Pedro Maia Martins

Viver | Mais natureza, menos niemeyer

Viver | Mais natureza, menos niemeyer

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É ano de eleições. As obras públicas proliferam pelo nosso país. Edifícios cuja demora na construção parecia rivalizar com a Sagrada Família de Gaudí são concluídos em tempo record. Como soldados na guerra pelo voto, os autarcas embarcam neste frenesim, para benefício dos seus partidos.

Na era da apologia das causas ambientais, os espaços verdes surgem como uma das opções para quem lidera as câmaras municipais.

Numa das minhas habituais deambulações deparei-me com um desses locais: após quilómetros pela selva de betão da Avenida João XXI, em Braga, eis que surge o Complexo Desportivo da Rodovia. Renovado no ano passado, este espaço já anteriormente ocupado por árvores de um lado ao outro surgiu como um oásis no deserto urbano. Talvez tenha sido apenas o som das águas do rio Leste a correrem por lá, mas a calma tão estranha ao frenesim das cidades instalou-se em poucos segundos.

Esta vitória dos espaços verdes na disputa entre o “homem civilizado” e a natureza é algo recente. Durante décadas o meio ambiente foi visto como algo a ser desbaratado. A sua protecção seria mesmo prejudicial para o desenvolvimento humano. Apenas em tempos recentes se buscou o equilíbrio entre estes dois polos anteriormente opostos.

Igualmente tardia foi a aplicação deste equilíbrio ao planeamento urbano. As cidades são compostas por espaços e estes apenas existem em função dos humanos que habitam a urbe (de outro modo, estaríamos perante “anti-espaços”). Fará sentido para alguém uma cidade repleta de betão e planeada apenas para deslocações de automóvel? Ninguém nega a beleza arquitectónica de cidades como Brasília, construídas por arquitectos-escultores à la Oscar Niemeyer. Mas basta procurar qualquer documentário ou reportagem sobre esse mesmo espaço para ver a realidade: quando a funcionalidade é sacrificada por razões estéticas, o preço a pagar é uma qualidade de vida mais baixa. Embora este tipo de construções não abunde em Portugal, o flagelo dos chafarizes e rotundas em tempos passados mantém-se na memória de muitos portugueses.
Ainda há muito trabalho a ser feito, embora os primeiros passos já tenham sido dados.

Acho que já me alonguei demais a pensar neste assunto. É melhor parar de escrever e sair de casa por algum tempo. Afinal de contas, é lá fora que a natureza se encontra.

Imagens: (0) José Gonçalves, (1) Município de Braga

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Maia Martins

Esposendense de nascimento, barcelense de criação e conimbricense por hábito. Estuda Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Colaborou no passado com o Jornal Universitário de Coimbra - a Cabra e com a Revista Via Latina - Ad Libitum. Foi o último editor de País e Mundo do referido jornal.

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