Luís Filipe Sarmento

Decência | A revolução permanente estará na ordem do dia

Decência | A revolução permanente estará na ordem do dia

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A história da decência encerra pelo menos cinco mil anos de indecência acumulada, catapultando para a sua ribalta, como decência histórica, instituições que são o corpo e o espírito da indecência.

A história fala do resultado glorioso dos vencedores e do fim miserável dos vencidos. A rede de pactos estabelecidos sob a égide hipócrita da diplomacia é já de si uma indecência que a história não deveria glorificar, como faz, mas condenar, como não faz. Ou seja, a história da decência civilizacional é o mais puro exemplo de péssima educação como indecência numa prática que a história inscreve como decência cujos protagonistas são em si a radiografia da indecência.

O péssimo exemplo da história indecente tem vindo a alimentar durante séculos a indecência de uma história que se transmite em cada geração como o exemplo decente de gerações anteriores. A história glorificou e glorifica os mais tenebrosos assassinos, os mais vis exploradores, os mais sanguinários líderes e os mais sinistros chefes religiosos em defesa da mais deplorável indecência retórica sustentada até à exaustão pelo falajar obscuro de valores éticos que não podiam estar mais nos antípodas das suas práticas indecentes em nome dessas qualidades. A história dos homens e das suas circunstâncias – lá vem o fantasma de Ortega y Gasset – regista o pior dos homens nas circunstâncias criadas e promovidas por si. Eles são o que criaram, alimentando-se como vampiros das monstruosidades que a história inscreve como grandes feitos dos homens em determinado período, justificados com as suas circunstâncias.

Em muitos casos, estas circunstâncias foram planeadas, delineadas e aplicadas pelas mais obscuras mentes indecentes que paradoxalmente a história quer dar como exemplo de verticalidade e decência, combatendo quase sempre os mais altos valores éticos que dizem defender apesar das circunstâncias. A história dos homens dos últimos cinco mil anos não pode dissociar-se do cardápio aberrante das falácias. Não há um único governo no século XXI que não se inscreva nesta deplorável indecência que a história registará como factos decentes da civilização, continuando, assim, o péssimo exemplo de má educação que as gerações vindouras irão consumir como modelo de decência civilizacional, com as suas traições, as suas vinganças, a promoção dos confrontos, as negociatas, a falsa diplomacia, os negócios que estabelecem as regras do saque global, a guerra, a pilhagem e o envenenamento levados a cabo pelos seus protagonistas contra a humanidade que desempenha aqui um papel secundário.

Num futuro próximo, essas gerações já estarão chipadas, só manipularão dinheiro electrónico, ou seja, virtual, e estarão completamente manipuladas pelas mesmas famílias de oligarcas e cleptocratas que a história da indecência já consagrou há séculos como gente decente. É o que se aproxima com a eternização da crise económica, agravada com crises sanitárias pandémicas, passando inevitavelmente por guerras cujas armas as pessoas decentes desconhecem mas que os crápulas já fabricam.

Como evitar o histórico crime anunciado? Unicamente com a revolução permanente da juventude decente contra os sucessores dessa estirpe indecente que tomou conta dos recursos do planeta e cuja comissão central se reúne periodicamente sob os auspícios de um clube cujo nome vai eternizando certa unidade hoteleira, estabelecendo novas estratégias de destruição da humanidade excendentária, garantindo, como sempre, a perpetuação extravagante do consumo desvairado dos despojos. A revolução permanente deverá, assim, voltar a estar na ordem do dia. E estará.

 

Obs: texto incluído no livro ‘Rouge – Utopie’ (2020; pré-publicação).

Imagem: José Lorvão

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Categorias: Crónica, Sociedade

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