22 a 24/2 | O Deserto de Medeia. De como o amor pode secar e tudo matar à sua volta

22 a 24/2 | O Deserto de Medeia. De como o amor pode secar e tudo matar à sua volta

Surpendenteextraordinário, imperdível são os adjetivos que me ocorrem para classificar esta peça de teatro – O Deserto de Medeia – ainda em cena na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão até hoje, 24 de fevereiro, depois de ter já apresentado duas outras sessões nas noites anteriores.

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Amor e Ódio

O Deserto de Medeia foi um espetáculo duro, até mesmo emocionalmente desgastante, desde o seu início até à última cena.

Mal entramos na sala, somos confrontados com o fundo negro do palco, com as personagens em lenta circulação entre um e outro lado do mesmo, reduzidamente iluminado, homens e mulheres de negro vestidos, o que desde logo anunciava um evento trágico na base do enredo.

Ao centro, um gigantesco candelabro de cânhamo situado sobre Medeia (a Medeia, as Medeias), sentada com ar desesperado numa espécie de cadeira balouçante substituindo o sofá de uma sala de estar. Quando o entrecho se começa a desenvolver, e as vozes se repetem agrestes, acabamos envolvidos de tal forma que não mais conseguimos largar a ação que se desenvolve no palco.

Medeia é uma mulher como tantas outras, vítima de falta de amor, esse amor a que todos damos a maior importância na nossa vida e que , frequentemente, é o centro da nossa imaginária felicidade. Por vezes, conseguimos encontrá-lo; bastas vezes o amor resulta falso. Isto porque vivemos prenhes de um amor eterno.

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Medeia regressa constantemente atrás, ao seu passado, e à mãe que também vive um falso amor. Afinal, quantos de nós o conseguem mesmo encontrar?

O Amor. Centro de vida, fonte de vida. De onde resultam frutos que, esperamos, dêem seguimento a essa mesma nossa vida, frutos simbólicos da eternidade que impende sobre nós e a que estamos sujeitos.

Mas quando esse amor não se concretiza e não resulta surgem momentos de ódio, mais a mais porque estamos também marcados, como que se de um DNA se tratasse, por amores mal resolvidos, ou não resolvidos, no nosso passado distante.

Em O Deserto de Medeia o amor é aquele que é, para quase todos, o resultado último do mesmo, os filhos, prova viva dessa eternidade a que aspiramos, estão sempre presentes, ora como motivo de aproximação, ora como motivo de afastamento.

Medeia, agora em adereços eróticos vermelhos, ainda tenta, em última instância, fazer o sacrifício de tentar conquistar sexualmente o homem da sua vida, aquele por quem tudo deixara, mas também tudo perdera.

Não o consegue. E as suas mensagens ameaçadoras, constantes de muitos anos, vão-se concretizar, mesmo quando parece que tudo ficaria definitivamente resolvido.

As tragédias – filicídios – a que continuamos a assistir nos nossos dias, tantas vezes aparentemente incompreensíveis, conseguem ser percebidas – que não completamente compreendidas – à (pouca) luz que esta encenação nos deixa ver. Afinal, estes processos resultam em finais abertos que deixam a cada um a possibilidade de pensar as mesmas à sua medida ou de acordo com as suas próprias experiências pessoais.

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5*!

Parabéns a Marta Freitas e a Luísa Pinto por um texto e uma encenação que não esqueceremos tão cedo. Parabéns também ao ACE pela coragem de abordar e trabalhar assunto tão pouco maisntream e, pela forma como apresentaram esta fantástica peça, conseguir prender o público e fazê-lo viver tão intensas emoções e deixá-lo a refletir muito para além do espetáculo a que se assistiu.

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Ficha técnica

O texto de O Deserto de Medeia foi escrito por Marta Freitas e encenado de Luísa Pinto.

O espetáculo é uma coprodução Narrativensaio-AC e Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, com o apoio da ACE Famalicão Escola de Artes.

Nos últimos três anos, a encenadora Luísa Pinto, reuniu histórias reais de mulheres que mataram os seus filhos. Confrontando-se com os inúmeros casos relacionados com o complexo de Medeia, Luísa Pinto decidiu levar à cena uma reflexão sobre o Filicídio, crime que está longe de ser uma abominação exclusiva da antiguidade, mas que ocorre na atualidade, inundando noticiários e páginas de jornal.

Luísa Pinto desafiou Marta Freitas para escrever um texto a partir das referidas histórias. O Deserto De Medeia interroga a condição de mulheres que matam os filhos, normalmente movidas por amor e ódio a um tempo só. O Deserto de Medeia joga-se nesse meio caminho entre a antiguidade e a contemporaneidade transpondo barreiras entre o passado e o presente,  estabelecendo um paralelismo entre a Medeia de Eurípedes e as Medeias de hoje.

Esta proposta anuncia uma paisagem poética numa relação dialógica entre as palavras, a música e sons, que marcam o ritmo do movimento corporal, intenso e passional.

Em palco, e a dar corpo ao drama singular de múltiplas mulheres, estão a atriz Margarida Carvalho, o ator João Melo e alunos do 2ºano da ACE- Famalicão Escola de Artes, aos quais se juntam os músicos Rui David e Paulo Alexandre Jorge, que acompanham ao vivo toda a narrativa como se de um segundo texto se tratasse.

Ficha artística
Texto – Marta Freitas
Encenação – Luísa Pinto
Interpretação – João Melo e Margarida Carvalho
Alunos do 2º ano do Curso Profissional de Artes do Espetáculo-Interpretação da Academia Contemporânea do Espetáculo – Famalicão – Adriana Frasco, Alexandre Oliveira, Ana Mendes, Ana Pinheiro, Ana Ramos, Beatriz de Sousa, Catarina Barbosa, Catarina Costa, Catarina Pernadas, Cristiana Sousa, Débora Lopes, Diana Gonçalves, Eliana de Oliveira, Francisca Fernandes, Francisca Ferraz, Mafalda Santos, Margarida Martins, Mariana de Sousa, Nuno Ricardo, Pedro Costa e Vânia Timóteo.
Composição e interpretação musical – Paulo Alexandre Jorge e Rui David
Voz – Rui David
Cenografia e Figurinos – Luísa Pinto
Execução de adereços – José Lopes
Desenho de Luz – Bruno Santos
Apoio ao movimento – António Carvalho
Assistente de encenação – César Siqueira
Assistente de produção – Cláudia Pinto
Créditos fotográficos – Paulo Pimenta
Vídeo Promocional – Caroline Maia
Direção de Produção da ACE – Glória Cheio
Produção da ACE – Pedro Barbosa

Apoios: ESAP – Escola Superior Artística do Porto/ CESAP – Cooperativa de Ensino Superior Artístico do Porto

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Entada: 6,00 euros; Cartão Quadrilátero – 3,00 euros.

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Imagem de destaque: Medeia (imagem: arquivo Casa das Artes de Vila NOva de Famalicão).

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Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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