Entrevista

Entrevista | Agostinho Fernandes: A Dar as Mãos tem gerido necessidades e anseios dentro de uma linha de humanismo

Entrevista | Agostinho Fernandes: A Dar as Mãos tem gerido necessidades e anseios dentro de uma linha de humanismo

 

 

A Associação DAR AS MÃOS (ADM) foi criada em 13 de Maio de 1994, pelo que celebrará em 2019 os seus 25 anos de vida. Fiel aos seus objetivos de apoio e integração dos grupos sociais mais carenciados da população famalicense, trabalha em rede e parceria com todas as outras instituições similares que prossigam fins sociais idênticos. É uma IPSS e tem o estatuto de utilidade pública nos termos do Diário da República. Agostinho Fernandes, ex-presidente do Município famalicense, é o seu atual presidente.É nessa qualidade que o entrevistamos.

.

.

Pedro Costa: Dr. Agostinho Fernandes, o que esteve por trás do nascimento da Dar as Mãos?

Agostinho Fernandes: Apesar do 25 de Abril contar 44 anos já, a verdade é que em 1994 era bem numeroso o número de famílias e pessoas necessitadas no território famalicense pelo que era grande a pressão diária sobre os eleitos e maior a teia burocrática para acudir e resolver o mais rápido possível as mais diversas situações. Recordo um casal de idosos, bem perto da cidade, que além de um plástico grande por cima da cama tinha necessidade de colocar 4 a 5 baldes para aparar a água da chuva. Não era possível assobiar para o lado. Que fazer?…A situação descrita e muitas outras análogas (os sem  abrigo, as condições humilhantes da forma de viver da etnia cigana, casos conhecidos de violência doméstica e familiar) fizeram com que a Câmara Municipal alterasse o seu paradigma, reduzindo ligeiramente o seu afã de fazer obras e mais obras por cuidar mais das pessoas identificadas que precisavam urgentemente de ajudas diversas e inadiáveis. O bem-estar das pessoas é o fim primeiro de toda a ação política e não só.

Pedro Costa: Como nasceu a Associação e quem foram as pessoas que se juntaram com esse intuito? Como surgiu o envolvimento pessoal do Dr. Agostinho Fernandes nesta Associação?

Agostinho Fernandes: O meu estimado amigo Coronel José Bacelar, como é sobejamente conhecido, e um dos melhores seres humanos que conheço era, a maior parte das vezes, o emissário das cruas realidades, não fosse ele um destacado Vicentino de corpo e alma. Foi, por isso, fácil e rápido mobilizarmos vontades e meios, desde logo convidando  Dom Jorge Ortiga para dar também o rosto a esta causa famalicense, ao que logo anuiu mantendo-se até hoje, já lá vão quase 25 anos. E assim, no ato público da escritura da ADM, apareceram como outorgantes à volta de 150 pessoas de toda a sociedade famalicense. Nós continuamos a acreditar que é possível melhorar o homem, a sociedade e o mundo e que é preciso sair do nosso conforto e comodidade para o modificar. Atente-se um pouco, por exemplo, nos sinais do Papa Francisco… tão semelhantes aos do Bom Papa João XXIII.

Pedro Costa: Como vive a Dar as Mãos, isto é, como angaria fundos e bens e como funciona no seu dia-a-dia?

Agostinho Fernandes: Ainda hoje penso que agimos bem ao constituir o Município como um esteio da ADM, isto é, suportando despesas, por um lado, e vendo os problemas mais graves resolvidos com agilidade e prontidão, por outro. A Câmara Municipal sabe o que dá e sabe que os problemas correntes são resolvidos. Quantas  Associações  apoia o Município? Muitas, pois que grande é o concelho, mas é certamente à volta da cidade e suas 4 freguesias que se manifestam e ocorrem grande parte dos problemas em aberto, se bem que a ADM acompanhe de perto cerca de 200 famílias extremamente necessitadas no território municipal. A Junta de Freguesia da cidade coopera abertamente com a ADM, tal como a Segurança Social distrital. Temos depois algumas dezenas de sócios, os voluntários que dão tudo sem nada em troca, algumas escolas e escuteiros, as associações Lyons e Rotary, enfim, uma mão generosa de empresários e firmas comerciais, dádivas de roupa e calçado, mobília e eletrodomésticos. E, claro, também nos mobilizamos para pedir quando é preciso. A cooperação com o Banco Alimentar Contra a Fome é de vital importância, pois é a maneira de a generosidade dos portugueses chegar aos seus compatriotas que mais precisam. A generosidade permanente da Fundação Cupertino de Miranda continua a honrar a filantropia do seu Fundador. Todos são importantes para diariamente saciarmos a fome e outras necessidades, para além da sementeira da confiança e da esperança num amanhã melhor.

Pedro Costa: A Dar as Mãos presta apoios e/ou serviços adicionais à beneficência propriamente dita aos seus beneficiários?

Agostinho Fernandes: Quem nos procura, em geral, necessita mesmo de um complemento adicional: 3ª idade com reformas baixas, casais em que só um trabalha e há crianças, deficientes e outras situações de precariedade insuportável. Para além disto, servimos diariamente um jantar, temos um balneário público e pagamos uma infinidade de pequenas-grandes contas, desde rendas de casa a faturas de água e eletricidade, medicamentos e todo um conjunto de situações humanamente graves, como ordens de despejo. Sabemos bem como a justiça é vesga e como ainda o pobre é ladrão e o ricaço comete um desvio ou recorre a um offshore para fugir ao fisco, coisa pouca…

Pedro Costa: A Dar as Mãos desenvolve outros projetos paralelos?

Agostinho Fernandes: Sim, claro. Para além, digamos, das obras de misericórdia, queremos ir mais além na valorização das pessoas, no atendimento pessoal e na inclusão possível na vida ativa. Para além disso, temos ainda dívidas a pagar, obras de restauro da nossa sede e desenvolvimento de uma outra área para a formação.

Pedro Costa: Quem são os voluntários da Dar as Mãos? Existe também corpo de funcionários?

Agostinho Fernandes: São homens e mulheres livres e solidários que, em troca de nada, nos dão muito do seu tempo e nos emprestam a sua alma quando servem a ADM no atendimento às pessoas, no apoio das refeições na cantina e serviço de balneário, no transporte de mobiliário e sua distribuição, enfim, apoio na distribuição de cabazes, controle logístico e programação, representação e participação externa, acompanhamento de famílias e pessoas particulares e, até, presença em funerais, pasme-se, pois que há seres humanos raros e singulares. Temos alguns funcionários em resultado de protocolos estabelecidos com o IEFP que trabalham na área administrativa, informática e cozinha e temos sido capazes até de criar algum emprego.

Pedro Costa: Como se pode colaborar com a Dar as Mãos?

Agostinho Fernandes: De todas as formas e maneiras como fazer-se sócio, (quota de 12 euros por ano), voluntário, seguir as iniciativas da ADM através da página da internet, oferecendo géneros alimentares, roupas, aparelhos eletrodomésticos , oferecendo 0,5 dos impostos fiscais para a ADM, fazer um depósito na conta da ADM no Montepio com o NIB 0036.0023.9910.0020.59576. Tudo é preciso e dirigido aos melhores fins.. até jogar ao totoloto…para fazer mais. Servimos milhares de refeições anualmente e aplicamos até ao último cêntimo os nossos recursos com quem mais precisa. Não temos qualquer dúvida sobre isto e somos inspecionados, como todos quantos gostam de cumprir as regras.

Pedro Costa: Quantos são e quem são os voluntários envolvidos na Dar as Mãos?

Agostinho Fernandes: Todos somos voluntários na ADM, podendo até alguns desempenhar funções diretivas se assim o desejarem, bastando candidatar-se no tempo próprio. Assim é que na Assembleia Geral preside Dom Jorge Ortiga acompanhado por José Maria Carneiro da Costa e Dr. Camilo Freitas; no Conselho Fiscal preside o Dr. Paulo Folhadela assessorado pelo Dr. Mário Martins e Dr. Manuel Augusto Araújo; na Direção preside Agostinho Fernandes ladeado pelo Coronel José Bacelar e Drª Maria Inês Carvalho. Fazem ainda parte da Assembleia Geral  alguns sócios desde a primeira hora e outros mais jovens que terão certamente responsabilidades na continuação da ADM.

Pedro Costa: Quais são as parcerias que a Dar as Mãos tem atualmente? Tem apoios da autarquia?

Agostinho Fernandes: Colaboramos com todos e vamos a todas desde que nos convidem e seja entendida por bem a nossa atividade e até razão de existir: equacionar com rapidez e eficácia os problemas ou situações mais difíceis das famílias. E não tenho ideia de alguém que em Vila Nova de Famalicão tenha ficado sem resposta. Como acima referi é grande a cumplicidade entre a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da cidade. O apoio e proteção dos cidadãos mais necessitados é um facto e uma realidade resolvida, aqui também com a parceria da Santa Casa da Misericórdia que está neste barco há muitos anos

Pedro Costa: Dr. Agostinho Fernandes, para concluir, quais são as ambições e desejos para o futuro da Associação Dar Das Mãos?

Agostinho Fernandes: Depois de resolvidos os desafios financeiros e de obras, começaremos a focar todas as nossas capacidades na formação e integração das pessoas esperando o contributo dos mais jovens para a renovação progressiva da ADM. Temos sido capazes de gerir todo este capital de necessidades e anseios sem sobressaltos e dentro de uma linha de humanismo à altura das circunstâncias, recordando aqui saudosamente o trabalho minucioso, solidário e impecável do Bom Amigo e Professor Alfredo Novais. Sentimos ainda a sua falta e partida entre nós. Tudo isto nos dá força e esperança.

.

.

Horários de funcionamento:

Todos os dias, pelas manhãs, das 9 as 11 horas no edifício Vinova faz-se o atendimento ao público.

O jantar é servido pelas 18,30, até às 20,00 horas, nos 5 dias úteis da semana.

.

Contactos: 

Telefone: 252319058

Internet: www.darasmaos.org.pt

 

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver. 

A Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será. 

No entanto, a Vila Nova tem custos. Gostaríamos de poder vir a admitir pelo menos um jornalista a tempo inteiro que dinamizasse a área de reportagem e necessitamos manter e adquirir equipamento. Para além disso, há ainda uma série de outros custos associados à manutenção da Vila Nova na rede. 

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de donativo através de multibanco ou netbanking.

NiB: 0065 0922 00017890002 91
IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91
BIC/SWIFT: BESZ PT PL

 

Pub

Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.