24/11 a 15/1 Espaço Mude, Vila Nova de Famalicão

Entrevista | Hildebrando de Melo: Mais mar houvesse, lá chegaríamos

Entrevista | Hildebrando de Melo: Mais mar houvesse, lá chegaríamos

 

 

Hildebrando de Melo, o pintor e escultor angolano, também cronista do seu presente contemporâneo, que nasceu para as artes plásticas em Vila Nova de Famalicão, expõe ‘Selective Works‘ no Espaço Mude, dirigido por Tiago Amorim. A exposição inaugura no próximo dia 24 de novembro, pelas 21 horas, e estará patente ao público até 15 de janeiro de 2019.

 

 

“Quero tentar ir além do imaginário, onde o ser humano em pensamento ainda não chegou ou nunca esteve, a descoberta de novas paragens, um sítio novo na mente”, assim define Hildebrando de Melo a sua pintura, plena de poesia, forte, colorida e misteriosa. Como afirma Camões, nos Lusíadas, e Hildebrando também recorda, em palavras que possuem tanto de simples quanto de sincero, pressupondo tanto de inspiração quanto de ambição: “Mais mar houvesse, lá chegaríamos”.

“O universo criativo de Hildebrando de Melo é vasto, complexo e contém múltiplas possibilidades de abordagem. É como se o artista, em cada nova série de trabalhos que realiza, incorporasse no seu léxico já consolidado novas áreas de conhecimento – cada qual com o seu sistema de referências particular – oriundas tanto do universo específico da arte como da religião e das inumeráveis narrativas mitológicas que cita, da antropologia, da política, robótica, biologia ou, sobretudo, da ontologia. A pintura assume-se, assim, para Hildebrando de Melo, como laboratório de observação dos fenómenos naturais e suas repercussões nos planos espirituais; suporte sensível sobre o qual o pintor inscreve, anota, regista o resultado da sua experiência quotidiana enquanto ser no mundo, consciente do mistério insondável e movediço no qual se enraiza o destino individual e coletivo da humanidade”, resume José Sousa Machado. 

O artista plástico, nascido a 7 de Abril de 1978, em Huambo, Angola, é o autor da próxima exposição que a galeria famalicense Espaço Mude vai apresentar ao público. A inauguração acontece no próximo dia 24 de novembro, pelas 21 horas, e representa precisamente o regresso de Hildebrando de Melo à terra onde há precisamente 25 anos atrás iniciou a sua formação artística.

Hildebrando de Melo foi o vencedor do Prémio Ensarte na categoria juventude e do Prémio Desenhos na Areia da Empresa Norsk Hidro. Nos seus mais de 20 anos de trajetória artística, conta com diversas exposições individuais e coletivas em Angola, Portugal e Alemanha, destacando-se, neste último ano, a exposição no Festival de Arte no Mormon Arts Center em Nova Iorque, e igualmente nos EUA, a exposição na Universidade de Brigham Young (BYU), no estado de Utah. Em 2015, com publicou um álbum retrospetivo dos seus trabalhos, a que deu o significativo nome de Deep (Profundo).

Pedro Costa: O Hildebrando não nasceu em Famalicão. É angolano, viveu cá durante muitos anos, mas está também ausente desta cidade desde há bastante tempo. Em que medida o Hildebrando se considera famalicense?

Hildebrando de Melo: Ser-se famalicense é-se com o coração, assim como muitas pessoas que não nasceram na terra aonde estão presentemente, sentem por vezes o mesmo. Está tudo no coração, porque é o coração que alberga tudo, as pessoas com que entras em contacto, a cultura e afins. Sinto-me daqui porque é aqui aonde tenho os meus amigos da juventude, já que os da infância, sem esquecer, estão no Porto. Mas foi aqui que me fiz homem, tenho cá muita família e raízes. A muita convivência leva-te a fixar raízes, então no meu caso eu já convivo e estou em Famalicão há 32 anos aproximadamente.

Pedro Costa: Como se orientou para as artes plásticas? Como tem sido a sua evolução ao longo do tempo, Hildebrando?

Hildebrando de Melo: Eu não me orientei, ela é que me orientou a mim (risos…). Foi em tenra idade, devia de ter uns 5 ou 6 anos quando desenhei na altura uns desenhos animados – a Dama e o Vagabundo. Queria participar num concurso televisivo de desenho. Ainda estava a morar no Porto; quando a minha Avô adoece é que venho para Famalicão. Venho para as Lameiras e continuo a primária aqui. Mesmo ao lado do edifício havia a escola primária em pré-fabricado, lembro-me. Na escola primária, lembro-me do meu incessante gosto pelo desenho. Na preparatória é que as coisas começam ter uma outra estrutura de base. Tive a sorte de ter tido como Professora a Ana Ilhão. Fiz um curso de pintura na Associação das Lameiras, mas em antes e realmente, o Bichinho da pintura começa com a minha Professora. E porquê?

Como tinha talento para o desenho ela dava-me aulas de forma diferente, a mim trazia-me telas, pastéis e acrílicos. E logo cedo tive contacto e iniciação à pintura. Muito cedo ela deu-se conta do meu talento e, para as aulas não se tornarem entediantes, dava-me matéria que eu precisava para alimentar o meu talento.

Pedro Costa: Estando a desenvolver de forma tão intensa e profunda as suas capacidades artísticas na sua cidade do coração, porquê então o seu regresso a Angola?

Hildebrando de Melo: Cheguei em 1982 a Portugal devido ao conflito armado em Angola, tinha uns 5 anos de idade. Os meus pais tinham ficado em Angola, porque – mais tarde soube – eram altos funcionários do Estado na altura. Cresci até à minha juventude com a minha Tia Isabel, na qual fiquei ao cuidado dela. Porquê? Só venho para Famalicão porque a minha Avô Laura tinha adoecido e ficado incapacitada. Então cresci sem conhecer os meus pais, regressei a Angola para lhes conhecer em meados de 1997, ainda o País estava em guerra. Sabia dos riscos que corria, mas arrisquei. Para mim era mais importante ver os meus progenitores. É este o motivo que me levou a voltar a Angola. Estou lá um mês e regresso a Famalicão. Depois, entre muitas idas e vindas a Luanda, vou e fico uma maior temporada, de 2000 à 2005. Então toda a gente de Famalicão julga que me mudei de malas e bagagens, mas não. Há vezes que vinha, passava aqui na calada da noite para apanhar o próximo avião só que por vezes a cidade está a dormir e ninguém me vê. Subsequente em meados de 2000… É também quando decido que vai ser a pintura a minha profissão e monto um atelier lá, mas sempre com um pé cá. (Risos…)

Pedro Costa: Em Angola, pois! Vivendo lá, o Hildebrando tem, ou teve, uma atitude muito crítica face ao regime angolano. Em que medida as posições que foi defendendo ao longo dos últimos anos se refletem na sua pintura? Sim, porque nas palavras já o sabemos. As suas crónicas têm sido bastante contundentes para com o regime; ou foram-no pelo menos.

Hildebrando de Melo: Não havia como não ter para uma pessoa que sai de um estado democrático como Portugal e vai para uma ditadura. Não tem como não se rebelar contra este estado de coisas.

A minha reivindicação além de ser verbal, também era plástica. Prova os projetos que fiz de pintura como candongueiro, M´Bilu, que na linguagem popular é ”Luta”.

E o projeto Política que não acabei de fazer; comecei a entrevistar alguns políticos angolanos para colher depoimentos deles, com este meu feito fui envenenado três vezes. Talvez neste tempo de mais calma política e abertura o faça. (Risos…)

Pedro Costa: As suas fontes de inspiração mais fortes para os trabalhos que realiza quais são? E que tipo de técnicas considera essenciais para exprimir a sua arte?

A minha inspiração é muito relativa, pode vir de assuntos do quotidiano, como assuntos do espírito e da alma. A Suzana Sousa, crítica de arte e curadora, uma vez escreveu num texto “que tenho como pano de fundo as Urbes e me socorro às vezes de assuntos do quotidiano”. E realmente é verdade. Quanto à minha prática, há mais de 20 anos que não uso pincéis, desenvolvi uma prática de espátulas feitas propositadamente para mim ou trabalho com grandes raspas e colheres da construção civil. Sempre fui na procura de coisas muito distintas, julgo que hoje, de tanto praticar, pinto com qualquer coisa.

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Hildebrando de Melo não o cita, mas José Sousa Machado afirma que, do seu ponto de vista, no trabalho do autor “a interrogação urgente sobre o sentido da existência e, em particular, a procura incessante de uma explicação plausível para o conflito insanável entre o bem e o mal na história da humanidade, com o seu tremendo cortejo de horrores, constitui a questão fulcral, sempre retomada e reatualizada, da obra de Hildebrando de Melo. Muitas das suas pinturas são, metaforicamente, autênticos campos de batalha, onde se confrontam forças poderosas antagónicas que o artista, qual Kimbanda (sacerdote) iniciado nos mistérios, procura apaziguar plasticamente, restaurando em cada nova obra o equilíbrio vital ameaçado”. *

Pedro Costa: Sabemos que vai também, agora, abrir um espaço expositivo em Angola. Onde? Em que medida a abertura deste espaço se enquadra na sua carreira?

Hildebrando de Melo: A cena artística em Luanda é bastante carente em matérias de galerias, principalmente para a arte contemporânea. Então julgo que a Galeria que vamos abrir é efetivamente uma ajuda ao mercado. Será uma galeria internacional. Em Luanda, é engraçado, existem muito bons artistas; então o mercado é fomentado por estes artistas. Então somos nós que estamos a montar toda uma estrutura e instituições para a arte. A Lab Art&CO é um projeto que passa pelo mapeamento da arte contemporânea africana, mais essencialmente no continente, e o final do projeto é entrar em dialogo com o mundo. Esta galeria serve como um laboratório de ensaios de curadoria para a arte.

Pedro Costa: Outros projetos para o futuro…. Há, Hildebrando??

Hildebrando de Melo: Projetos, sempre ! São tantos que custa falar, melhor estarem atentos às sempre minhas coisas novas. Como digo aos meus amigos: se queres saber aonde estou é só fazeres um Google do meu nome. Saberás sempre aonde estou. (Risos).

Para já é só continuar, vamos ver mais a frente. Num dito dos Lusíadas “ Mais mar houvesse, lá chegaríamos”. Deus nos abençoa a todos.

O Espaço Mude é um espaço dedicado à arquitetura e ao design, onde regularmente são levadas a cabo exposições, com o intuito de promover a arte nas suas diferentes vertentes. As suas instalações estão localizadas na Rua Alberto Sampaio, em Calendário, Vila Nova de Famalicão.

 

Fonte: Espaço Mude

 

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“Desde tenra idade que questiono a existência (…) Sempre tive o desejo de ver Deus! Qual será a sua fisionomia? (…) depois da expressão o que virá? (…) gosto de tratar a pintura como um organismo vivo, como um vírus que cresce, muta-se, divide-se (…) e analiso a espécie humana também na sua condição de vírus que precisa de proteínas para viver; no confronto com a terra, em busca de alimento – a fome, as doenças, os desastres naturais, Deus”, afirma Hildebrando de Melo no livro que publicou recentemente, reunindo 20 anos de labor artístico. A interrogação urgente sobre o sentido da existência e, em particular, a procura incessante de uma explicação plausível para o conflito insanável entre o bem e o mal na história da humanidade, com o seu tremendo cortejo de horrores, constitui, do meu ponto de vista, a questão fulcral, sempre retomada e reactualizada, da obra de Hildebrando de Melo. Muitas das suas pinturas são, metaforicamente, autênticos campos de batalha, onde se confrontam forças poderosas antagónicas que o artista, qual Kimbanda (sacerdote) iniciado nos mistérios, procura apaziguar plasticamente, restaurando en cada nova obra o equilíbrio vital ameaçado.
De aparência abstracta, a pintura de Hildebrando de Melo é, de facto, realista, pois retrata realidades materiais – gruas, robots biomórficos, seres-máquina, candongueiros, composições articuladas, insectos, imbondeiros -, bem como realidades imateriais – nkisi (figuras de adivinhação), entidades mitológicas e arquetípicas, potestades – no que poderemos designar, como muito justamente notou Fernando Galan, de realismo quase-esotérico. Convém sublinhar, em defesa desta tese, que a maioria das pinturas do artista tem título – “Movement of God”, “Estudos para Vorax”, “Posição de Combate”, “Kiling Structures”, “Spider”, “Vírus”, p. ex. -, nomeando explicitamente o objecto ou ambiente retratado em cada obra e fornecendo ao observador informações preciosas sobre como o autor articula os conteúdos verbais com a sua tradução plástica específica.
Dos fundos coloridos das telas pintadas a espátula – parecem puzzles de lâminas sobrepostas – irrompem formas geométricas, rectilíneas, angulosas, estruturas articuladas rigorosamente monocromáticas que se instalam ante o nosso olhar como protagonistas do acontecimento plástico vertente e nos transportam subitamente do universo da pintura para o da escultura. Ou seja, a plasticidade matérica e harmoniosa do suporte parece preparar o ambiente adequado para a entrada em cena do clímax escultórico, integrando, assim, o artista, numa única obra, as duas disciplinas.
Na mostra que Hildebrando de Melo apresenta na galeria da Sá da Costa, intitulada “M’Bilú” (luta), está exposta uma obra em que o elemento escultórico, que nas obras anteriores estava implicitamente sugerido nas composições articuladas monocromáticas, existe agora realmente, fisicamente, em metal recortado, emanando da superfície pictórica, em alto relevo, conferindo uma maior coerência ao intento do artista e inaugurando uma nova via de desenvolvimento deste projecto artístico.

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Categorias: Agenda, Arte

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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