‘As lutas de Joacine fazem falta no espaço público e político português, tal como Rui Tavares pode acrescentar algo de muito positivo ao debate parlamentar caso venha a ser eleito’

A prova de vida de Rui Tavares

A prova de vida de Rui Tavares

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A surpresa pela boa prestação de Rui Tavares nesta campanha eleitoral parece-me manifestamente exagerada. O seu percurso político é longo, teve experiência parlamentar na Europa e desde há muito que dá a conhecer o pensa naquilo que escreve em jornais e em livros. Acresce ao curriculum a determinação e boa preparação com que apareceu nos debates, mas essa era uma condição inescapável em função do que estas eleições significam para o Livre: uma Prova de Vida. Se voltar a não eleger ninguém estou convencido de que não haverá mais caminho para este partido. A Rui Tavares restaria tornar-se um franco-atirador, disparando, através da prosa, contra alvos escolhidos por convicção ou por capricho, ou então ingressar no PS, reforçando a ala esquerda do partido, o que talvez até nem fosse má ideia.

Em todo o caso, as sondagens apontam para a eleição de Rui Tavares, e se assim acontecer será eleito com todo o mérito. Contou com uma enorme vantagem decorrente da eleição de Joacine Katar Moreira em 2019: a possibilidade de participar nos debates reservados aos partidos com representação parlamentar. Uma vantagem que decorreu do que começou por ser (e ainda é) uma pedra no sapato. O processo de rutura entre Joacine e o Livre foi traumático e deixou marcas profundas no partido. O bom ou mau feitio de Joacine e de Rui Tavares pesaram, certamente, no desfecho, mas as questões políticas vão muito além desse fator. Joacine aceitou candidatar-se pelo Livre aceitando, evidentemente, o programa do partido. Por outro lado, nada há no ideário do Livre ou no pensamento dos seus militantes (que conheci bem nas eleições de 2015) que se oponha ou coloque sequer reticências aos movimentos anti-racistas e decoloniais em que Joacine fez assentar a sua ação política. O desacerto terá resultado não tanto da oposição às ideias mas antes da centralidade que lhes caberia assumir. Joacine quis orientar o Livre para uma luta necessária e bastante invisibilizada na sociedade portuguesa, concretamente o racismo estrutural, o combate à herança colonial, a necessidade de dar voz aos subalternos. Não colidindo com estes objetivos, a agenda do Livre era mais abrangente.

A vontade de Joacine confrontou-se com pelo menos dois problemas. Por um lado significava afunilar o projeto político do Livre, subalternizando a visão global que tem dos problemas do país à focalização num tema fraturante, capaz de captar interesse e militância, mas que faria do Livre um partido de nicho. O segundo problema é mais profundo. Tem a ver com a colisão entre uma visão de rutura estrutural (aquilo a que Joacine chama «radicalismo de esquerda») e a matriz fundacional do Livre. Este partido, que é ainda e talvez nunca deixe de ser o «partido de Rui Tavares», tem uma matriz que é mais de reforço ou reajuste que de rutura. Tal como o seu fundador, é um partido europeísta, defensor da democracia representativa e da herança política liberal, valorizando o progresso científico dentro das coordenadas definidas desde o Iluminismo. Dizendo de outra forma: reconhece as fragilidades do modelo atual mas não culpa o modelo em si, antes a forma como foi sendo aplicado nos processos políticos concretos. Creio que foi esta colisão política que esteve na base da rutura, muito embora o que tenha vindo à superfície tenha sido a espuma de confrontos e acertos de contas pessoais.

O Livre sentiu-se livre para refazer o seu caminho, tal como Joacine se deve sentir livre para fazer o seu. Tem a seu favor o crédito eleitoral que permitiu a Rui Tavares entrar no «campeonato dos grandes», mas não deve esquecer que a visibilidade que ganhou e a pode catapultar para outros projetos fica a dever-se ao Livre. Quanto ao resto, as lutas de Joacine fazem falta no espaço público e político português, tal como Rui Tavares pode acrescentar algo de muito positivo ao debate parlamentar caso venha a ser eleito como espero.

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Observação: artigo previamente publicado na página facebook de Luís Cunha, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

Imagem: Filipe Amorim/Observador/(ed VN)

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