‘Da economia de guerra à imobilização de capitais, o prato frio do mercado está aí’

De braços abertos a gozar com o pagode

De braços abertos a gozar com o pagode

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Por estes dias, num aeroporto, passei pelo caos esperado da competição, a pedra filosofal da economia de mercado. Dizem-nos, no entanto, que sem competição nada funciona, quando o que vemos todos os dias é justamente o contrário. Veja-se o que se passa um pouco por todos os aeroportos da Europa, de Londres a Lisboa, passando por Bruxelas e Amsterdão. Sem cooperação, nada funciona.

Pagar mal ao pagode acaba em serviços degradados

4 horas de espera no superautomatizado aeroporto de Amesterdão. Das 19 linhas de segurança só 3 funcionavam porque despediram os trabalhadores e lhes pagam mal. Ao todo levei 12 horas entre sair do hotel e chegar a casa. Gente amontoada, idosos, crianças, mau cheiro, segurança zero (o meu boarding pass só foi visto à entrada do avião!). Seguiram-se mais de 2 horas de atraso do voo da TAP, sem qualquer informação aos passageiros sobre direitos, indemnizações, e alimentação. Tudo isto acontece porque quando se paga mal aos trabalhadores os serviços acabam degradados. Em nome da competição, despediram os trabalhadores da manutenção e não havia pessoal disponível para arranjar um problema técnico no nosso avião – segundo me disseram. Despediram também e mal pagam ao sector da segurança nos aeroportos. Nem o meu café com chocolate, clássico lugar onde paro naquele aeroporto dos Países Baixos, estava aberto no aeroporto – justificação: “Não há trabalhadores”. É um mimo, e a vida sem mimos não tem qualquer sentido. Agora a nova fase é sem mimo e sem mínimos.

Defender as condições de trabalho dos outros é defender uma sociedade decente e a nós próprios

Não há falta de trabalhadores, pois há milhões no desemprego e na precariedade, o que não há é paciência para a degradação social que os gestores e accionistas colocaram nos locais de trabalho. É disso que as pessoas fogem, não é do trabalho. O mercado é tóxico.

O lucro está a destruir-nos a vida. Somos tratados como animais nestes locais, deitados no chão, sem qualquer apoio, deixados em filas intermináveis. Por isso, defender as condições de trabalho dos outros é não só defender uma sociedade decente, e isso sim é o que nos deve mover, como é defender-nos a nós próprios. Os problemas de quem trabalha são os  nossos problemas.

O caos dos aeroportos não passa pelos jactos privados

O caos está instalado. Da economia de guerra à imobilização de capitais, o prato frio do mercado está aí. Não o provam todos – disparam o número de viagens em jatos privados onde, creio, não falta café, chocolate e garrafas de vinho de 3 mil euros. Por este caos não passam os accionistas que investem nas empresas e cuja remuneração dos lucros depende dos salários cada vez mais baixos dos trabalhadores de todo o mundo. No ano passado houve 3, 3 milhões de viagem em jactos privados, pagos com a exaustão de quem trabalha. De braços abertos!

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Obs: texto previamente publicado em Raquel Varela | Historiadora, com ligeiras adequações na presente edição.

Imagem: AAS

De Eva a Jezabel

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O assédio do lucro nos locais de trabalho

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Categorias: Crónica, Economia, Trabalho

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