Ir às compras | Safari no supermercado

Ir às compras | Safari no supermercado

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Não gosto, mas tem de ser! Ir ao supermercado é todo um universo que me transcende e me retira do meu próprio corpo. São poucas as vezes em que entro nestes espaços comerciais e não me imagino com uma cadeira a dar na cabeça de alguns seres que se atravessam no meu caminho.

Vamos imaginar o seguinte cenário: Apetecem-me cogumelos para o jantar e, depois de adiar vezes sem conta a ida ao supermercado, resolvo ganhar coragem e lá vou eu. Parece simples, não parece? Mas não é! Os cogumelos são frescos e isso implica percorrer o espaço comercial até lá ao fundo. Até podia ir pelo corredor do meio para a coisa ser mais breve, mas nos dias de hoje já nada resulta para evitar aquelas espécies de pessoas – a não ser Antrax um dia antes, mas isso é crime e, portanto, tenho que excluir a ideia.

Vou fazendo aquela peregrinação e lá começam os desafios!

Vai a mãe, a filha, o neto, o amigo do neto, o bebé de carrinho, o amigo da filha divorciado (aquele que gosta sempre muito de ajudar porque é um querido e a mulher que o levar vai ter muita sorte porque ele é docinho de leite, mas ninguém lhe pega porque está sempre a ajudar a amiga com os filhos). Não me incomoda a felicidade de alguns em ir ao supermercado, nem tão pouco todo um projecto em família para comprar um pacote de batatas fritas, iogurtes e leitinho. O que me incomoda é querer passar à frente e não conseguir. Porque quando, por um milagre, há ali uma vaga, o puto lembra-se que o quer mesmo é ir correr para o outro lado, a avó não sabe bem se lhe faz falta pasta de dentes ou rolos de cozinha, o amigo do puto corre atrás dele, a mãe está feliz porque a vida é mesmo assim e pequenas actividades fazem a diferença, o amigo divorciado não faz grande coisa, mas é um querido porque a embalagem de 6 pacotes de leite é pesada e ele leva e manda piadas sobre a família espectacular que ela tem.

Nesta altura, eu já estou com uma cor a fugir para o azul, saio do corredor do meio e entro noutro corredor. Há várias coisas mal nesta minha atitude de impulso: lembro que até me esqueci de azeite e massa e encontro novos desafios até chegar aos cogumelos.

Passo pelo homem que acha que nunca vai precisar de cesto nem de carrinho. Por algum motivo, andar de cestinho ou conduzir o carrinho é menos digno de homem e com alguma frequência encontro este ser a achar que só vai comprar dois ou três artigos e, de repente, precisa de um garrafão de água, ovos, cereais, iogurtes, uma pecinha de fruta porque é saudável, champô, amaciador, detergente da loiça… Anda em completo desequilíbrio no corredor, o que implica que eu diminua a minha velocidade e atrase mais um pouco o meu objectivo de comprar cogumelos. No fim eu vou ver este homem que não precisou de cesto a colocar as compras na mala do carro com um ar de satisfação que apesar de lhe ter caído um artigo, ter-se baixado para o apanhar e terem caído mais três, conseguiu todo um objectivo de não usar o cestinho. Não sei se naquele corredor havia alguma coisa para comprar ou não porque entretanto perdi muito tempo a tentar desviar-me do senhor que andava a mostrar os seus dotes de equilibrismo.

Encontro o corredor do azeite e até quero levar. Bem, em boa verdade, eu apenas queria. Porque não consigo esticar a mão para pegar. Está neste corredor aquela velhinha que vê mal ao longe e está a esmiuçar cada diferença de cêntimos do azeite. O carrinho da velhinha está exactamente parado no meio do corredor e faz aquela espécie de muralha entre querer ir buscar o artigo e não conseguir e querer passar à frente e também não conseguir. Eu até disse “com licença” mas a velhinha vê mal e ouve mal e não posso empurrá-la para se desviar que dá mau aspecto. Lá saio eu para outro corredor sem o azeite mas focada nos cogumelos.

Nesta altura, eu já estou feliz porque já vou a meio da caminhada e nem olho para o lado. Já passei por aquele casal que leva dois carrinhos cheios de compras quase a cair. Ainda vou às notícias a ver se vai haver um recolher obrigatório durante 3 meses e eu não sabia, ou algum ataque de zombies que seja melhor encher a arrecadação de bens essenciais. Também vi aquela maçã que me apetecia – eu não como fruta, mas devia comer de vez em quando. O certo é que isso não vai acontecer no dia que venho ao supermercado porque começo a olhar e a ver todos os super especialistas em fruta a apalpar e apalpar criando buracos em maçãs e melões que me afastam logo dali…….

Encontrei os cogumelos. E lá vou eu com uma caixinha por aqueles corredores na esperança de não encontrar mais ninguém que me impeça de chegar às caixas.

Chego à caixa e lá está a velhinha. Agora não há como fugir! É que atrás tenho sempre aquele ser que não tem noção das distâncias e tem um filho que já abriu o iogurte e o espalhou pelo tapete e pega na minha caixinha de cogumelos e eu tenho que fazer aquela cara de “oh as crianças são umas curiosas, que queridas” e se encostam a mim e falam alto. O cenário aqui é dos mais graves de todos. Estou completamente encurralada! É aqui que a velhinha começa a padecer das doenças todas do mundo e resolve contar à menina da caixa, explica que, para ela, até servia só uma sopinha, mas os netos vão lá a casa e ela vai fazer uns bifinhos. Entretanto, saca dos talões de desconto infinitos, porque ela é assim muito organizadinha.

Chega a minha vez e pago à velocidade da luz os meus cogumelos! Meto-me no carro e só penso em descansar. Em casa começo a preparar-me para cozinhar os mal fadados cogumelos… Bolas, esqueci-me da massa! Pfffffffff…………

 

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Categorias: Crónica

About Author

Vânia Ferreira

Licenciada em Relações Internacionais com especialidade em género, mas com uma paixão assumida pela geoestratégia. Profissionalmente ligada à moda, marketing e eventos na área do luxo. Provocadora de nascença e polémica por hobbie, vive a vida sem medo de brincar. Ambiciona um mundo em que todas as pessoas consigam galhofar com os seus próprios defeitos e com os dos outros sem que isso seja sinonimo de guerra.

Comentários

  1. Anónimo
    Anónimo 26 Maio, 2018, 15:26

    AHHAHAH! Epa, é mesmo assim, mas já estivemos todos do lado da velhinha ou do lado da família ou mesmo do puto que já abriu o iogurte! muito bom!

  2. Anónimo
    Anónimo 26 Maio, 2018, 08:00

    A irá que se a possa numa ida a supermercado!

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