Algumas curiosidades biográficas e extratos de escritos de alguns dos heterónimos do grande escritor português

Quais e quantos dos heterónimos de Pessoa conhece?

Quais e quantos dos heterónimos de Pessoa conhece?

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Diz-nos Richard Zenith, em Pessoa. Uma Biografia, acabado de chegar às livrarias, que “Pessoa criou três heterónimos plenamente desenvolvidos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – e dezenas de outros autores fictícios, alguns dos quais foram presenças duradouras, enquanto outros saíram rapidamente de cena”.

Fernando Pessoa, o escritor que em si mesmo era uma “antologia”, morreu aos 47 anos em Lisboa. Deixou-nos a sua obra escrita, grande parte dela sob a forma de poesia, quase toda ela por publicar. Ao todo, mais de 25 mil manuscritos foram encontrados depositados num baú na sua última casa.

Dos 47 heterónimos elencados por Zenith na sua biografia do português cujo nome se encontra entre os gigantes da literatura – e Fernando Pessoa tem pelo menos 136 identificados, o primeiro dos quais Chevalier de Pas, inventado aos 6 anos e que escrevia cartas ao escritor -, escolhemos apenas 9. Quais e quantos deles já conhece?

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Alberto CaeiroNascido em Lisboa no dia 16 de abril de 1889, Alberto Caeiro da Silva viveu com uma tia numa casa branca do campo, a nordeste da capital, e morreu de tuberculose em 1915. Poeta com pouca educação formal que acreditava que as coisas são exatamente aquilo que parecem ser, Caeiro ganhou vida em Março de 1914 e foi imediatamente reconhecido por pessoa como «mestre». Foi também mestre de Álvaro de Campos e Ricardo reis. Além de O Guardador de Rebanhos, que contém quarenta e nove poemas, Caeiro foi autor de uma coletânea mais pequena, O Pastor Amoroso, e dezenas de poemas compilados em Poemas Inconjuntos.

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Alexander Search

Nascido em Lisboa no mesmo dia que Fernando Pessoa, Search surgiu em 1906 e suplantou rapidamente Charles Robert Anon como o mais importante heterónimo de língua inglesa de Pessoa. Em atividade até 1910, assinaria mais de 100 poemas, incluindo muitos que foram escritos entre 1903 e 1905 e que tinham sido originalmente atribuídos C.R. Anon. Search foi igualmente autor de um conto «A Very Original Dinner» e vários ensaios.

Here lies a poet who was mad and young

The two things may go together

As to the songs he sung

They were found in winter weather.

Álvaro de Campos

O mais exuberante, mais assertivo e mais prolífico de todos os heterónimos, Campos surgiu em 1914, cerca de três meses depois de Caeiro. Nascido no dia 15 de Outubro de 1890 em Tavira, cidade algarvia onde a família paterna de Pessoa se encontrava, Campos estudou Engenharia na Escócia, viajou pelo Extremo Oriente, viveu durante algum tempo em Londres, trabalhou como engenheiro naval no norte de Inglaterra e acabou por se instalar em Lisboa. Sentia-se sexualmente atraído tanto por homens como por mulheres, e queixava-se de que, por mais que visse, sentisse e experimentasse, precisava de ver, sentir e experimentar ainda mais. Além de poesia, escreveu e publicou textos em prosa provocadores, nos quais discordou das opiniões de Fernando Pessoa.

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei,

Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

António Mora

Num conto que Pessoa começou a escrever em 1909, Mora era um louco obcecado com a Grécia que usava toga e vivia num manicómio. A história esmoreceu, mas seis anos depois Mora foi ressuscitado e tornou-se um heterónimo que, juntamente com Ricardo Reis, promoveu um renascimento do paganismo no mundo moderno. Foi também o autor de uma dissertação favorável à Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

Uma metafísica é um modo de sentir as coisas — esse modo de sentir as coisas pode, segundo o temperamento do indivíduo, tomar um carácter religioso.

O neopagão admite todas as metafísicas como aceitáveis, exactamente como o pagão aceitava todos os deuses na larga capacidade do seu panteão. Ele não procura unificar numa metafísica as suas ideias filosóficas, mas realizar um ecleticismo que não procura saber a verdade, por crer que todas as filosofias são igualmente verdadeiras.

Barão de Teive

O décimo quarto do Barão de Teive, que nasceu num caderno usado por Pessoa em 1928, vivia numa propriedade rural portuguesa, mas tinha passado algum tempo em Paris, onde travou um duelo com um Marquês de França. Frustrado pela sua timidez com as mulheres e ainda mais pelas suas insuficiências como escritor, pegou fogo a todas as tuas obras literárias e suicidou-se, não sem antes escrever uma última obra errática, em que explica os seus motivos.

Tive um dia a ocasião de casar, porventura de ser feliz, com uma rapariga muito simples, mas entre mim e ela ergueram-se-me na indecisão da alma quatorze gerações de barões, a visão da vila sorridente do meu casamento, o sarcasmo dos amigos nunca íntimos, um vasto desconforto feito de mesquinhezas, mas de tantas mesquinhezas que me pesava como a comissão de um crime. E assim eu, o homem de inteligência e de desprendimento, perdi a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo.

Dr. Faustino Antunes

Este psiquiatra escreveu cartas em 1906 a pelo menos três indivíduos que Pessoa tinha conhecido em Durban, solicitando informação confidencial sobre o caráter e o comportamento do seu cliente (Pessoa), que teria começado a sofrer de graves problemas mentais depois de sair da África do Sul.

O seu carácter – [de Pessoa] – pode resumir-se assim: precocidade intelectual, imaginação prematuramente intensa, malevolência, medo, necessidade de isolamento. É um neuropata em miniatura.

Frei Maurice

Dominado por dúvidas quanto à existência de Deus, este religioso – que inscreveu trechos em prosa para The Book of Friar Maurice – foi uma presença inquietante na vida concreta de Pessoa, segundo um texto autobiográfico datado de 1907.

Why am I so unhappy? Because I am what I must not be. Because half of me is not brother to the other half, & the conquest of one is the defeat of the other, & if the defeat the suffering – my suffering in either case.

Half of me is noble & great, and half of me is little and vile. Both of them are I. When the part of me that is great triumphs, I suffer.

[Because] the other half – which is also truly myself, which Ihave been  unable to render not­‑myself – aches thereat.

When the base part of me triumphs, the noble half suffers and sorrows.

Ignoble tears or noble tears – all of them are tears.

Maria José

Corcunda com dezanove anos que sofria de tuberculose e artrite causadora de invalidez, Maria José passava o tempo à janela de um primeiro andar e sentia o coração a bater sempre que o senhor António, um belo serralheiro, aparecia a caminho do trabalho. Embora não tivesse a intenção de enviar, escreveu-lhe uma carta comprida e tocante, datada de 1929 ou 1930, na qual descreve a sua existência patética e o seu ardente sentimento amoroso.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero achegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

Raphael Baldaya

Dotado de uma barba comprida e fluente em inglês e português, este estudioso de astrologia e ocultismo recebeu as suas primeiras tarefas literárias nos finais de 1914 ou no início de 1915. Pessoa concebeu depois a ideia (nunca realizada) de vender horóscopos de Baldaya pelo correio.

O horóscopo não relata o que há antes do nascimento, nem o que há depois da morte, embora se possa admitir que aspectos (direções) em retrocesso, e em sucessão da morte, possam indicar certos fenómenos externos relativos à vida, por assim dizer, pré-natal e pós-mortal do indivíduo. Isto, porém, é duvidoso.

A vida é essencialmente ação, e o que o horóscopo indica é a ação que há na vida do nativo. Três coisas não há que buscar no horóscopo: (1) as qualidades fundamentais do indivíduo, quanto ao seu grau íntimo; (2) o ponto de partida social da sua vida; (3) o que resulta dele, e da vida que teve, depois da morte. Tudo, menos isto, o horóscopo inclui e define.

‘Uma biografia’ de Pessoa desvenda o homem e a obra literária

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A poesia faz-se contra a poesia (a censura escolar a Pessoa/Campos)

Saramago, Ricardo Reis e o ano da nossa morte

Obs: este texto foi previamente publicado em Bertrand Livreiros, tendo sofrido adequações na presente edição.

Imagens: 0) Quetzal Editores 1) Pessoa-Online

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