Identidade: Joanense, Minhoto, Português, Europeu, Engenheiro do Ambiente e, muito recentemente, Ferroviário

Identidade:  Joanense, Minhoto, Português, Europeu, Engenheiro do Ambiente e, muito recentemente, Ferroviário

Identidade

A forma como nos vemos a nós mesmos e construímos a nossa história pessoal e a nossa identidade são uma peça central da nossa vida. A minha identidade anda em torno de várias ideias: Joanense, Minhoto, Português, Europeu, Engenheiro do Ambiente e, muito recentemente, Ferroviário. Vou tentar explicar como me vejo em torno destes conceitos e assim apresentar-me.

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Joanense

Nasci e cresci numa época em que, na minha vila, pude fazer a minha vida toda sem precisar de ir à sede de Concelho. Em resultado disso sou um completo estranho em Famalicão. Creio que apenas conheço duas ou três pessoas que lá vivem, não conheço um bom restaurante, um nome de rua, nada. Saí de casa aos 17 anos para ir para a Universidade em Aveiro e normalmente digo que sou de Joane, mesmo perante pessoas de zonas distantes do país. Até amigos estrangeiros mais próximos conhecem a minha vila de nome caricato. Famalicão é um sítio que atravesso a pé, a caminho da estação, ferroviária e onde fui muito pontualmente.

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Rural

Não sendo Joane propriamente um meio rural, também não é uma cidade. Não sei bem como descrever as diferenças, mas ainda hoje, depois de muitos anos a viver em cidades, sinto empatia para com quem vem de sítios mais pequenos. E quando observo alguns comportamentos ou escuto algumas tiradas, no meu cérebro forma-se a ideia “menin@ da cidade”, ou em casos piores “elites…”. Por um lado, passar uma boa parte da infância em cima de um ameixoeiro, entre outras actividades do género, deve produzir algum efeito diferente no nosso cérebro. Por outro lado, talvez num sítio como Joane tenha convivido com o país real, em que há muita gente com vivências mais difíceis, mas num ambiente ainda assim calmo e relativamente inocente.

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Minhoto

Pelo nosso sotaque, pela nosso estilo directo e aberto, por algum abuso de profanidades, pelo estilo despachado e mexido das pessoas, gosto da minha identidade de Nortenho. Na nossa zona, temos muito em comum com o distrito do Porto, talvez mais até do que com o Alto Minho, mas escolho a palavra Minhoto por na zona do Porto se usar um estilo mais carrancudo e pesado, para além de excessivamente azul para o meu gosto. A respeito disto, será impressão minha ou, para além do futebol, nunca se vê ninguém com um sotaque Minhoto carregado nos espaços de comentário e opinião? E quem diz Minhoto, diz Tripeiro, Alentejano, Algarvio, ou até Alfacinha de gema. Será que alguém fora dos cânones Foz/Boavista-Coimbra-Lapa/Linha consegue ter algum espaço mediático em Portugal?

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Português e Europeu

A essência da nossa identidade anda em torno da nossa língua e das referências culturais comuns. Já vivi e trabalhei ou estudei em 5 países Europeus, adoro a Europa, viajar, conhecer e conversar sobre e dentro da Europa, respeito imenso o Reino Unido e a Alemanha, adoro a Itália, mas não consigo nunca desligar-me de Portugal. Quero estar sempre informado e debater os assuntos da mesma forma como se nunca tivesse saído do país e tenho a esperança de que um dia Portugal seja um país que permita a todos nós levar uma vida mais rica e estimulante, com mais liberdade e conforto material e emocional. Aliás, não me identifico sequer como emigrante. Com a massificação do mundo digital e das telecomunicações, o conceito de residência tradicional deixou de ser obrigatório. Hoje estamos a viver na cidade A, amanhã podemos estar a viver na cidade B, mas podemos aceder a informação quase como se ainda estivéssemos no ponto de origem. Quase todos os dias discuto com amigos as principais notícias sobre Portugal.

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Engenheiro do Ambiente e Ferroviário

Os temas ligados ao Ambiente e à conservação do nosso planeta são o elefante dentro da sala do século XXI, o tema que no fundo todos sabem ser central ao nosso futuro, mas que é sempre empurrado para o fundo da lista de prioridades face às pressões do dia-a-dia. A escolha desta profissão muda a forma como se olha para o que nos rodeia, gera simpatia e interesse em muitas pessoas e possivelmente incompreensão noutras. É uma escolha profissional profundamente identitária e associada à minha auto-imagem. Por vários motivos mundanos e por uma paixão grande pelo mundo dos comboios e da ferrovia descoberta tardiamente, encetei uma mudança de carreira. Não é nada de drástico, mas é estranho deixar de responder que sou Engenheiro do Ambiente quando me perguntam o que faço. É interessante pensar como se sentirão as pessoas forçadas a mudanças drásticas que tocam no seu sentido de identidade e pertença: refugiados, emigrantes, órfãos, pais que perdem filhos, desempregados, ou até mesmo divorciados.

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Nómada

Depois de sair de Joane em 2002, vivi em 9 cidades diferentes em 5 países Europeus. Morei em 12 casas diferentes, 14 se considerar alojamento temporário, e o máximo de tempo que passei numa morada foram 2 anos em Lisboa. Não sou saltimbanco, nem tomei nenhuma opção extraordinária para além de procurar conhecer um pouco o “mundo lá fora” e rejeitar aquilo que não me satisfazia: O Erasmus em Praga; acabar o curso em 2008 e ter que procurar um estágio em Inglaterra; uma procura literal por um lugar ao sol, que implicou fugir da “ilha cinzenta” numa viagem prolongada e me levou a Bruxelas; aceitar um desafio para voltar à pátria amada, no Porto, e depressa perceber que tinha sido um grande erro; tentar corrigir o erro com um regresso aos livros em Lisboa; e finalmente fugir do mercado de trabalho deprimido para a Alemanha. Por vezes falo 4 línguas no mesmo dia. Ou melhor, falo Português e Inglês, e tropeço no Castelhano e no Alemão. Com a massificação do programa Erasmus e da mobilidade barata dentro da Europa, este tipo de experiência de vida não é de todo incomum para as pessoas da minha geração. Há alguns conteúdos interessantes nos média sobre este Portugal mais internacionalizado, mas ficam um pouco pelas caricaturas e pelo entretenimento puro. Penso que há uma riqueza de experiências, que num país tradicionalmente fechado e isolado, poderia ser melhor aproveitado. O académico Nuno Garoupa é um exemplo de um “estrangeirado” que proporciona uma perspectiva interessante sobre o país, mas é ainda desconhecido da maioria das pessoas. Cheguei a ouvir de dois empregadores, durante o meu regresso temporário, que tinha uma experiência de vida muito enriquecedora, etc, mas pelo que me foi dado a observar, duvido que algum deles gostasse de ouvir como se comparavam as suas práticas de gestão com aquilo que é corrente em Inglaterra, especialmente pela forma como tratam os seus subordinados, ou o exotismo de se fazerem reuniões sem agenda, nem minutas, cujo conteúdo principal seja um monólogo de 30 minutos, com passagem pela gama completa de estados emocionais, com a raiva e o orgulho à cabeça. Protagonizado pelas excelências, claro.

P.S. Tinha planeado este artigo como o meu primeiro no Vilanova, mas perante a segunda tragédia com fogos – Fogos florestais | Ainda não vimos o pior. Vamos deixar tudo na mesma? – quis escrever um artigo sobre esse tema de imediato e este artigo de apresentação acabou por ficar para trás.

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Renato Rodrigues

Cidadão de Joane, de onde fugiu em 2002 para se licenciar em Engenharia do Ambiente, em Aveiro, já viveu e trabalhou em Inglaterra, Bélgica e na Alemanha, onde se encontra neste momento. Guiado, desde que se lembra, por uma curiosidade omnívora, vê o mundo pelo lado prático da Engenharia e da Ciência, mas mantendo-se sempre aberto à perspectiva das Humanidades e das Ciências Sociais.

Comentários

  1. Anónimo
    Anónimo 24 Março, 2018, 21:14

    Parabéns pelo orgulho de ser Joanense, Joane terra em progresso, pouco a pouco vai crescendo o tom e a beleza.

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