O Brilho da Bota Nazi, 1982; Boomerang, 1985), Diogo Vaz Pinto na Língua Morta (o criterioso volume antológico Tudo isto para falar da noite, 2012, com prefácio e selecção de Manuel de Freitas), e, de novo, Manuel de Freitas, com Inês Dias, na Averno (com os volumes Dizeres de Atalaia I e II, editados em 2019, contendo toda a sua poesia, poemas dispersos por revistas, plaquetes e folhas volantes, e alguns inéditos).

Tanto nos poemas de Manual dos Dias Cavos como em todos os outros que lhes antecedem, tudo se passa entre amigos: aos amigos reais, no círculo íntimo dos afectos, sendo muitos deles editores e também poetas, nota-se o prazer com que o autor os nomeia em compulsivas dedicatórias («amigos que guardo dentro da minha pele», diz o poeta sobre Inês Dias e Manuel de Freitas, num dos números da revista Telhados de Vidro). E, depois, os outros amigos: Artaud, Cioran, Antero de Quental, o muito amado Cesare Pavese – que se suicidou no mês e no ano em que o poeta de Sardas nascera –, mas também os que provêm do universo das artes plásticas (Jackson Pollock, René Magritte, o pintor açoriano Urbano) e da música (Glenn Gould, Jim Morrison). A todos há poemas generosamente dedicados, aprendendo na sua companhia a ampliar a vida muito além dos enredos da própria existência.

Manual dos Dias Cavos abre com duas epígrafes: a primeira, quatro curtos parágrafos do livro Rostos (2001), de Rui Nunes; a segunda, o primeiro verso do poema «La mer», de Henri Michaux: «Ce que je sais, ce qui est mien, c’est la mer indéfinie». Das citações de Rui Nunes, o que fulmina com maior veemência é a importância de ver as coisas, ampliadas até serem reconduzidas às «três ou quadro palavras a que se reduz o vocabulário da vida»; a insistência sem descanso de «todos os estilhaços do mundo» desaguando na ancoragem da frase; e a figura perturbadora de um anjo, que «escolhe os que têm no peito a ferida brutal de uma estrela». Pego nesta última expressão – a ferida brutal de uma estrela –, peso-lhe o atrito aliterante do r e do t nas palavras ferida, brutal e estrela, noto como aqui se vazam imagens, rumores e impressões que são abundantes na poesia de Emanuel Jorge Botelho, no trânsito entre som e sentido: «há dedos que nada sabem, / nem sobem», lê-se em Casos de Bolso (in Dizeres de Atalaia I, p. 299); joga-se uma «aposta opaca na ardósia das consoantes […]», regista em Cesuras (op. cit., p. 114). E num quase decalque da força imagística de Rui Nunes, este par de versos: «a estrela contada de que ainda guardo o cravo / ficava na linha das sombras […]» (idem, p. 123).

Uma fragilidade tocante, uma grácil atenção a formas tão subtis quanto tensas, percorrem toda a sua criação poética: daí a asa, a cinza, o vidro, o pó, a erva, o trevo, o limo, o linho, o lábio, o lume, a tília, o pano, a sorte. Não se pretende com isto fazer enumerações exaustivas, mas tão-só singularizar o prazer vertiginoso de uma lista, sabendo-se de antemão como as listas são sempre inesgotáveis. A estas palavras subjaz, de algum modo, a sensação de perda, o lastro da impermanência, o desencanto, a ternura de se viver com tudo e para nada – «esta função bizarra dada aos dedos como se amanhã o sangue fosse / uma clave branca convertida ao silêncio – meu amor […]» (Cesuras, op. cit., p. 115). Preterindo o embalo narrativo, os poemas eclodem no branco da página como declarações tímidas, mas não menos intempestivas por força da inquietante opulência das suas concentrações verbais. Confirmam a zona limite da sua própria impossibilidade ou inconsequência essencial, isto é, de ser o poema uma ameaça a si mesmo, a sua própria cesura. Como neste exemplo, do livro Casos de Bolso (op. cit., p. 293):

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De notar, por isso, a cumplicidade entre versos como estes e a minúcia contundente de Rui Nunes, já antes aqui mencionado, também ele, a seu modo, um poeta insular no mundo sujo das letras: «as palavras escritas: resíduos de sons mortos, / os livros: grandes necrópoles da voz» (Rostos, p. 81). (Além de ser a Rui Nunes que o poeta açoriano dedica o poema «Tratado do lodo, fragmentos», p. 11, do livro Os Ossos Dentro da Cinza.)

Por sua vez, a insólita combinação de certos vocábulos afasta esta poesia do respaldo em lugares-comuns ou sentimentalismos. Emanuel Jorge Botelho faz da linguagem uma espécie de sóbrio encantamento, com súbitas atmosferas alegorizadas, vagamente surrealistas, mas sem caderno de encargos (e que certas epígrafes poderão cercear num anel de afinidades electivas, como quando cita Herberto Helder ou António Ramos Rosa): «mas há sintomas de açúcar / no bolor […] / esta alegria a viajar num brilho nómada / como o ferro; o mel dos ruídos mudos, a colmeia dos pulsos» (Cesuras, op. cit., p. 130). Os poemas curtos e irregulares, muitos deles com dois ou três versos apenas, condensam uma potentíssima abertura, de que resulta um estilo genericamente fundado na anfibologia, com as suas declarações elípticas e esfacelamentos sintácticos. Os versos alucinam o real mais chão em virtude de um êxtase semântico, de uma vocação polimorfa da realidade verbal, intensificando-a e laminando-a até ser quase irreconhecível. Alguns exemplos: «a artesanal pirataria que as éguas escondem nos cascos / de noite subindo a pulso. exaustos silos» (Sardas, op. cit., p. 155); «já perto do cálice / o aniversário dos poros» (As Mãos, As Crinas, op. cit., p. 189); «rodar a claridade na atracção das águas, / a morte desenhada na cinza do leite» (Boomerang, op. cit., p. 235).

Se Jean-Luc Nancy (1940-2021) entendia a poesia como o acesso a uma «orla de sentido», numa sucessiva aproximação ao que na linguagem poética fica imbativelmente à distância, como a linha do horizonte, o poeta de Os Ossos Dentro da Cinza está mais do que à altura da insistência, segundo Nancy, de tornar exacta essa distância no poema – «eu gostava de ouvir, em voz, o que só o silêncio conhece» (p. 21) –, fazendo reverberar nos versos a impropriedade substancial da poesia, o que nela subsiste de inabordável. Um pacto lustral, assim: «entrar na sombra e tirá-la do frio. / depois pôr lá a vida / e o nome de cada cor. // repetir o gesto enquanto a noite aconselhar» (idem, p. 17).

Como se vê, subjaz a estes escritos uma delicada oficina poética, para responder a «esta ânsia de conservar as imagens» (As Mãos, As Crinas, op. cit., p. 197), ou à obstinação do artífice contra o «poema teimoso / de descobrir novas claridades» (Cesuras, op. cit., p. 111). Noutro lugar, descreve o poeta este género de rito ou oferenda mágica: «eu colocara um caderno aberto e branco sobre a mesa de cabeceira / esperava a vinda nocturna de um ourives; o passo bêbado / de uma filigrana ensonada a meter-se no papel» (idem, p. 120). O vigor do poeta-artífice-ourives traduz-se, assim, num equilíbrio tenso, empenhado em conciliar contrários como a busca de um «caos limpo», «o rigor da nódoa mais perfeita», sagrar «livre de todo o luxo, a ferida» (Asas e Penas, op. cit., pp. 261, 271 e 273). Depura-se, desbasta-se, afunda-se o homem na matéria gumosa da linguagem, no que esta contém de «pedra», «corte» ou «magma», mas igualmente de «pássaros», «voo» e «ar».

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A sensação de lenta e inexorável decadência vai adquirindo tonalidades linguísticas menos esquivas, isto é, mais atentas ao núcleo duro das memórias e dos afectos familiares, sobretudo nos poemas que Emanuel Jorge Botelho foi publicando, sensivelmente, a partir do ano 2000. Torna-se, por isso, cada vez mais discernível a presença humana de um eu e um tu, a necessidade inconfessada de moldar com outra nitidez a dilaceração de quem fala no poema e do que nele é dito. A morte torna-se progressivamente menos impessoal, porquanto adquire o rosto dos rostos conhecidos que morrem ao poeta. Exemplar a este nível é o belíssimo poema «Palavras em busca de meu pai, no endereço que calculo», que começa assim: «mais dia, menos dia, José, / apareço por aí, / levado, à boleia, pelo alazão da morte» (in Tudo isto para falar da noite, 2012, p. 41). O envelhecer, as memórias soltas da infância, um maior apego ao real concreto (os «sumos Royal» que o pai lhe trazia, por saber «que a amizade dá muita sede»), a derrota perante os «coices» das palavras (outro vocábulo que teima em surgir), o estar à mercê da morte, semeando, à T.S. Eliot, em cada poema um epitáfio. Daí assumir: «eu tenho medo de tudo». E este excurso magnífico: «o medo é malino, não fica atrás da cicuta. / só tem duas sílabas, mas é uma palavra esdrúxula; / vai buscar o acento do poder às aspas que assassina / de mansinho» (in Telhados de Vidro, n.º 22, p. 41). Sem que os versos prescindam dos seus nódulos habitualmente tensos e ambíguos, nota-se que o poeta tende cada vez mais a marcar em linhas discursivas a aceitação das coisas, sem qualquer acento dramático: «as coisas são como são. / não vale a pena dar-lhes debrum de rosas bravas, / ou colheres de água quente / com três pitadas de açúcar» (in Os Ossos Dentro da Cinza, p. 26).

E, no entanto, ao amor se reserva ainda, e sempre, a chave de ouro para ousar trair a morte: «digo o teu nome, meu amor, / e deixo-me ficar» (idem, p. 14). Faz sentido, então, terminar esta leitura com um dos poemas de Manual dos Dias Cavos onde o amor, essa pequena luz bruxuleante mas indefectível, ganha corpo e toma voz no último instante, numa urgente primeira pessoa, com recurso ao imperativo. Não tendo mais nada a ganhar à vida, sabe o poeta o que não quer de todo perder. De corpo e alma (se não for redundante dizer-se alma), sabe em «Quatro linhas» apenas que o outro nome da vida se diz Lorena.

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Referências

Emanuel Jorge Botelho (2012), Tudo isto para falar da noite. Antologia poética. Prefácio e selecção de Manuel de Freitas, s.l., Língua Morta.

____________ (2012), «Antero de Quental, o anjo cansado», Cão Celeste, n.º 2, Lisboa.

____________ (2017), «Dizeres de Atalaia III», Telhados de Vidro, n.º 22, Lisboa, Averno.

____________ (2017), Os Ossos Dentro da Cinza, Lisboa, Averno.

____________ (2019), Dizeres de Atalaia I, Lisboa, Averno.

____________ (2020), «Folha de Cálculo», Reservado o direito de admissão, s.l. Piantao.

____________ (2021), Manual dos Dias Cavos, Lisboa, Averno.

Entrevista a Emanuel Jorge Botelho, programa «Ler Açores – Plano Regional de Leitura», 2013, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=enoJIIyNlX8 [consultado a 20/10/2021].

Jean-Luc Nancy (2005), Resistência da poesia, tradução de Bruno Duarte, Viseu, Vendaval.

Rui Nunes (2001), Rostos, Lisboa, Relógio D’Água.

Fotografia de destaque: Diogo Martins

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Categorias: Cultura, Ensaio, Literatura, Poesia

About Author

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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