Questionário de Proust | Camilo Lopes de Freitas

Questionário de Proust | Camilo Lopes de Freitas

Camilo Lopes de Freitas nasceu em V. N. Famalicão, no dia 12 setembro de 1931.

Licenciou-se em Medicina, pela Universidade do Porto, em 1957, depois do que foi admitido no quadro clínico do Hospital de S. João de Deus, da Misericórdia de Vila Nova Famalicão, em janeiro de 1958. Reforçou o quadro médico do hospital à altura era constituído apenas por 5 médicos (Leonardo Ilhão e Campos Pereira, na Cirurgia, Cândido Dias e Lauro Loureiro, em Medicina, e Horácio Jácome, na Obstetrícia.)

Entretanto foi colocado a cooperar com o Dr. Lauro Loureiro, responsável por Medicina Homens (cerca de 30 camas) e pelo serviço de transfusões de sangue, que ele mesmo tinha proposto e promovera a sua criação.

Em 1962, o Dr. Lauro Loureiro decidiu emigrar para o Brasil e, naturalmente, as suas funções foram confiadas ao médico seu auxiliar.

Logo em 1963, o Dr. Camilo Freitas foi recrutado para estar apto a intervir na guerra do Ultramar, conciliando a preparação militar com a continuidade possível da sua actividade no hospital.

Em maio de 1965, foi embarcado a caminho de Moçambique e, logo que chegou a Lourenço Marques, transferido para Mueda, no norte de Moçambique, perto da fronteira com a Tanzânia. Naquela data estava em curso um surto violento de operações militares e urgia assumir funções na equipa cirúrgica lá instalada, como transfusionista e reanimador.

Já passado mais dum ano na zona de combate, foi transferido para Hospital Militar de Nampula, onde estruturou o Serviço de Transfusão instalado no Hospital, a acudir toda a Região Militar.

Regressou ao então Continente em setembro de 1967, retomando todo o seu anterior plano de vida.

Encontrou, porém, o Hospital numa situação verdadeiramente implosiva.

Quando partiu, tinha acabado de ser inaugurado um novo edifício para o Hospital de V. N. de Famalicão que substituiu o que fora criado em 1874.

A construção ainda não estava completa. A área coberta era consideravelmente maior, o aspeto geral aprazível, mas parecia parado no tempo.

Fôra um empreendimento audacioso num período agitado. A guerra no Ultramar estendia-se a três frentes, o dinheiro também estava mobilizado. Não se desenhava um futuro auspicioso.

Os médicos continuavam a ser muito poucos, teoricamente mais três, todos envolvidos na guerra. A enfermagem encontrava-se quase exclusivamente confiada a religiosas que estavam em processo de substituição. Ansiavam por ser dispensadas. Encontravam-se idosas, exaustas. Cada Serviço tinha uma só enfermeira, responsável durante as 24 horas do dia, todos os dias da semana. O atraso nos pagamentos aos fornecedores, o repetitivo recurso aos cortejos de oferendas, aos Dias da Misericórdia todos os anos, nas 49 freguesias, preocupava toda a gente.

O Presidente da Câmara e o Provedor da Misericórdia estavam muito preocupados em conseguir que o Hospital organizasse um Serviço de Urgência. Os jornais locais publicavam ocorrências que geravam críticas e protestos constantes. Na maior parte do dia não havia um médico presente. Era preciso chamá-lo, o que, por vezes, demorava.

Aproximava-se a data do Conselho Municipal reunir e eleger a Câmara Municipal para outro quadriénio.

O Provedor encabeçava uma lista que se candidatava à Câmara Municipal.

Foi anunciada a reformulação do Serviço de Urgência. Garantido o apoio da Câmara Municipal.

O Provedor e o Director Clínico tinham entrado em colisão.

Os médicos exigiram 50 escudos por hora no Serviço de Urgência, facto considerado escandaloso. Foi, então, declarado o despedimento a quem persistisse em tal exigência.

O Ministro da Saúde e da Assistência, Dr. Lopo Cancela de Abreu, o primeiro ministro de Saúde em Portugal (do Governo de Marcelo Caetano) ouviu os médicos. Decidiu abrir inquérito e inspeção judicial ao conflito criado. Nessa altura, mandou suspender a Assembleia Geral e Eleitoral da Santa Casa marcada para 30 Dezembro de 1969.

No dia 30 de janeiro de 1970 foi tomado conhecimento do despacho ministerial que dissolvia a Mesa Regedora, cujo final do mandato terminara já em 31 dezembro de 1969:

Que fosse nomeada pelo governador civil uma Comissão Administrativa até que se efetivassem novas eleições.

No dia 7 de fevereiro de 1970, o Governador Civil e a direção concelhia da União Nacional, incumbidas da nomeação da Comissão Administrativa , anunciaram que era constituída por:

Dr. José Mário Machado Ruivo, como presidente (era o presidente da Assembleia Geral da Santa Casa da Misericórdia);

Padre Gonçalo de Araújo Alves Pinheiro, sacerdote e pároco da freguesia do Louro;

 Eng.º Vicente Pinheiro Machado (Visconde Pindela);

 Dr. Camilo Freitas, médico do quadro; e

 Alberto Folhadela Macedo Simões,

que tomaram posse.

Todos eram irmãos da Santa Casa da Misericórdia.

O Dr. Camilo Freitas assumiu funções de diretor clínico e representante, no local, da Comissão Administrativa.

Entretanto desencadeara-se uma reforma considerável com a nova governação de Marcelo Caetano, nomeadamente na política da saúde e da ação social, com significativos aumentos de faturação e com acordos com as Caixas Sindicais e com os Serviços das Misericórdias.

Em vez de dívida crescente e dos atrasos nos pagamentos aos fornecedores, passou-se a fechar o ano com saldo positivo. E passou a ser possível fazer investimento em várias direções: Mais médicos, mais especialidades presentes, enfermeiras jovens, equipamentos técnicos, contratado um administrador experiente, contratado pessoal auxiliar, muitas alterações em vários domínios.

A circunstância induziu o Dr. Camilo Freitas a envolver-se na vida política. Em 1971, foi integrado como vereador efetivo na Câmara Municipal presidida por Manuel João Dias Costa, tendo-lhe sido confiado o Pelouro da Cultura e daí nascido a sua candidatura a deputado da Assembleia da República, eleito em outubro de 1973.

A Revolução do 25 de Abril, data em que se sentiu exonerado de todos os compromissos políticos, levou-o a querer concentrar-se na sua atividade profissional.

Mas depressa se sente na obrigação de dirigir um projeto que provinha dum famalicense, ex-ministro do Comércio em três governos da República, e que disponibilizara à Câmara, anos atrás, uma quantia (1250 contos) para construir um escola pré-primária com intenção expressa de fomentar a cultura à população situada em redor do lugar e freguesia onde tinha nascido.

Cria então uma comissão de cidadãos da freguesia de Calendário. Em outubro de 1975 inicia a sua atividade no Centro Social e Cultural Dr. Nuno Simões, na qualidade de Presidente da Direção. Uma primeira turma com 25 alunos, uma educadora infantil e mais duas auxiliares.

O Dr. Nuno Simões faleceu em 30 de janeiro de 1975, mas crente de que o seu desígnio, finalmente, teria futuro. E teve.

Em Julho de 1996, ao Dr. Camilo Freitas, foi-lhe atribuída, pela Câmara Municipal, a medalha de Mérito Municipal de Benemerência.

40 anos vencidos de Presidente da Direção, desta sólida IPSS,  cerca de 200 crianças frequentam-na diariamente.

Atualmente, o Dr. Camilo Freitas já não é o Presidente da Direcção, antes dirige uma unidade que visa fomentar a cultura na população que se situa em redor do lugar onde o Dr. Nuno Simões nasceu.

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1- Qual é para si o cúmulo da miséria moral?

O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, neste mundo onde existimos, em que nos está prometida a vida eterna – é o topo e o cume dum Projeto que nos transcende.

Temos liberdade de pensar, com plena autonomia. De acreditar ou não.

Pensamos que este nosso mundo podia ser muito mais feliz.

Temos a intuição do sentido do Bem e o do Mal na caminhada para a felicidade infinita.

Qual é o cúmulo da miséria humana?

É não acreditar em Deus.

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2- O seu ideal de felicidade terrestre?

A felicidade terrestre é temporária e depressa se vai.

É uma aragem de alegria, de muita satisfação, de conforto no nosso interior.

 

3- Que culpas, a seu ver, requerem mais indulgência?

Quando o pecador já nasceu com um património familiar de ódio e de indiferença.

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4- E menos indulgência?

Quando nunca fez bem ao seu próximo.

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5- Qual a sua personalidade histórica favorita?

Winston Churchill.

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6- E as heroínas mais admiráveis na vida real?

A rainha Santa Isabel, esposa do Rei D. Dinis.

As nossas mães.

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7- A sua heroína preferida na ficção?

Lara, do Dr. Jivago.

 

8- O seu pintor favorito?

Almada Negreiros.

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9- O seu músico preferido?

Beethoven, Johann Strauss.

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10- Que qualidade mais aprecia no homem?

Serenidade e caráter sólido.

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11- Que qualidade prefere na mulher?

Beleza física e simplicidade.

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12- A sua ocupação preferida?

Ler o que outros escreveram.

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13- Quem gostaria de ter sido?

Médico.

 

14- O principal atributo do seu carácter?

Ser simpático com o próximo.

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15- O que mais apetece aos amigos?

Que sejam simples e verdadeiros.

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16- O seu principal defeito?

Timidez, nível baixo de autoconfiança.

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17- O seu sonho de felicidade?

O meu casamento.

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18- Qual a maior das desgraças?

O falecimento da minha mãe, ainda não fizera 7 anos.

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19- Que profissão, que não fosse a de escritor gostaria de ter exercido?

Na governança, na política.

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20- Que cor prefere?

Azul.

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21- A flor que mais gosta?

Violetas.

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22- O pássaro que lhe merece mais simpatia?

O pintassilgo.

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23- Os seus ficcionistas preferidos?

Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Jorge Amado.

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24- Poetas preferidos?

Luiz de Camões, Fernando Pessoa.

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25- O seu herói?

S. João Paulo II.

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26- Os seus heróis da vida real?

D. Nuno Álvares Pereira, Winston Churchill.

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27- As suas heroínas da história?

A rainha Santa Isabel, esposa de D. Dinis.

Luísa de Gusmão, esposa de D. João IV.

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28- Que mais detesta no homem?

A soberba, a arrogância.

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29- Caracteres históricos que mais abomina?

Adolfo Hitler, Estaline, MaoTse-Tung

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30- Que facto, de ponto de vista guerreiro, mais admira?

Manter a serenidade, o domínio de si. Ter ponderado todas as hipóteses para subsistir.

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31- A reforma política que mais ambiciono no mundo?

No texto dos Evangelhos, Jesus Cristo anuncia várias vezes que o Reino de Deus está próximo.

Vivemos no nosso tempo atual uma aceleração do desenvolvimento e aperfeiçoamento de todas as potencialidades que ficam ao alcance da capacidade de raciocinar dos seres humanos. Não fomos nós os autores da criação. Os conceitos da globalização, das Nações Unidas, da União Europeia, sugerem-nos uma esperança.

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32- O dom natural que gostaria de possuir?

O discurso fluente e voz vigorosa.

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33- Como desejaria morrer?

Na minha casa. Quando e como estiver no desígnio de Deus.

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34- Estado presente do seu espírito?

Quanto à morte, sereno e confiante.

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35- A sua divisa?

Deus superomnia.

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36- Qual é o maior problema em aberto do concelho?

Que seja garantido a todo o cidadão um posto de trabalho digno e corretamente remunerado.

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37- Qual a área de problemas que se podem considerar satisfatoriamente resolvidos no território municipal?

1 – Impulso à promoção do empreendedorismo, ao aumento da riqueza criada. Controle do desemprego.

2 – Da planificação e fomento do equipamento escolar.

3 –Do estímulo à promoção cultural. Do apoio à sustentabilidade da imprensa local.

4 – Da eficácia da atividade administrativa.

5 – Da mobilidade e da acessibilidade rodoviária.

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38- Que obra importante está ainda em falta entre nós?

A circular poente.

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39- De que mais se orgulha no seu concelho?

O foral promulgado no sec. XII por D. Sancho I para o agregado de 40 famílias que ele deslocou para o espaço de território que assumiu. É o mais dinâmico município do país.

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40- Qual o livro mais importante do mundo para si?

A Bíblia Cristã.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

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