Desligar o interruptor [da pandemia]

Desligar o interruptor [da pandemia]

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Essa coisa da pandemia chegou àquele ponto em que só apetece desligar os alarmes que se ligaram aquando da sua eclosão. O problema é que quem pode parece pouco interessado em fazê-lo. Eu percebo o receio, o medo, o pânico inicial. Percebo que tanto o cidadão comum como as autoridades políticas e sanitárias tenham reagido com base nesse medo. Ao longo da história surgiram pestes que dizimaram uma parte substancial dos humanos. Era fácil acreditar que algo de semelhante pudesse voltar a suceder desta vez. É compreensível que, na incerteza, tenhamos seguido o modelo ensaiado na China, trancando em casa milhões de pessoas, mandando parar tudo, gerando uma crise cujos efeitos maiores ainda estão por chegar. Medidas compreensíveis, em todo o caso, mesmo que a comparação, com uma China autocrática e onde as liberdades individuais nada contam, não nos beneficie.

Mais de seis meses passados desde que tudo começou, há dois problemas que se vão tornando demasiado visíveis para os ignorarmos. O primeiro problema diz respeito à desmesura das medidas face ao perigo real. Seja pela natureza do vírus, seja pela qualidade dos serviços de saúde hoje disponíveis, seja pela provável combinação de ambos os fatores, julgo que se tornou bastante evidente que não vai sair daqui uma Peste Negra ou uma Gripe Espanhola. As medidas que continuamos a seguir afiguram-se hoje exageradas. Se elas foram compreensíveis no começo, começam hoje a raiar o disparate. Sem surpresa, a Comunicação Social continua a cavalgar a onda do medo, avançando todos os dias com as centenas de novos casos, como se esse fosse o fator mais relevante. Porém, as mortes e os internamentos em cuidados intensivos não sugerem descontrolo, parecendo, pelo contrário, que a maioria dos casos detetados se revelam de baixa gravidade ou assintomáticos. As coisas podem vir a alterar-se, evidentemente, mas neste momento vejo demasiado barulho e agitação para tão pouca coisa.

O segundo problema é de natureza mais qualitativa, reportando à irracionalidade de muitas das medidas e comportamentos que nos são impostos. Quando tivermos distanciamento suficiente havemos de nos rir de tanto disparate. Entramos nos cafés de máscara para logo a retirarmos, estejamos ou não a comer ou a beber, mal levantamos o cu da cadeira voltamos à mascarada, mesmo que seja para dois passos sem ninguém por perto. Um ministro holandês, em vez de censurar, como tão bem sabe, os bebedolas e estroinas do sul da Europa, vocifera contra adeptos holandeses por estes terem cantado e berrado num jogo de futebol, talvez por achar que o vírus se propaga no canto à capela. A «nossa» Graça Freitas explicou em tempos, com o seu jeitinho pedagógico de quem fala para crianças, que os aviões podiam vender os lugares todos, ao contrários dos comboios, porque quem voa costuma olhar em frente e não para o lado. Embora neste momento se encontre totalmente confinada, em Madrid a ordem tem sido para confinar certos bairros (pobres), deixando livres outros (ricos), sucedendo que uma boa parte dos confinados (pobres) vão todos os dias trabalhar para os bairros ricos. Podia multiplicar os exemplos, mas estes chegam para mostrar que ou esta gente é tola ou nos toma por tolos.

Obedecer (ao capitalismo financeiro da pandemia)

Como eu acho que quem toma decisões nesta matéria não foi atacado de demência é necessário procurar outras explicações. A mais fácil tem a ver com a dificuldade em desligar o interruptor: depois de decretado o alarme nos termos em que foi feito como podemos agora mudar de agulha? Como fazemos? Rimos da comédia? E que dizemos aos milhões de desempregados entretanto criados? E como explicamos os milhões investidos numa vacina que, se calhar, nunca será criada nem fará falta? Há outras possíveis, talvez mais perversas. A pandemia tornou-se um instrumento bastante útil para experimentalismos convenientes: venha de lá o teletrabalho e faremos dele mais uma forma para debilitar os direitos de quem trabalha; cultive-se o medo e observemos o quanto ele nos serve para amolecer quem se acha duro; acenemos com o risco de desemprego e os mais renitentes aceitarão a precariedade. Por outro lado, e em complemento, a pandemia é igualmente boa para aprofundar o rumo para onde somos empurrados há décadas. A verdadeira obediência exige que quem obedece não tenha dúvidas ou hesitações: ponham máscara; esfreguem as mãos até que a pele vos salte; fechem-se em casa e entreguem-nos a chave; denunciem quem transgride. Assim nos é pedido e, de um modo geral, obedecemos. Uma obediência cega que há de libertar-nos do vírus à custa de perdermos as defesas. Não as defesas contra o vírus, que esse já pouco ataca, mas contra o fungo do capitalismo financeiro, que a seu jeito há de transformar esta crise singular em mais uma oportunidade para os que gozam de todas as oportunidades.

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A poesia faz-se contra a poesia (a propósito de Pessoa/Campos)

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do Autor

Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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