Downing Street

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A foto de Hugh Grant como o próximo candidato à liberação do Reino Unido, ou a porta giratório em Downing Street, os 10 milhões de piadas sobre 125 euros, são o poder da explicação pelo humor – mais próximas da verdade, a metamorfose da política-espectáculo de uma classe social (Estados e empresários, sociologicamente, a burguesia) que ameaça a humanidade com a instalação do caos enquanto anuncia pacotes de “ajuda” à pobreza, ao mesmo tempo que circula de jacto particular, onde se serve chocolate do comércio justo e vinho biológico.

As crises no capitalismo ocorrem a cada sete a dez anos, mais ou menos. Ao contrário das crises medievais, provocadas por pragas ou maus anos agrícolas, as crises no capitalismo são de excesso – são de super produção de capital. Não há falta de…mas excesso de…a fome dos portugueses, e muito mais grave a dos brasileiros ou indianos, é o outro lado da moeda destas crises.

À crise de 1929 os Estados capitalistas responderam com a II Guerra Mundial, uma grande destruição de capital que permitiu uma super recuperação de lucros (e claro, evitar a revolução alemão na década de 30 e derrotar a espanhola, francesa, austríaca).

O pacto da guerra fria, a divisão do mundo entre os EUA e a URSS, convenceu do lado de Estaline os trabalhadores a entregarem armas, em troca do Estado Social. O pacto social europeu, um pacto entre burguesia (Estados e empresários e seus partidos) e trabalhadores (partidos e sindicatos) vigorou até acabarem os lucros da reconstrução da Europa, em 1970.

A resposta foi o neoliberalismo (que é a sequência natural do capitalismo, o pacto social é a excepção, só possível porque morreram 80 milhões de pessoas e o capital foi destruído a uma velocidade jamais vista na humanidade).

O neoliberalismo é o máximo de Estado na economia. O Estado injecta dinheiro na dívida pública que é dos privados, faz subcontratações em massa e agora financia directamente empresas pagando os seus trabalhadores através da insenção de impostos e segurança social. Estadomáximo para os lucros, mínimo para o trabalho.

A UE é um projecto de classes dominantes, que tem um pequeno embrião em 1951 mas nasce de facto nos anos 70 e sobretudo 1980, já com a crise de 1970 de super acumulação e sobretudo depois da grande crise de 1981-84. A resposta foi deslocalizar para a China, entrando no mercado de trabalho mundial, com os chineses, o dobro dos trabalhadores. E convencer aqui a pré reformas massivas, os que ganham bem saem, os que eram são precários – os sindicatos, com excepção dos mineiros ingleses, aceitaram. Cavaram a sua crise. Foi um gigante tiro no pé, “venderam os filhos” e o futuro da sua segurança social.

A crise voltou, cito de cor, em 81-84, 91, 97, 2001, 2008, 2019 (ganham todas nomes de não-crise do capitalismo mas de algo suposta extremo a este- a crise das “novas tecnologias”, a crise “da dívida”, a crise da “pandemia”, a crise da “guerra”, mas todas elas são crises de super-acumulação).

A UE é uma solução norte americana e das burguesias francesas e alemã para manter o capitalismo europeu (destruído) e evitar uma revolução social na Europa. Como a burguesia sempre foi, com o rufar das bandeiras nacionais, a responsável pelas guerras na Europa, que disputam entre si lucros, matérias primas e força de trabalho, a UE orgulha-se de “garantir a paz”. Ou seja, assume que eram eles, os Estados, que faziam a guerra – não os povos.

Passa-se que tal paz entre Estados e empresários só é possível quando o bolo é grande e estes repartem-no sem conflitos. Quando o bolo diminui e a concentração de capital, a cada crise, vai esmagando países e empresas mais pequenas, os burguesas cavalheiros desatam à pancada, tornam-se rufias e gangsters de cenário de filme americano, vulgo, guerra comercial, do gás por exemplo, ou guerra militar (até nuclear se for possível, como se vê). Após 2008 o vulcão das dívidas explodiu e o Estado e as empresas no Reino Unido disseram que ganham mais dinheiro fora do que dentro da UE. Mas a crise continua.

A resposta à crise por Putin foi a invasão da Ucrânia, a resposta à crise da UE e dos EUA foi provocar ainda mais Putin, com uma política de sanções que levou a Europa (com grande população – muito mais do que EUA e Rússia -, sem energia e sem matérias primas) à beira da sua maior crise desde os anos 80. Não é a guerra que fez a crise, é a crise económica que teve como resposta a guerra – manter lucros, disputar espaços, matérias primas.

A crise faz o seu curso: miséria, especulação, ganhos de mercados para umas empresas e países, perda para a maioria. No meio da crise – explica a teoria – abrem-se brechas no aparelho de Estado. O que é isso? São as divisões dentro da burguesia – a sua expressão mais óbvia é a falta de estabilidade governativa. Não se entendem no poder, em Downing street e nas cimeiras da UE sobre como dividir o bolo. Caem governos, duram cada vez menos. As classes trabalhadoras, mesmo desorganizadas politicamente são a larga maioria da sociedade, são engolidas sem meios para viver, mas parte delas começam a lutar – foi o que aconteceu nestes meses de greves nos sectores chave no Reino Unido, o que torna mais difícil ao Estado-empresários dividir o bolo, já que os trabalhadores reclamam parte deste, pelo menos o mínimo. Tudo indica que a porta giratória do governo britânico é para continuar a circular e o mesmo se passará em toda a Europa.

São tempos interessantes que vêm aí. Os Estados serão incapazes de dividir o bolo por todos os que estavam no poder, as classes trabalhadores erguer-se-ão. Sobra sempre ao Estado-empresários irem buscar os jagunços e as milícias fascistas para tentarem decapitar os trabalhadores. O carinho que lhes prestam nos media já é disso sinal. Queixam-se da extrema direita mas vão lhes dando espaço. Mas a ameaça da revolução social na Europa é uma realidade também. Na verdade o cruzamento histórico está aí, uma e outra vez, o mesmo filmado por John Ford nas Vinhas da Ira, e pintado por Diego Rivera nos murais mexicanos, que Rosa Luxemburgo, ficou para a história como a mais admirável socialista de sempre, disse numa frase: “Socialismo ou barbárie”.

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Imagem: DR

Obs: texto previamente publicado no blogue Raquel Varela | Historiadora, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Acerca do Autor

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária da FCSH da Universidade Nova de Lisboa / IHC / Socialdata Nova4Globe, Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam) e membro do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho. Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de mais de 2 dezenas de livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora mais de 5 dezenas de artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP. Entre outros, autora do livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

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