‘Caminhamos para a generalização do salário mínimo como padrão. A menos que todos juntos compreendam que o salário de uns é o salário de outros, a situação só vai piorar’

Solidariedade

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A derrota dos estivadores, sujeitos a despedimento colectivo no dia que pela primeira vez foi decretado o Estado de Emergência serviu agora de pano de fundo para se replicar em todo o país o que lhes foi feito – despedir colectivamente, e contratá-los, a eles ou a outros, numa empresa ao lado, por 2/3 a metade do valor. A derrota dos trabalhadores da AutoEuropa expandiu a dezenas de sectores o trabalho obrigatório ao Domingo; a derrota dos motoristas de matérias perigosas, reduzidos numa forte campanha negra a uma figura irrelevante, Dr. Pardal, expandiu brutalmente a renegociação dos contratos colectivos de trabalho com mais trabalho por menos salário; a derrota na TAP oferece agora uma oportunidade para chamar os trabalhadores por esse país fora e lhes oferecer saírem da empresa e serem contratados ao lado por menos 25% do salário. A derrota da greve cirúrgica dos enfermeiros abriu portas à degradação do SNS, que, em plena pandemia, se viu ainda mais descapitalizado.

A vitória dos precários estivadores de Setúbal, que teve a solidariedade de alguns sectores, foi o inverso, um exemplo que mostrou que é possível garantir níveis mínimos de dignidade do trabalho (sim, não alcançaram mais do que isso, mas pelo menos isso), quando há níveis mínimos de cooperação entre os diversos sectores. Como o padrão do salário de um país é marcado pelo sector produtivo, médicos, professores, funcionários públicos, ou seja, tudo o que tem a ver com manutenção e reprodução da força de trabalho, ganharão cada vez pior – o meu salário deles é o meu salário do operário que formam, que curam, a que prestam um serviço.

Caminhamos para a generalização do salário mínimo como padrão, que é 650 na fábrica, 1000 nos professores, 1500 nos médicos, correspondendo estes valores ao mínimo para reproduzir a força de trabalho. A menos que todos juntos compreendam que o salário de uns é o salário de outros, a situação só vai piorar, e a bazuca é parte do declínio, ao propor por exemplo o fim da auto-regulação das Ordens Profissionais. A solidariedade é uma necessidade quando as condições de trabalho que se impõem a um sector são na verdade um padrão de país em declínio.

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Obs: artigo previamente publicado no blogue pessoal Raquel Varela | Historiadora do Trabalho, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Crónica, Rendimento, Trabalho

About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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