Os detratores da cozinha vegetariana acham-na desprovida de emoções fortes, o que é totalmente injusto e demonstrativo até de uma certa falta de cultura de ingredientes, infelizmente comum, mesmo entre os melhores gastrónomos. Desconhecem, certamente, a norça e uma espécie de ‘Fugu à Portuguesa’.
A cozinha japonesa, por sua vez, é reconhecida mundialmente pelo seu requinte, simplicidade, e pela multitude de extravagantes ingredientes que emprega, proporcionando experiências impróprias para cardíacos.
Como é o caso do peixe-balão ou fugu, considerado um dos animais mais venenosos do mundo. As bactérias que habitam o corpo destes tetraodontídeos produzem uma neurotoxina, designada por tetrodotoxina, cerca de 1200 vezes mais mortal do que o cianeto.
Comer o hipertóxico peixe-balão e sair vivo da experiência
A ingestão deste veneno, desprovido de cheiro ou gosto, mesmo numa ínfima quantidade, pode causar uma paralisia total do corpo, até este entrar em colapso. Todos os anos a ingestão destes peixes provoca a morte a dezenas de pessoas que consomem o peixe sem uma correta preparação.
Não há um antídoto.
Nos restaurantes que servem esta iguaria radical, os cozinheiros têm obrigatoriamente formação específica e um certificado especial.
Estes cozinheiros removem com precisão cirúrgica ovas, fígado e intestinos do peixe. São considerados a elite da alta cozinha japonesa.
Em Portugal também se cozinha com plantas tóxicas
A ancestral tradição gastronómica Portuguesa também tem o seu ‘fugu’, é vegetariano e vive refugiado nas memórias das comunidades rurais, resistindo estoicamente ao afunilamento de ingredientes que nos trouxe a globalização.
A norça-branca – Bryonia dioica -, também conhecida por briónia-branca, erva-cobra ou nabo-do-diabo, é uma maravilhosa cucurbitácea que vive em orlas de bosques, pomares abandonados, sebes e lugares húmidos e sombrios.
É uma das plantas mais tóxicas da flora de Portugal. Os frutos, vermelhos e atraentes, bem como as raízes, contêm brionina e brionicina, podendo provocar a morte a quem ingerir estas partes da planta.
No entanto, ainda antes de existir a cozinha vegetariana, há séculos que pastores, agricultores e uma mão cheia de sábios cozinheiros colhem cuidadosamente durante a Primavera os seus rebentos tenros com as primeiras folhas, antes da floração, para secretamente produzirem iguarias que se comem com emoção.
Depois de lavados, escaldados e passados por água fria, para ficarem crocantes, podem ser cozidos ou salteados em azeite e alho.
Ou misturados com ovos e cebola picada, produzindo deliciosas tortilhas ou omeletes.
É uma espécie de ‘Fugu à Portuguesa’, com tempura, como há séculos ensinamos os japoneses a fazer! Vegetariana!
Mal posso esperar pela próxima Primavera para ir colher norças!
Atenção: não confundir uma ‘norça’ com ‘uma narsa’
Atenção, não confundir “apanhei uma norça” com a expressão popular “apanhei uma narsa”, vulgo beber para além da conta, ficar alcoolizado.
Apesar de ser possível apanhar uma narsa depois de apanhar uma norça – porque uma coisa pode levar à outra -, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
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Obs: texto previamente publicado em Luís Alves – Agricultor | Cantinho das Aromáticas, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.
Imagens: DR