‘Confundir a árvore com a floresta, é não querer ver por medo da verdade, é querer que o mundo seja de outra forma’

Em busca da verdade: menos palavreado e mais ação

Em busca da verdade: menos palavreado e mais ação

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A maioria das pessoas fala muito. Fala daquilo que sabe e daquilo que não sabe. Aquilo que se julga saber nem sempre é verdadeiro saber, pois muito do que é dito é mera opinião. Já aquilo que é dito sem se saber o que se está a dizer, mera replicação do que se ouviu ou leu, jamais pode ser saber efetivo. Numa situação e noutra, as pessoas dizem o que dizem com tanta certeza que parece verdade. Mas esta, sendo difícil de descortinar e alcançar, acaba por vir à superfície, mesmo na espuma dos dias e mesmo nos delírios gritantes das redes sociais. Dizer-se que a pandemia é uma narrativa de quem detém o poder para alterar a ordem no mundo, que as vacinas alteram o código genético das pessoas, que as aplicações nos telemóveis serão usadas para controlar os cidadãos, que o racismo é uma questão de perspetiva e que os políticos do país são todos corruptos, dizer tudo isto cheio de cega certeza é confundir a árvore com a floresta, é não querer ver por medo da verdade, é querer que o mundo seja de outra forma que não a atual.

Verdade e negacionismo

Imaginar dezenas de pessoas, verdadeiras detentoras do dinheiro, sentadas à mesa a maquinar estratégias de ação que possam alterar a ordem do mundo a seu favor, parece algo saído de um guião de Hollywood. A maioria das ações de pessoas que procuram ganhar mais e mais, sem escrúpulos e sem princípios, são movidas pelo instinto e pela intuição na ação, rápidos a identificar a circunstância e rápidos a mobilizar a estratégia de ganho, mas não mais do que isto. Como qualquer ser que é fruto do acaso e de fatores na maioria das vezes aleatórios, a ação destes supostos iluminados tem sempre como principal objetivo ganhar pelo gosto de ganhar. Quando estes supostos iluminados tentam concertar estratégias de atuação conjunta, esbarram sempre nas massas que têm sempre enormíssimo poder de reação. No mesmíssimo erro caímos quando acreditamos que as vacinas alteram códigos genéticos. Dar ouvidos a isto é não acreditar na ciência ou atribuir-lhe poderes mais demoníacos do que divinos. Não é verdade que as vacinas dadas para combater esta pandemia foram feitas à pressa, que não são eficazes, que alteram os códigos genéticos, que provocam muitas embolias ou tromboses e que acarretam mais prejuízos do que benefícios. As vacinas de ARN mensageiro como os adenovírus, usadas no combate ao SARS-COV-2, já têm 20 a 30 anos de investigação. A única alteração é de escala, ou seja, esta pandemia foi a oportunidade para aplicar em força esta novidade tecnológica: em vez de se administrar no sistema imunitário o vírus na sua totalidade (o que é feito nas vacinas clássicas), injetam-se moléculas precursoras que vão dar origem à proteína (fragmentos de vírus). É esta proteína que origina a resposta imunitária protetora. Estas vacinas à COVID-19, para além de permitirem melhor resposta à infeção, têm uma aplicação preventiva e terapêutica, aliás, à semelhança de todas as outras vacinas que tomamos ao longo da vida. Apesar dos ligeiros sintomas adversos (dores de cabeça, dores no corpo, febre) e do risco estatisticamente irrelevante de tromboembolismo (daí o medo), o efeito benéfico das vacinas supera em muito os riscos até agora identificados.

Opiniões sem análise e reflexão crítica vivem longe da verdade

Mas o medo, as manias de perseguição e as dificuldades em processarmos seletivamente tanta informação disponível fazem-nos desconfiar de tudo. É devido ao medo de passarmos de um Estado de direito a um Estado policial que recusamos aplicações para telemóveis para rastrear infetados. E tal medo resulta de sabermos que Estado somos, que instituições temos e que passado recente tivemos: a imposição de caminhar sozinhos, as quarentenas obrigatórias, os confinamentos forçados, a limitação da liberdade de circulação, a ostracização de quem pensa o contrário (os negacionistas, assim são designados), as coimas por comer um pão na rua (vendido ao postigo) e a banalização do estado de emergência faz-nos sempre temer o pior. E há muito tempo, talvez desde o fenómeno Sócrates e Espírito Santo, temos a falsa generalização que a corrupção se estende a tudo o que é político. Contudo, continuo a crer que os hospitais, as estradas, os caminhos de ferro, os espaços públicos arranjados, as ciclovias, as ETAR e tantos outros organismos do Estado e do privado, são a garantia, ou prova, de que o dinheiro ou apoios da União Europeia não é todo desviado e que os impostos não servem somente para o enriquecimento ilícito dos titulares de cargos políticos. Da mesma forma que o racismo e o nazismo não são opiniões, mas indiscutivelmente crimes, também a luta contra esta ou outras pandemias deveria levar a mais união na ação e menos palavreado. Análise e reflexão crítica sobre conceitos e crenças fundamentais presentes no dilema entre liberdade individual ou segurança e saúde coletiva parecem ser tópicos de discussão relevantes, mas não impeditivos de assertividade e responsabilidade na ação, nomeadamente, quando esta se impõe com urgência.

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Imagem: Grace Brauteseth/Unsplash

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Categorias: Crónica, Sociedade

About Author

Domingos Manso

Domingos Manso de Araújo, nasceu há 54 anos, em Braga. É professor do quadro da Escola Secundária D. Sancho I, V. N. Famalicão desde 1989. Licenciou-se na Faculdade de Filosofia de Braga e fez mestrado em Filosofia da Educação na Universidade do Minho. Escreve na Revista Sancho Notícias e é colaborador permanente no jornal Ecos da Gravia, Valadares, São Pedro do Sul.

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