João Palhares

Lucky Star | O Rio do Ouro, de Paulo Rocha (25/9 Braga)

Lucky Star | O Rio do Ouro, de Paulo Rocha (25/9 Braga)

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Em 1998, imbuído de lendas e narrativas nortenhas com a idade de um rio e da terra, Paulo Rocha soltou tudo e erigiu um filme-monumento assombrado por cantores cegos que poderão descender do profeta Tirésias, ninfas sedutoras como sereias e anjos exterminadores que encarnam o perigo que é abrir caixas de Pandora, lançar feitiços, invocar entidades, cantar ao luar, dançar ao relento em ritos pagãos e desafiar os rios com a mais humana das soberbas. Com música de José Mário Branco, fotografia de Elso Roque e a mais misteriosa, assustadora  e sedutora interpretação de Isabel Ruth, quiçá a nossa maior actriz, eis O Rio do Ouro.

Quando Frédéric Bonnaud perguntou a Paulo Rocha até quando remontava o projecto do filme, este respondeu que “a 1963, mesmo se algumas imagens, como a do barco carregado de carvão no rio, remontem ainda mais longe. Por exemplo, os cantores cegos nos comboios, lembro-me que foi em 42 que me tentaram vender as partituras das canções deles. Depois do meu primeiro filme, Os Verdes Anos, que já era muito autobiográfico, quis mudar de registo e O Rio do Ouro afastou-se. Mas as minhas lembranças eram fortes o suficiente para se manterem precisas e eu filmei-as quase tal e qual durante os primeiros vinte minutos do filme. Voltei a mergulhar nesse universo de canções populares que eram frequentemente baseadas em histórias apaixonantes das proximidades. Exactamente como o kabuki, que é um género muito refinado contando ao mesmo tempo a história do último homicídio no bairro! Quanto mais sanguinário e obsceno, melhor! Há ao mesmo tempo estilização e uma ligação directa à vida quotidiana. Todas as histórias da minha infância constituíam começos de ficções cada uma mais extraordinária que a outra. E continuaram-me a assombrar, nunca as consegui tirar da minha cabeça. Porque são histórias sangrentas e extremas que ultrapassam as normas aceites, completamente desmedidas, amorais e muito populares ao mesmo tempo, que flutuavam sem cessar nas conversas das pessoas que via na minha infância.”

Mário Jorge Torres, que nos apresentou Douglas Sirk e The Tarnished Angels em 2016, escreveu para o Público, em 2001, que “O Rio do Ouro é uma história dourada e sanguinária que se escreve nas margens do Douro, rio de muitas fainas e de muitos ceremoniais. Uma guarda-cancela, Carolina (Isabel Ruth), conserva velhos mistérios de amores passados, e de crimes esquecidos, e casa com um barqueiro (Lima Duarte) que draga lodos e mortos do fundo do rio, emigrante sem nervo e sem competência sexual. Um vendedor de ouros (João Cardoso) tem poderes mediúnicos e passeia a sua impotência emocional como um garanhão em perda pelas mulheres acossadas de beira Douro – a guarda-cancela e a afilhada, Melita (Joana Bárcia). Um crime onírico resgata um casamento falhado e faz voar por sobre as fragas uma megera, mais fêmea do que sibila, tão vítima dos fados e dos oráculos, quanto justiceira de uma ancestral insatisfação. O plano inicial das lavadeiras que cantam remete irresistivelmente para as filhas do Reno da tetralogia wagneriana O Anel dos Nibelungos.

“A configuração mítica do filme não desmerece desta analogia em versão lusitana: à grandeza do melodrama operático contrapõe-se a miniatural dimensão da cantiga de cego – interpretado pelo autor da banda sonora José Mário Branco – e do conto oral musicado com os requintes do cancioneiro popular. E como “a gente volta sempre ao princípio” (é uma citação do filme), o epílogo representa o regresso às águas do rio, devolvendo-lhe o ouro mítico, não roubado por uma conspiração de anões ou de gigantes como em Wagner, mas retirado ao nome Douro, cuja origem se perde nos tempos. O anel wagneriano, porém, transformou-se aqui em cordão de ouro, fio de sangue, cadeia de submissão e de desejo não consumado, marca de poder e amuleto de morte.”

Jesús Cortés, que nos comunica com o seu blog todos os meses a alegria permanente da descoberta do cinema, de Jesse Hibbs a Kinuyo Tanaka, escreveu sobre o filme de Rocha, para si “terrivelmente rural, O Rio do Ouro – o seu nativo Rio Douro, logicamente – em 1998, cheira a sangue desde a primeira cena, uma conversa tranquila que antecipa a calma com que Rocha vai filmar uma história agreste. Tinham passado nove anos desde o segundo grande “eclipse” da sua carreira, mais alguns desde que finalizou as suas funções consulares no Japão no princípio da década anterior e já muitos desde que foi designado como promessa de uma cinematografia que mesmo antes de o ser tinha acabado de virar centenas de graus com Acto da Primavera, em 1962, e, pouco depois de chegar, desapareceu.

“No caminho que leva a’ O Rio… e ao seu prolongamento em busca de um final memorável – Se eu Fosse Ladrão, Roubava (2011), que já aparece aqui em variadas formas, não só como canção – ficaram as obras mais ambiciosas de Rocha, sobretudo a profusa, fria e secreta A Ilha dos Amores, que me parece a sua obra-prima, O Desejado ou As Montanhas da Lua ou a breve e no entanto múltipla Máscara de Aço Contra Abismo Azul, filmadas lá por 1982, 1987 e 1989 respectivamente, tão distintas e pessoais em relação àquelas primeiras, Os Verdes Anos ou Mudar de Vida, marcadas pelo esforço, tão frustradas por não conseguirem encher os pulmões.

“Nunca interessaram muito a Rocha as descrições demasiado perfiladas nem as palavras que as adornam, só o poder das imagens para as substituir.

“Aqui, o rio não é um caudal nem uma fonte com que se estabelecem relações, nem sequer parece ter vida e sim a missão de arrebatar as que consiga, devolvendo o tratamento que recebe, dragado o seu fundo às dentadas até se converter em lama pura. Sem rastos de magia telúrica, uma armadilha.”

 

O Rio do Ouro, de Paulo Rocha, é a próxima sessão de Lucky Star – Cineclube de Braga. Integrada no mini-ciclo dedicado ao autor, será apresentada nos cinemas do BragaShopping, na próxima terça-feira, 25 de setembro.

 

Obs: Este artigo é publicado na Vila Nova Online com ligeiras adaptações em relação ao seu original, previamente publicado na página do Lucky Star – Cineclube de Braga sob o título 110ª sessão: dia 25 de Setembro, Terça-feira (às 21h30).

 

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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