João Palhares

Lucky Star | Este País Não É Para Velhos (2007), de Ethan e Joel Coen (7/7, em Braga)

Lucky Star | Este País Não É Para Velhos (2007), de Ethan e Joel Coen (7/7, em Braga)

Para inaugurar Julho, convocamos a obra de Cormac McCarthy e dos irmãos Coen com a exibição da adaptação que os segundos fizeram do livro do primeiro, Este País não é para Velhos, a nossa próxima sessão. Para nos ajudar a entrar nesse mundo, teremos o grande tradutor Paulo Faria em pessoa (tradutor da obra de Cormac McCarthy, mas também de Don DeLillo, Jack Kerouac ou James Joyce, bem como autor do livro Estranha Guerra de Uso Comum, de 2016). Será no próximo dia 7 de julho, sábado,, às 18h00, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

 

Philippe Garnier, autor de David Goodis: La vie en noir et blanc (1984) ou Freelance – Grover Lewis à Rolling Stone : une vie dans les marges du journalisme (2009), escreveu sobre o livro de McCarthy para o Libération, dizendo que “há aqui tantos matos e tantos gadgets como nos Crumley recentes. As armas são descritas e nomeadas aqui com o mesmo fetichismo suspeito, são mencionados «Pablo» e «cartel», é mesmo história de engatilhar a acção. McCarthy parece querer claramente apoiar-se sobre o género tal como existe, para não ter de sacrificar as suas leis. Anton Chigurh não é apenas uma versão sensacional do assassino imparável (Rutger Hauer em Terror na Auto-Estrada, digamos), está também equipado com uma arma irresistível para Hollywood. Nem mesmo Lee Marvin teria ousado usá-la em Prime Cut (Carne de Primeira, 1972), nos matadouros de Kansas City. Tudo isso seria agradável na medida do possível, se McCarthy não fizesse o seu Terminator falar como um Platão de farmácia. Às vezes temos a impressão que o autor se está a parodiar, mesmo que pareça inclinar-se para o lado de Richard Stark/Westlake, ou mesmo Thomas Harris.

“Ele é mais feliz quando abraça o género sem pensar duas vezes, como no final, quando Moss faz embarcar (de forma muito improvável) a jovem que pede boleia. O livro vira então estranhamente para a comédia sexy, com os seus diálogos estaladiços de cinema para voltar bruscamente ao banho de sangue. Como se não se conformasse em deixar as coisas como estão (Faulkner tinha feito o mesmo com Santuário, tornando o seu romance-sensação literário baralhando apenas um pouco as cartas), McCarthy termina com duas cenas aparentemente heterogéneas ao romance, uma, uma visita do xerife ao seu tio Ellis durante a qual lhe revela que não é o homem que todo o mundo acredita (herói de guerra, por exemplo), e outra, magnífica, em que sonha com o pai dele, em quem lamenta não ter pensado mais durante a sua vida. A passagem é tão bela que é difícil não suspeitar de uma parte autobiográfica nesse sentimento: em Knoxville, o pai do autor era o advogado principal para a Tennessee Valley Authority, que levava a electricidade para os Apalaches perdidos. No sonho, Bell cavalga na noite atrás do seu pai, que transporta fogo num chifre.”

Quando os irmãos foram entrevistados pela Time Out em 2006 e lhes perguntaram se estavam a tentar fazer algo de diferente com o filme, Joel Coen disse que “havia coisas que achámos interessantes no romance e que sentimos poderem ser ainda mais interessantes num filme. Nós pensamos: Se tem este efeito no livro, podia ser ampliado num filme. Portanto quando nos dizem que alguma coisa não vai resultar num filme, a nossa resposta é, “Não temos a certeza se isso é verdade; simplesmente não estamos habituados.”

“Embora o tenhamos cortado um bocado, o material sobre as coisas estarem a ficar pior é muito interessante. Quanto dessa perspectiva das coisas é a velhice a falar, e quanto é que é verdade? Cormac inseriu a conversa de Bell com o tio dele, que sempre achámos ser o centro da história; ela sugere, “Isto é apenas o mundo, não é nada de novo.” Mas se estivéssemos a viver na Alemanha em 1939 e disséssemos que as coisas estavam a piorar, tínhamos razão. Portanto não é só velhice. Por isso é que este enquadramento da história nos anos 80 é importante; era uma altura em que os combates à droga transfronteiriços estavam a ficar muito, muito violentos.”

Já Serge Kaganski, para os Inrocks, atira um “Bang bang! You shoot me down… Eis um desses filmes que nos dispara com prazer, sem falhas, entre os dois olhos, uma felicidade cinematográfica total, do género que bebemos com palhinha gota a gota, minuto a minuto, do primeiro fotograma ao último. Um desses filmes que vingam o espectador ou o crítico de todas essas obras medianas que ocupam os ecrãs ao longo do ano, um filme que nos agarra durante duas horas e nos faz sentir que mais nada conta. Ao adaptar a obra-prima fúnebre de Cormac McCarthy, Este País não é para Velhos (Relógio d’Água), Ethan e Joel Coen bateram forte: No Country for Old Men inscreve-se na melhor veia deles, a de Blood SimpleMiller’s Crossing ou Fargo, e coloca a fasquia um nível ainda mais acima.

Misturando os géneros canónicos do western, do film noir e do road-movie, No Country… revisita o tema ancestral americano, a questão de uma violência arcaica impossível de amansar num território tão vasto, e leva-o ao seu grau final de brutalidade, de contra-senso e de absurdo. De forma mais prosaica, entramos no filme com a sequência bem alucinante do rescaldo de uma carnificina em pleno deserto, vestígio provável de um acerto de contas entre bandos rivais de traficantes de droga na fronteira mexicano-americana. Um rapaz corajoso do local, que caçava por lá por acaso descobre um saco cheio de notas. Assim que se apodera desse fruto proibido, ele desencadeia uma série de reacções em cadeia, um mini-apocalipse em pavio lento que assume a forma de um assassino contratado impiedoso, de patrocinadores da droga e da polícia local lançados no seu encalce.

Trama clássica, mais mise-en-scène fabulosa em termos de intensidade e de precisão. É preciso ver, na primeira parte do filme – durante esses vinte minutos de grande cinema, praticamente sem uma única palavra pronunciada –, como os Coen se reapropriam dos grandes espaços do western e conseguem filmar novamente esse motivo usado sem cair nos clichés e nas repetições, mas dando-lhe pelo contrário uma presença nova, dramatizando as paisagens desertas, transformando-as em vector de suspense. O teatro da carnificina é assim uma coisa nunca vista, uma espécie de natureza morta para cadáveres frescos, abutres, pitbulls errantes e 4×4 abandonadas, uma cena de morte extraordinariamente fértil (quase que se lhe sente o cheiro), uma visão solar do inferno que eventualmente também pode servir como alegoria de uma América pós-catástrofe. Esta cena mórbida original vai marcar tudo o que se segue com o seu selo nocivo, o o resto do filme não vai ser mais que uma grande contagem decrescente para a sobrevivência, um contra-relógio com o Anjo da Morte, uma agonia de qualquer possibilidade de ficção à medida que cada protagonista é aniquilado. Quem sobreviverá?

No Country for Old Men, dos Irmãos Coen – trailer

VN Online | João Palhares - Uma introdução a Este país não é para velhos, dos Irmãos Coen

 

 

Publicação original em:

Lucky Star – Cineclube de Braga: 103ª sessão: dia 7 de Julho, às 18h00

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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