José Ilídio Torres

Esperança | Crónica de uma nota só

Esperança | Crónica de uma nota só

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Era agosto e nada em ti era um sol posto. Os relógios afinavam-se sozinhos na mudança das horas, dos dias, com uma corda interminável de momentos irrepetíveis.

As cegonhas não vinham de Paris, por isso os meninos deviam nascer de outra maneira – talvez fabricados.

A lua não era de queijo, e um foguetão nunca lhe alunou num olho.

O padre da paróquia tinha vários filhos e cada um lhe pedia a bênção, se bem que na Páscoa lhe chamassem padrinho, com um raminho de oliveira na mão.

A máfia não era leal nem tinha código nenhum, matava porque sim, como quem espirra.

E eram tantas as evidências que o mundo girava ao contrário, que um cego que via mais que toda a gente deixou cair um coração.

Tombou numa praça cheia de gente, fazendo um buraco enorme num vaso esquecido de malmequeres.

Depois veio um verbo como no início. A principio tímido, depois fulguroso, dando nome ao movimento perpétuo.

Não valia a pena sacrificar um cordeiro, a ignorância tinha tal tamanho, que um pôr do sol se viu aflito para desaparecer sendo visto.

E os livros que nunca foram lidos? Acaso morrem sozinhos?

Digo-vos com franqueza que não sei. Tudo isto começou por um título, não daqueles nobiliárquicos. Um título só, de uma nota só, para escrever uma crónica das coisas que não temos tempo para pensar, porque andamos quase sempre ocupados a pensar em coisa nenhuma.

É esta a crónica. A que nos afastou dos outros por causa de um vírus, infindavelmente menor que todos aqueles que nos oprimem. À beira deles, o Covid é um santo pecador.

É esta a crónica de quem perdeu a paciência ao jogo e depois penhorou os anéis de Saturno, antes que alguém os reclamasse como seus.

É esta a crónica dos esquecidos da fome, porque de tão minguada a sua barriga, nela não cabe um talk-show, quanto mais um pedaço de pão.

É esta a crónica dos que, nascendo na Terra, não têm direito à propriedade nem à propriedade de coisa nenhuma.

Esta é a crónica dos indigentes, dos mendigos, dos ladrões de bicicletas. A crónica dos poetas, seres estranhos que lambem as feridas do medo para ganharem anti-corpos.

Ninguém contesta a opressão, ninguém sabe dizer o nome de cada vala comum. Vivemos um tempo sem tempo onde ter e possuir são um viagra estragado, que ilude, mas não fecunda.

Esta é a crónica de quem a quiser tomar como sua, de quem quiser meter a mão na massa para fazer sorrisos de coisas simples como solidariedade, justiça e igualdade.

Esta é a crónica de quem porfia e acredita, de quem corre contra o tempo num passo curto, tão curto que cada meta se faz caminhando, se faz mudando.

Como quem enfia camelos por buracos de agulha, e sabe que depois de passarem nada será igual.

Fiz esta crónica de uma nota só com um fio de água. Com ele atei um presente que vos ofereço:

– O amanhã.

 

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

José Ilídio Torres

José Ilídio Torres nasceu em Barcelinhos em 1967. Estudou Direito e Arqueologia, mas acabou licenciado em ensino, variante de educação física, leccionando ao 1º e 2º ciclo do ensino básico. É formador em futebol há cerca de 20 anos. Trabalhou como jornalista na imprensa regional, em jornais como o Notícias de Barcelos e Primeiro de Janeiro, bem como na Rádio Cávado. É autor de 11 livros, em romance, conto, infanto-juvenil e poesia. Foi deputado municipal em Barcelos e candidato à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda, tendo-se afastado recentemente da vida política activa.

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