Fogos florestais | Ainda não vimos o pior. Vamos deixar que fique tudo na mesma?

Fogos florestais | Ainda não vimos o pior. Vamos deixar que fique tudo na mesma?

Pub

Leigo

Sou licenciado em Engenharia do Ambiente e o tema do meu projecto de fim de curso estava relacionado com fogos florestais, na sequência do interesse gerado pelos terríveis anos de 2003 e 2005, com áreas ardidas muito grandes e algumas dezenas de mortos. Apesar desta introdução, devo dizer que não voltei a trabalhar na área e sou apenas um leigo com algum treino científico, que me permite avaliar a qualidade dos argumentos dos vários especialistas que têm escrito sobre esta matéria. Este artigo serve como uma pequena resenha do tema.

 

Bombeiros

Os bombeiros são dignos da admiração de todos e serão sempre um esteio das nossas comunidades, mas a admiração que temos por eles não nos pode impedir de questionar se a abordagem correcta à protecção da floresta se pode basear apenas, ou quase só, em água, auto-tanques, meios aéreos e uma força a tempo parcial. Isto é relevante porque desde os anos de 2003 e 2005, que despertaram o país para a problemática dos fogos florestais, houve um aumento significativo do investimento no dispositivo de combate a fogos. No entanto, este ano deixou claro que os resultados são maus. E são maus porque se baseiam numa estratégia errada, que aparentemente nem sequer a vida das pessoas consegue proteger.

 

Bê-a-bá

Vamos começar pelo básico. A julgar pelos comentários que se vai vendo e ouvindo, muita gente nem sequer tem noção da vastidão das áreas florestadas. Em Famalicão, um concelho bastante povoado, temos áreas florestadas relativamente pequenas. Mas quem conhece essas pequenas áreas, sabe que ainda assim podemos andar horas sem ver ninguém no monte. Agora imaginemos as áreas florestadas ininterruptas na zona de Leiria, no Pinhal Interior, no distrito de Castelo Branco. A meu ver, qualquer solução para o problema dos fogos que passe por condicionar, ilegalizar, policiar alguma coisa que se passe nos montes é praticamente impossível de implementar. Nem que vivêssemos em ditadura.

 

Incêndios catastróficos

Para haver um incêndio é preciso uma faísca e é preciso haver combustível. Consultando os dados da Pordata, em Portugal existem cerca de 20 a 30 mil incêndios reportados por ano e nos dias de condições meteorológicas mais desfavoráveis chega a haver cerca de 500 incêndios reportados. Se alguém achar possível passar de 500 para zero, talvez seja melhor parar de ler, ou regressar ao parágrafo anterior. Outro dado importante é que, em muitos anos, cerca de 1% das ignições dão origem a mais de 90% da área ardida (1). Também as mortes se têm concentrado em poucos dias. E isto acontece normalmente nos poucos dias de condições extremas, normalmente quando se verificam ventos secos, de Leste*, conjugados com temperaturas altas e baixa humidade no solo. Ou seja, por norma, os incêndios florestais são muito perigosos num punhado de dias. Este tipo de condições extremas com ventos são relativamente raras; por vezes passam-se anos sem que ocorram.

 

Deixa arder

A doutrina actual de combate a fogos passa por extinguir todo e qualquer incêndio o mais rápido possível. Se com a ajuda da meteorologia, o combate a incêndios for bem-sucedido durante vários anos, o resultado é a acumulação progressiva de combustíveis. Ou seja, a criação de um barril de pólvora. No momento em que se conjugarem condições meteorológicas extremas e um incêndio que os bombeiros não consigam apagar, está aberto o caminho para uma catástrofe. E acreditem, em Portugal com o nosso clima, esse dia vai chegar. Enquanto vai correndo bem, os políticos vão atribuindo os méritos a si próprios, ao mesmo tempo que os combustíveis se acumulam nas florestas. Isto é uma loucura. Porque não deixar arder quando as condições não são perigosas? Há fogos e fogos, há fogos num dia Primaveril, em Maio, que queimam a vegetação rasteira e pouco mais, e há monstros com labaredas de 10 metros que engolem o pinhal de Leiria em 24 horas. Falamos de incêndios que podem progredir a 10 km/h, que é duas vezes a velocidade de uma pessoa a andar. Qual deles preferimos?

 

Fase ‘Charlie’

A fase ‘Charlie’ corresponde mais ou menos ao Verão. Durante essa fase o sistema de combate a incêndios tem mais meios e maior prontidão. Pedrógão e a catástrofe de Outubro ocorreram fora da Fase ‘Charlie’. O risco de incêndio está associado às condições meteorológicas, mas aparentemente os responsáveis ainda não entenderam. Esta questão, apesar de menor, simboliza bem o quão errado é todo o pensamento sobre fogos em Portugal.

 

Guarda-chuva para dias de sol

Foi um erro atribuir as mortes de Pedrógão Grande às condições atmosféricas extraordinárias. O Estado, através da Protecção Civil, tem como dever proteger a vida das pessoas quando se verificam condições extraordinárias. É precisamente para isso que serve. Tivemos o azar de voltar a ter condições extremas no mesmo ano e subitamente os membros do Governo não sabem o que dizer. Há um problema grave com a Protecção Civil, que não é culpa apenas deste Governo é certo, mas é a este Governo que podemos e devemos pedir responsabilidades e soluções. Os relatos que se vão lendo do terreno durante as situações mais complexas são de caos e desorientação absolutos. Aquando de Pedrógão ouvimos falar de membros do Governo, à beira do comando de operações, em lágrimas e em colapso emocional. Que exemplo de liderança oferecem estas pessoas? Soubemos também, entretanto, que as chefias da Protecção Civil são um repositório de ‘boys’ dos partidos de poder. Se não conseguimos encarar os problemas, não vamos encontrar a solução. Os 40 mortos deste fim-de-semana servem como uma triste lembrança desse facto. A Protecção Civil e a Segurança Interna são assuntos demasiado sérios. É este dispositivo que vai responder a um possível grande terramoto em Lisboa?

 

Algumas soluções

Precisamos de uma nova filosofia, que aceite que o fogo faz parte da floresta e que o essencial é gerir os combustíveis, ao invés de correr a apagar todo e qualquer fogo. Dado o panorama presente, em que uma parte muito grande dos terrenos florestais não são alvo de qualquer gestão, a única forma de atalhar a este problema é usar de todas as estratégias possíveis e começar a usá-las agora: Controlar os fogos em vez de os extinguir caso as condições sejam favoráveis; Subsidiar rebanhos que ajudem a limpar os montes; Usar fogo controlado. Creio que também precisamos de criar corpos de sapadores florestais que trabalhem o ano inteiro na floresta. Os bombeiros voluntários terão o seu papel no apoio ao combate, mas deveriam estar mais direccionados para a protecção das pessoas.

 

Ainda não vimos o pior

Em 2003 houve cerca de 15 dias seguidos com ventos secos de Leste e temperaturas muito altas. Ou seja, como o fim-de-semana passado, mas em vez de 2 dias, tivemos 15. Pode vir a acontecer nos próximos anos. Vamos deixar que fique tudo na mesma?

 

1 – Abertura solene da época de caça ao incendiário

*de Espanha nem bom vento nem…

Pub

Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Renato Rodrigues

Cidadão de Joane, de onde fugiu em 2002 para se licenciar em Engenharia do Ambiente, em Aveiro, já viveu e trabalhou em Inglaterra, Bélgica e na Alemanha, onde se encontra neste momento. Guiado, desde que se lembra, por uma curiosidade omnívora, vê o mundo pelo lado prático da Engenharia e da Ciência, mas mantendo-se sempre aberto à perspectiva das Humanidades e das Ciências Sociais.

Comentários

Apenas utilizadores registados podem comentar.