João Palhares

Lucky Star | Brandos Costumes, de Alberto Seixas Santos

Lucky Star | Brandos Costumes, de Alberto Seixas Santos

 

 

 

Em Novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga embrenhar-se-á pelas pesquisas humanas, políticas e sociais de Alberto Seixas Santos (falecido no final de 2016)  pelo salazarismo e pelo pós-25 de Abril. Rodado ainda durante a recta final do Estado Novo, assolado por problemas políticos e diplomáticos e apenas estreado depois da Revolução dos Cravos, Brandos Costumes é a próxima sessão do Lucky Star nos cinemas do Bragashopping.

No fabuloso ciclo organizado por José Neves e pelo Núcleo de Cinema da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, Alberto Seixas Santos sentou-se com José Neves, João Bénard da Costa e Nuno Teotónio Pereira e divagou sobre os espaços do seu filme, dizendo que “interessou‐me o conflito entre esses dois espaços: o espaço público e o espaço privado. O espaço público, a preto e branco, e o espaço privado, a cores. Uma das razões por que não se vê muito através das janelas é que eu não queria ver o exterior, porque o exterior era o espaço público. Se se visse o espaço público a cores, a estrutura desequilibrava‐se. Na altura ainda não havia estas habilidades modernas da televisão, que permitem, com o blue screen, fazer o exterior a preto e branco. Não se podia. Impossível. Portanto evitei, e tentava pôr cortinas para não se conseguir ver o exterior. Havia um programa em relação ao filme que era esse conflito entre dois espaços, e, para esse conflito ser coerente, era preciso que um fosse a preto e branco e o outro fosse a cores.

“Em relação à família, pensei a partir das narrativas cinematográficas do expressionismo alemão. Isto é, a mãe é a mãe, não é a senhora Justina; a empregada é a empregada; a filha mais nova é a filha mais nova; a filha mais velha é a filha mais velha; o pai é o pai! Portanto, são arquétipos da estrutura familiar, não personagens individualizadas com uma psicologia muito própria. Isso também foi uma coisa que escolhi desde o princípio.

“Depois, há coisas que me acontecem, eu não sei explicar… Por exemplo, a cena da criada que corre para a janela, na sala grande onde a filha mais nova, pacientemente, tenta aprender a ler o Manifesto Comunista do Marx. A criada chega e diz: «Menina, venha ver os soldados!» Como o filme saiu no princípio de 1975, toda a gente achou que aquela cena tinha sido filmada depois do 25 de Abril. Acontece que tinha sido filmada em 11 de Março de 1972. Não é um acaso. Penso que muitos de nós, em 1972, tínhamos chegado à conclusão de que só se sairia daquele regime por um golpe militar. Eu também tinha chegado a essa conclusão. Não sabia se seria um golpe militar dirigido pelo Kaúlza de Arriaga, na altura o chefe da extrema direita militar, ou se viria outra coisa mais do centro, centro‐esquerda. Mas era evidente que a Guerra Colonial não tinha solução senão por um golpe de Estado. Em 1972, eu tinha a certeza disso. Por isso introduzi offs – a chegada do exército –, mas também porque a história de Portugal está cheia de intervenções militares. É o caso dos vários movimentos monárquicos, no Norte do país, a seguir à implantação da República, para não falar das lutas liberais do século xix. Depois, foi o (…) general Sidónio Pais, que foi morto aqui na Estação do Rossio. São os cadetes do Sidónio que estão por trás do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, comandados pelo Gomes da Costa, o general que rapidamente foi posto de lado e despachado para as ilhas. Portanto, a nossa história está cheia de golpes de Estado militares. O 25 de Abril foi evidentemente um golpe de estado militar – mais um. Foi um golpe de Estado militar simpático, graças a Deus, mas foi mais um golpe de Estado.”

Numa das raras instâncias duma entrevista em que as perguntas são maiores que as respostas e não há celeuma alguma, Serge Daney, em conversa com Seixas Santos, divaga pelas questões da ideologia e diz que Brandos Costumes é o “primeiro filme português, primeira frase do «Manifesto» – acho que é isso. Mas vou colocar a questão de outra forma. Sinto que os intelectuais portugueses estão a criar de forma lógica e natural um pequeno discurso de esquerdas, uma cultura de esquerdas, marxista, que hoje parece possível. Portanto, o teu filme vai estar sujeito a uma série de novas perguntas, porque as pessoas já não fazem as mesmas perguntas; estas perguntas às vezes vêm de um marxismo muito primário, como podemos ler nas críticas que fazem ao teu filme nos jornais, mas ao mesmo tempo são importantes. Perante um tema como o teu, que trata principalmente a ideologia dominante, a forma como se verbaliza, como as pessoas vivem com ela, e isso também se liga ao discurso do salazarismo, uma variante extremamente específica do fascismo, havia no geral três atitudes possíveis: ou fazer um filme sobre como as pessoas vivem contra o salazarismo, ou sobre como as pessoas vivem activamente o salazarismo; e tu escolheste a mais difícil: fazer um filme sobre como as pessoas vivem con o salazarismo. Acho que as acusações que as críticas te costumam fazer vêm sobretudo do facto de não teres tratado a primeira opção, quer dizer, a da resistência. Claro que é muito importante começar a mostrar com uma câmara que, de uma forma ou de outra, houve resistência (não necessariamente uma resistência com bandeiras, pode ser por exemplo essa resistência embrionária, como a que víamos nos camponeses de Acto da Primavera de Manoel de Oliveira). E esse filme que não se fez é o que se te exige a todo o momento. A outra opção era fazer um filme sobre a maneira como as pessoas acreditam no salazarismo, como se transformou numa mística, como alguns se transformaram nos seus ideólogos mais activos – esse é parcialmente o problema do cinema «retro» em França, as pessoas começam-se a perguntar como é que Hitler, Mussolini e Pétain foram possíveis, ou como é que a partir deles pôde surgir um movimento de massas.

“Não trataste essa questão e ninguém to pede. Esta questão tem que ver com a França e comigo. Tomaste o caminho mais complicado, em que há mais compromisso, o das pessoas que viveram durante tanto tempo com o salazarismo sem se confundir com ele, os republicanos, que hoje votariam no PS, suportando-o perfeitamente ao mesmo tempo e reproduzindo-o no núcleo familiar. Mas no teu filme está o problema do paralelismo; não correste o perigo das duas séries, da série histórica, com o Pai (com P maiúsculo), Salazar, e a série familiar com o pai (com p minúsculo); são simplesmente caminhos paralelos, são encaminhadas uma para a outra como um espelho imaginário que, apesar dessa breve frase de Marx que realmente não é mais que um apelo simbólico, não leva a lado algum. De acordo com o me entendimento esse é o principal perigo: a ficção apoia o documento e o documento apoia a ficção, como num espelho, não há uma origem. Como filmar a ideologia? É um problema do qual já falámos hoje a propósito do teu filme e do filme de Allio. Essa pergunta sempre me intrigou. Porque não se trata de «filmar a ideologia». Quando alguém toma a ideologia como tema, quer dizer, o imaginário das pessoas, a sua representação, não se obtêm resultados. Os filmes não dão, ou dão muito pouco prazer às pessoas, não atraem o espectador, e o que se pretendia ou o que se podia mostrar, não acontece. Intento saber por qué de manera desesperada. Isto leva-nos ao problema do Poder, porque quando «se filma a ideologia», filma-se tudo aquilo que é comum tanto ao dominante como ao dominado. Portanto, é impossível que alguém tente articular um discurso assim no ecrã, um discurso evidentemente alienante para ele, um discurso que participa finalmente na própria alienação. Não se acaba sempre por confundir essa pessoa com o seu discurso?”

Já João Bénard da Costa, mergulhando em Histórias do Cinema pelos filmes portugueses sobre as lutas da consciência nos tempos da ditadura, conclui que “muito mais importante é a primeira longa metragem de Alberto Seixas Santos, intitulada Brandos Costumes. Nela o protagonista era mesmo Salazar, já que toda a acção tinha como pano de fundo a figura do Chefe e a sua morte, em imagens documentais do enterro dele. E a família pequeno-burguesa do filme representava em microcosmo o País, entre a tutela do Pai (magnífico trabalho do velho actor Luís Santos, n. 1908) e a revolta dos filhos, onde avulta a interpretação de Isabel de Castro (n. 1931)*.

“Premonitoriamente, terminava o filme com um golpe militar que destruía a paz doméstica. Mas mais do que essa singular premonição – depois muito comentada – Brandos Costumes, filme do teórico mais bem preparado do novo cinema português, é uma obra que articula, com rara coerência, a instância política e a instância estética, sem qualquer concessão nem demagogia. Perpassam no filme as sombras dos grandes primitivos – dos americanos aos russos – a revisão do cinema de propaganda português (particularmente A Revolução de Maio, expressamente citada) e o rigor cénico de obras contemporâneas, desde Straub a Kramer. É um filme-ensaio, um filme-prosa, em que o jogo intelectual se sobrepõe ao emocional, mas em que os códigos são revistados com uma acutilância cultural, muito rara no cinema português, quase sempre alheio a tais asceses.

“Concluído em 1974, meses antes da Revolução, logo se verificou que as hipóteses de visto da censura eram nulas e que uma tal obra podia ser «dinamite» nas relações do Centro com os poderes. Afinal, com o 25 de Abril, serviu para dourar brasões da resistência, embora a sua estreia (em finais de 1975) tivesse sido ofuscada pelo muito que se passara entre a sua concepção e a sua apresentação.”

* Isabel de Castro é a única actriz portuguesa de carreira cinematográfica ininterrupta desde 1945, ano em que se estreou aos 14 anos num pequeno papel do filme Ladrão Precisa-se de Jorge Brum do Canto, até hoje. Muito activa em Espanha nos anos 50, a fase mais interessante da sua carreira iniciou-se em 1960, com o papel de Clara, uma das Pupilas do Senhor Reitor no filme de Perdigão Queiroga. No «cinema novo» apareceu, pela primeira vez, em Domingo à Tarde de António de Macedo (1966). Mas foi em Brandos Costumes que se revelou como grande actriz e como grande presença, continuando depois em inúmeras obras dos anos 70 e 80. É o único nome a fazer a síntese entre «os cinemas portugueses» como refere o título da homenagem que a Cinemateca Portuguesa lhe prestou em 1990: Isabel de Castro e os Cinemas Portugueses.

Sinopse: Filmado em 1972/73, antes do 25 de abril, no contexto do segundo plano de produção do Centro Português de Cinema, BRANDOS COSTUMES só estrearia nas salas em setembro de 1975. A partir de um argumento de Alberto Seixas Santos, Luíza Neto Jorge e Nuno Júdice, filma-se a morte de um pai de família e dá-se a ver a ascensão e queda do Estado Novo através de imagens de arquivo, parte das quais só seriam acrescentadas ao filme já depois da revolução. Prodigiosamente moderno e radical nos seus propósitos fragmentários, o primeiro filme de Seixas Santos é simultaneamente o primeiro dos filmes do 25 de abril. Produção CPC e Tobis Portuguesa, com direção de produção de Henrique Espírito Santo e Jorge Silva Melo.

 

Obs: Este texto foi previamente publicado em Lucky Star – Cineclube de Braga | 118ª Sessão: Dia 13 de Novembro (Terça-feira), às 21h30, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

 

Fontes: Lucky Star e Cinemateca Portuguesa

 

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Categorias: Agenda, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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