A Acção Católica, Marcelo Rebelo de Sousa e a crise na Igreja

A Acção Católica, Marcelo Rebelo de Sousa e a crise na Igreja

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A Acção Católica, Marcelo Rebelo de Sousa, a independência judicial e a crise na Igreja, com os escândalos de pedofilia, encontram-se no centro de uma série de notícias que têm vindo a público nos últimos dias e têm agitado a comunicação social e os portugueses em geral.

Marcelo Rebelo de Sousa gere como ninguém a sua comunicação. Desta vez, um erro crasso foi cometido com um telefonema a José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima, a informar a ‘denúncia por alegado encobrimento de abusos sexuais para a PGR‘. A compreensão das diversas notícias que vieram a público, por estes dias, sobre pedofilia na Igreja e algumas tentativas de desvalorização das mesmas, podem dar-nos, assim, pistas sobre o país.

O papel da Acção Católica no tempo do Estado Novo

De facto, o partido da ditadura foi a Acção Católica, criada em 1932. Portugal não precisou desenvolver um partido fascista – semelhante ao italiano e ao alemão – criador de uma ideologia ultranacionalista e antiliberal porque a capilaridade da Igreja cumpria esse papel. As milícias, encarregadas de assassinar dirigentes de esquerda, quase não foram necessárias aqui, já que o Estado cumpria o papel repressivo, sem risco de divisões.

Inspirada na encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, a bíblia da doutrina social da Igreja, a Acção Católica tinha um papel fundamental na criação da ideologia “pobrezinho, com fartura de carinho”, moldando os corações e as mentes ao ultra-conservadorismo e ao anti-comunismo, que resultava na opção de um país onde os camponeses, isolados em pequenas comunidade, produziam os bens a preços baixos que alimentavam as cidades e a indústria. Assim se mantinha uma estrutura tradicional de produção e trabalho a que vinha agregada a ignorância, a brutalidade de comportamentos, de vida desumanizadas pelo trabalho braçal esgotante, a mulher nascida da “costela do homem” – com escasso acesso ao trabalho assalariado -, os filhos como mão-de-obra e as filhas como segurança social primitiva (que cuidam de crianças e idosos e doentes).

Um Portugal subdesenvolvido e um país cheio de ‘alegria no trabalho’

A ideologia do trabalho do Estado Novo – a “alegria no trabalho” – não era a ideologia do trabalho emancipador, criador, autónomo, mas a pregação do núcleo familiar primitivo, autossuficiente, o que só se conseguia com miséria ou emigração. Era este o alimento da formação dos grandes grupos industriais. Proprietários, que, finalmente, assim – alguns com paixão conservadora, outros lamentando o facto como “necessário” -, apoiaram uma ditadura de 48 anos para conter o “movimento operário grevista que não deixava o país lançar-se para o mundo desenvolvido”.

Os camponeses e um atraso de 48 anos na vida de um país

Paradoxalmente – é a minha hipótese – a base social de apoio do atraso – os camponeses – vai também ser a causa do atraso da industrialização. Que chegará finalmente com inversão massiva de capitais estrangeiros, só nos anos 50 e 60, e com a revolução, em 1974-75, que a todo o custo na década de 1920/1930 quiserem evitar. Ou seja, a burguesia portuguesa não evitou nem o atraso, nem a revolução – tornou-a mais radical. Mas o custo foram 48 anos de terror e miséria, de absoluta tristeza no trabalho e, por isso, na vida.

Atraso e ignorância das classes dominantes portuguesas

As classes dominantes portuguesas são ignorantes porque são atrasadas e são atrasadas porque são ignorantes – caminham a cada movimento político para a sua auto-extinção, sendo hoje parceiros menores, até pedintes e súbitos das classes dirigentes da Europa rica com uma dimensão que porventura nunca foi tão ampla e, curioso, assumida – “temos que fazer assim porque a UE manda” é uma frase que pronunciam sem vergonha quando lhes pagam para parar a produção, ou destruir serviços públicos (essenciais ao desenvolvimento) para remunerar a dívida.

Papa Francisco promove investigação profunda à pedofilia na Igreja Católica

A Acção Católica vai ter o seu aggiornamento depois da Revolução dos Cravos. Marcelo Rebelo de Sousa, que assume ir a Fátima duas vezes por mês e ser “providencialista” ao jornal que fundou, o Expresso, jornal que faz parte da mesma construção de hegemonia da doutrina social da igreja, que sempre foi liberal economicamente, e conservadora política, representa a ala mais conservadora da Igreja. Mas que não está hoje no Poder no seu Estado, o Vaticano. O herético Papa Francisco, fruto de uma revolução na Igreja depois da falência económica desta, em 2008, chegou ao leme e exigiu uma investigação profunda do mais grave crime social – a pedofilia. Que a Igreja de Bento XVI abafou, e de que foi convivente.

Quebra de princípios de independência

A propósito destas notícias sobre pedofilia na Igreja, Marcelo parece aqui ter perdido a “mão” na sua folha de comunicação quase impecável. O papel de Marcelo, na sua infeliz intervenção como “comunicador” em casos que são da justiça laica, só pode ser compreendido num quadro da política portuguesa e do peso do catolicismo desta, bem como do cisma dentro da Igreja. O papel da Acção Católica e da doutrina social da Igreja é justamente, e assumidamente na sua fundação, “impedir a luta de classes”, ensinar a ser pobre, modesto e contente (sim, contente, porque felicidade é para o reino dos céus). Arrastado por esta vontade de criar consensos sociais onde há cada vez mais desigualdade, e pela fidelidade política ao seu Partido, que é de facto em termos históricos a Acção Católica, Marcelo cometeu um erro, que não é de somenos – envolver-se em questões de justiça ultra-delicadas, as mais sensíveis de todas, quebrando princípios de independência formais que, sendo formais, não são meramente simbólicos.

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Obs: texto previamente publicado no blogue Raquel Varela | Historiadora, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Crónica, Justiça, Política

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