Síria | Na dúvida, a guerra acabou! Faltavam informações

Síria | Na dúvida, a guerra acabou! Faltavam informações

A guerra da Síria começou em 2011 por ocasião da Primavera Árabe. Os cidadãos indignaram-se com as denúncias de corrupção do governo de Bashar al-Assad. A guerra tomou proporções humanitárias tais que o mundo teve de se virar e concentrar neste pequeno país do Médio Oriente com cerca de 50 anos de existência. A principal consequência da evolução do conflito foi a morte de mais de 300 mil pessoas, desaparecidos, desalojados e um exponencial número de população síria que busca refúgio em outros países.

As redes sociais inundaram-se daquele menino traumatizado, cheio de pó que, sem saber o que se passava, estava a ser filmado, o miúdo de ninguém que nos colocou todos de olhos postos na Síria.

Por essa altura, o que não faltavam eram colagens com imagens de Jesus e o catraio que tanto sofria pela guerra. Eram um abuso… “Partilha se te preocupas com a guerra da Síria”; “Se fosse uma mulher em topless partilhavas”, “Rezem pela Síria”, “Por cada partilha, uma criança será salva”… Não me estou a lembrar de mais nenhuma, mas por certo que existem centenas de mensagens de apoio às vítimas da guerra na Síria que não foram além de partilhas nas redes sociais.

Eu vou revelar algo que eu sei que será uma informação dramática, tenho até medo que cause alguma revolta e que provoque toda uma serie de manifestações, vá… sem medo… eu vou dizer, mas estou carregada de peso na consciência de que posso estar a criar uma guerra interna… é preciso de ter coragem:

O lugar no céuzinho de Deus não está reservado para aqueles que foram um cocó de gente com os vizinhos e, no entanto, partilham uma imagem de uma criança sujinha agarrada a um peluche a dizer para “rezarmos por Aleppo”. Eu sei que as pessoas não estavam a contar com esta novidade e muitos dedicaram-se de corpo e alma àquela partilha de imagem, mas, de facto,, não é assim que funciona. Quer-se dizer, não são melhores pessoas e muito menos são mais cultas por usarem o verbo “rezar” junto de “crianças árabes”.

“O quê? O meu colega precisa de ajuda porque a vida não lhe correu bem? Ui!… Não posso ajudar, mas depois partilho uma imagenzinha da página das “Cifras” com a Nossa Senhora e um bebé sujinho, faço de conta que percebo de conflitos internacionais e estou perdoado.”

“Tenho ao meu lado uma pessoa que mostra precisar de, vamos cá ver, compreensão? Não tenho paciência. Vou mas é ali ao Facebook e mudar a minha foto de perfil para “S.O.S. Síria”. “Sou muito boa pessoa.”

“Fui altamente preconceituoso com situações banais à minha volta. Fui… Mas não faz mal porque em 2011 rebentou uma guerra e de certeza que há escombros de cidades para eu partilhar. Bolas, que sou um máximo nestas cenas da solidariedade e assim!”.

Ora bem! Não. E quem andou aí a insinuar que sim, epah, mentiu, ok? Se por acaso existir isso do Céu e assim não estarão salvos dessa forma. Corram a fazer alguma coisa de jeito porque, por aí, Jesus não vai lá!

O que aconteceu, neste entretanto, foi que, com estas mudanças todas do algoritmo das redes sociais, as imagenzinhas de crianças a chorar cheias de pó desapareceram da vossa cronologia do Facebook, não foi? Agora aparece mais aquela página “Muito de mim”, ou “Tastemade”, ou “Para toda a mulher”, ou “Frases de Paulo Coelho”….

E o que é que muitos pensaram? Que agora os meninos da Síria já estão todos em casa com os seus pais a comer kebabes com húmus e essas comidas árabes, as cidades foram reconstruídas e agora os massacres são só no metro de Londres e nas ruas de Paris. Portanto, na dúvida, a guerra acabou. Se deixaram de aparecer vídeos de trinta segundos de bombas a cair, então, a conclusão lógica, é porque não há mais guerra.

O Acordo de Cessar-Fogo não foi respeitado e em 2018 rebentam as partilhas no Facebook. Vi coisas do tipo: “As televisões dão pouca cobertura.” Por acaso, ao contrário do que se passou com outros massacres, desta vez até houve cobertura q.b., o que sucede é que não dá para ver se quando o noticiário chega às notícias do mundo se mudar de canal, né? Não vai aparecer nenhum enviado especial da Sic Notícias à casa das pessoas a insistir para que fiquem informados. Isso não vai acontecer! E não estamos mais informados se colocarmos fotos de crianças desfavorecidas nas páginas das redes sociais e certamente não será por isso que se pode ganhar o Nobel da Paz ou ser propostos à Junta de Freguesia por atos de solidariedade.

Por isso, sim, é importante estar sensibilizado para os conflitos internacionais, sejam eles na Síria, na Somália, Sudão, e infelizmente, etc. É importante que cada pessoa tenha consciência das razões do conflito. O que também é importante é que essas mesmas pessoas não se escondam atrás de partilhas nas redes sociais. Não adianta ser uma pessoa intolerante com quem nos rodeia no dia-a-dia e lavar a alma com um “share” de uma vela acesa e um puto com um peluche. Às tantas, também podem ter sido intolerâncias parecidas que levaram àquelas guerras que estão tão longe e tão perto.

A guerra acabou… Só que não!

 

Já agora, tomem lá com este link da UNICEF | for every child e ajudem a sério!

https://www.unicef.org/appeals/syrianrefugees.html

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Vânia Ferreira

Licenciada em Relações Internacionais com especialidade em género, mas com uma paixão assumida pela geoestratégia. Profissionalmente ligada à moda, marketing e eventos na área do luxo. Provocadora de nascença e polémica por hobbie, vive a vida sem medo de brincar. Ambiciona um mundo em que todas as pessoas consigam galhofar com os seus próprios defeitos e com os dos outros sem que isso seja sinonimo de guerra.

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