Pedro Maia Martins

Louvor | Elogio a alguém que odiava

Louvor | Elogio a alguém que odiava

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A academia britânica ficou mais pobre no dia 12 de janeiro. Roger Scruton não resistiu ao cancro contra o qual lutava desde julho do ano passado. A imprensa não tardou a noticiar a morte de um dos pensadores mais influentes da atualidade.

Contudo, Scruton era mais que um filósofo especializado em estética e filosofia política. Scruton era um papagaio profissional, um opinador sobre todos os temas desde arte, política e literatura até à sexualidade e à religião. Scruton era um brexiteer convicto, um islamófobo, um tradicionalista do mais radical possível. Quando não gostava de um género artístico, Scruton afirmava tratar-se de arte de “mau gosto”, pois “não apelava ao transcendente”, seja qual for o significado desse “transcendente”. Roger afirmava todos esses impropérios do cimo do seu trono e os comuns mortais que fizessem o favor de aceitar a sua superioridade.

Contudo, há alturas nas quais somos obrigados a aceitar as virtudes daqueles que repudiamos. Scruton podia defender ideias abjetas, mas é inegável que muitos dos vícios persistentes na elite da atualidade estavam ausentes neste filósofo inglês.

Saber do que fala e não falar daquilo que não sabe

É comum quem opina sobre arte olhar tudo de forma subjetiva e afirmar como “mau” aquilo que simplesmente não gosta. É ainda mais comum esses opinadores focarem-se apenas no produto final como se a arte não fosse um resultado de todo um processo criativo. Porém, a crítica artística é um antro frequente de criadores falhados ou simples espectadores que falam de música sem alguma vez terem tocado um instrumento ou de literatura sem terem escrito um mero conto (com a devida excepção a posteriori de Charlie Brooker, o criador da série Black Mirror).

As óperas The Minister e Violet, assim como a biografia musical do cravista Violet Gordon-Woodhouse demonstravam o seu conhecimento da área sobre a qual opinava, algo apoiado ainda no seu passado como baixista na adolescência.

Conservadorismo verde?

Numa era dominada pelo debate sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, os gestos condenatórios e retórica inflamada por parte de ambientalistas tem proliferado. Como se o confronto fosse a única solução e o diálogo entre lados supostamente opostos nunca tivesse sido a resposta, frequente vemos ecologistas posicionados na esquerda e condenando os conservadores e tradicionalistas como inimigos do ambiente. Os mesmos “inimigos do ambiente” que em épocas passadas defendiam a preservação da natureza, como a dádiva de Deus e parte do património de um povo. Os mesmos “inimigos do ambiente” que criavam organizações ambientalistas em igrejas, onde passavam o resto do tempo a debater “moral e bons costumes” (veja-se como exemplo a antiga República Democrática Alemã ou Alemanha de Leste).

Scruton representava uma das faces deste conservadorismo verde, destes amantes do património natural que estava disposto a dar o passo tão necessário que todos os ambientalistas recusam dar: fazer a mensagem ambientalista chegar à Direita. Muitos podem recusar-se a acreditar, mas os seus textos dizem o contrário. É o caso do seu artigo no The Guardian, “How conservatives can help to tackle climate change” ou do seu ensaio “Conservatism and the Environment”.

Louve-se também a sua recusa, tão frequente tanto em progressistas como em alguns conservadores da atualidade, da fetichização dos direitos dos animais e a visão destes seres como eternos inocentes. A pessoa humana deve sempre ser elevada acima de todas as outras entidades, algo que Scruton fazia ao recusar a equalização entre direitos dos animais e direitos humanos defendida do por Peter Singer.

Por fim, louve-se o facto do filósofo inglês nunca se ter recusado a evoluir nas suas posições, como foi o caso da sua rejeição, em 2010, das posições homofóbicas que defendera no passado. Excesso de coerência não é uma virtude, mas um defeito da pior espécie

O historiador grego Diógenes Laércio recomendava: “Não faleis senão bem dos mortos”. Eu pensei que nunca o faria sobre Roger Scruton, mas pelos vistos, é possível encontrar sempre algo louvável em alguém, mesmo naqueles se encontram nos nossos antípodas ideológicos.

Viva Sir Roger Vernon Scruton (27 de fevereiro de 1944 – 12 de janeiro de 2020). Descanse em paz.

Imagem: Roger Scruton

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Categorias: Crónica, Cultura

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