Costa Pinheiro: uma vida em diálogo permanente com a arte contemporânea europeia

Costa Pinheiro: uma vida em diálogo permanente com a arte contemporânea europeia

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O percurso biográfico e artístico de Costa Pinheiro, nascido, em 1932, em Moura, dividiu-se entre Portugal e a Alemanha, onde a sua obra obteve significativo reconhecimento. Artista plástico com obra exposta em locais públicos, António Costa Pinheiro foi um “pioneiro discreto de várias tendências da arte contemporânea”. Com uma obra diversificada, desenvolveu, a par da pintura, práticas consonantes com as tendências conceptuais da década de 1970.

Aos 10 anos de idade, fixou-se em Lisboa, onde foi viver com os pais. Costa Pinheiro frequentou depois a Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, tendo exposto individualmente pela primeira vez, em 1956, na Galeria Pórtico, em Lisboa. No ano seguinte, partiu para Munique, onde frequentou a a Academia de Belas Artes. Aí expôs, com René Bertholo e Lourdes Castro, na Galeria 17 e na Internationales Haus. Em 1958, juntamente com René Bertholo, Lourdes Castro, João Vieira, José Escada, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo, fundou o grupo de intervenção artística KWY que se manteria até 1964.

Em 1960 recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e fixou-se em Paris. Nesse mesmo ano, Costa Pinheiro participou na exposição do grupo KWY na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa – exposição “que marca o início dos anos 60” na arte portuguesa. Regressou a Lisboa em 1961, ficando dois anos em prisão política, após o que regressou a Munique (1963). Em 1965 e 1966 expôs individualmente na Galeria Leonhart, Munique. No ano seguinte, António Costa Pinheiro recebeu o prémio de Pintura (Förderpreis) da Cidade de Munique e expôs na Galeria Buchholz, Lisboa.

Costa Pinheiro – da pintura às práticas conceptuais

As pinturas gestuais típicas do início da permanência de Costa Pinheiro em Paris evoluem ao longo da primeira metade da década de 1960 para obras onde as figuras, pequenas e esparsas, dialogam com fundos indefinidos, “afirmando-se em estruturas geométricas ou identificadoras de personagens, […] geralmente homens e touros” que revelam “a memória involuntária do emigrante português, nascido perto da fronteira com Espanha”. O artista assume então o imaginário que consigo transporta e, em 1966, realiza uma série de retratos imaginários dos Reis de Portugal […], segundo a recriação, lírica ou irónica, das lendas populares”. Essas figuras ocupam lugar centralizado nas obras e apresentam a “rigidez característica da estatuária oficial”, regendo-se por traçados inspirados nos jogos de cartas tradicionais.

Em 1969, depois das suas últimas exposições individuais, afasta-se da pintura, aproximando-se das práticas conceptuais em projectos onde “simula brinquedos populares de madeiras coloridas com vivacidade”, que integra em “irónicos contextos de ficção científica”, como em Citymobil, ” projecto imaginário em que a cidade é permanentemente transformada pelos seus habitantes”.

Na Alemanha, onde então residia, Costa Pinheiro “haveria de encontrar […] um reconhecimento e uma atenção assinaláveis. A obra que realizou pôde […] aspirar a uma ambição plástica e mesmo teórica – que o artista explicitou numa série de obras de teor conceptual – que na arte portuguesa e nos seus contextos de então, […] jamais teria tido qualquer espécie de eco”.

Cinco décadas em diálogo com a arte contemporânea europeia

Retoma a pintura em 1976 com dois ciclos emblemáticos: La Fenêtre dans ma tête e Fernando Pessoa, onde utiliza dispositivos herdados das incursões conceptuais; nesta última série realiza um levantamento imaginário “dos objectos e espaço próprios do Pessoa mítico: chapéu, óculos, caneta, gaivotas do Tejo, Lisboa…”.

Ao longo das décadas de 1970, 80 e 90 expõe inúmeras vezes em Portugal e no estrangeiro (sobretudo em Munique), nomeadamente na Galeria Kunst + Kommunikation, Munique (1992, 1993, 1996-1997), no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (1989), e na Casa de Serralves, Porto (1990). Em 2001 recebe o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, de atribuído pelo Museu Municipal de Amarante.

“A obra de António Costa Pinheiro desenvolveu-se, ao longo de quase cinco décadas, como uma das mais corajosas, coerentes e lúcidas da segunda metade do século artístico e cultural português”, entrando em diálogo “com a restante arte sua contemporânea no plano europeu, tornando-se internacional pela escala do desafio formal e conceptual que soube integrar”.

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António Costa Pinheiro morreu em Munique a 11 de Outubro de 2015.

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Imagens: Costa Pinheiro by Manuelvbotelho

Amar uma sombra: com Lourdes Castro

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António Álvaro de Azevedo Vieira de Castro

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Acerca do Autor

Margarida Vale

Deram-me o nome de Margarida e, sem terem essa intenção, fiquei ligada à terra e aos seus modos. Margarida do Vale. Mistura de culturas que se sabem entrosar, entre o sul e as ilhas, assim cresci entre gente culta e estudiosa e pessoas simples que sabiam o valor da labuta diária. Sou uma amálgama de tudo e de vontades, por isso, a mente que me foi dada é irrequieta. Já tive várias profissões e agora estacionei no ensino. Que existe de melhor do que estar com gente jovem, com pequenos diamantes que precisam de ser lapidados e polidos? Os desafios são enormes mas a recompensa é bem maior. O crescimento é recíproco e salutar. A História é uma paixão, assim como a escrita, que esteve parada durante uns anos e cuja gaveta foi reaberta sem data para encerrar. O passado coletivo é a nossa herança e não pode ficar esquecido. para tal existem as letras que lhe tentam fazer justiça e testemunho. Afinal de que somos feitos? De sonhos e de quereres e ainda de várias vidas que se vão vivendo conforme os obstáculos vão surgindo e necessitam de ser ultrapassados. Viver é uma arte que se renova e que encanta. Talvez seja por isso que o Tejo me acompanha e vivo bem perto dele e do local onde os barcos foram feitos para zarparem e descobrirem novos mundos.

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