La Lys | Centenário da Batalha de la Lys. Um texto inédito do Expedicionário José Gomes Pereira

La Lys | Centenário da Batalha de la Lys. Um texto inédito do Expedicionário José Gomes Pereira

[…] até que se ia aproximando o 9 de Abril, esse dia horroroso em que se travou um dos mais terríveis combates com os Portugueses. Desejaria eu descrever o mais claramente o espectáculo deste dia, mas não me é possível, por que a minha inteligência não mo permite e, por isso, vou fazer apenas o que me for possível.

Neste momento, dissemos adeus a França, que tanto sacrifício nos causou. Tanta vez chegamos aqueles campos de batalha a perder a esperança de voltar à nossa Pátria, […] Tanta vez no meio daqueles ferrenhos combates, em que uma tempestade tão furiosa passava por entre nós, deixando muitos dos nossos camaradas prostrados por terra, nós perdíamos a esperança de voltar a Portugal. Que alegria e felicidades, para todos, que voltamos! Mas não podendo deixar de recordar todos aqueles que nos campos de honra derramaram a sua última gota de sangue em defesa da liberdade, mostrando ao estrangeiro o bom nome de Portugal.

José Gomes Pereira

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Quando Bernardino Machado, no seu I Exílio, em Paris, soube do acontecimento histórico da Batalha de La Lys, não deixou de escrever um telegrama ao comandante do Corpo Expedicionário Português, General Tamagnini de Abreu e Silva nos seguintes termos:

“Acompanhando, de todo o coração, a nossa intervenção militar na guerra, V. Ex.ª imagina, certamente, a profunda comoção de dor e de orgulho que senti, ao receber a notícia do nosso último combate, tão cruel, mas tão heroico. Creio, entretanto, do meu dever exprimi-lo ao ilustre Comandante do nosso valente Exército.”

O telegrama tem a data de 10 de Abril de 1918. (Bernardino Machado, Obras: Política III, Vol. 5, 2015). Na realidade, entre a heroicidade e a crueldade da Batalha de La Lys, o certo é que o Corpo Expedicionário Português nunca mais será o mesmo; e a ideia que o nosso ilustre desconhecido expedicionário, José Gomes Pereira, ao “recordar todos aqueles que nos campos de honra derramaram a sua última gota de sangue em defesa da liberdade, mostrando ao estrangeiro o bom nome de Portugal”, é uma ideia constitucional e institucional defendida por Bernardino Machado, desde a sessão de 7 de Agosto de 1914, com a confirmação em 23 de Novembro e na declaração de guerra em 10 de Março de 1916. Contudo, a ideia de liberdade e a da tragicidade surge também nos textos posteriores, nos anos vinte, de Bernardino Machado, na imprensa, caso de jornais como “A Pátria” ou “A Manhã”, entre outros, em momentos de exaltação patriótica, como aconteceu em 1921, com o soldado desconhecido, ou em celebrações posteriores da Batalha de La Lys.

Vila Nova Online | Amadeu Gonçalves - No Centenário de la Lys, um texto inédito do Expedicionário José Gomes Pereira.

Mas quem é José Gomes Pereira?

Natural da freguesia de Arnoso St.ª Eulália, do concelho de V. N. de Famalicão, embarcou em Lisboa em 28 de Maio de 1917 e desembarcou em 28 de Maio de 1919. Teve, conforme ele nos conta, várias baixas ao hospital, foi condutor do quartel-general do C. E. P., exerceu funções no serviço administrativo do Batalhão para os serviços das prisões no Castelo de Ambleteuse. No momento da mobilização pertencia à 4.ª Brigada, 2.º Batalhão, 1.ª Companhia, Regimento de Infantaria n.º 8 (Braga).

Para além de relatar a fome e o frio, descreve os “rayds” alemães de 2 4 de Setembro, na zona de “Paradiz”, sendo “horroroso o espectáculo das trincheiras”, relatando os acontecimentos nas zonas geográficas de La Gorgue, Saint-Venant ou em Vieille Chapelle. Em 7 de Fevereiro, o Regimento de Infantaria n.º 8 sofreria novo ataque no sector de Laventie, até que “nos princípios de Março é que começaram os verdadeiros combates com os Portugueses. Granadas de grande calibre e as de gazes caiam todos os dias.”

A par destas ofensivas dos alemães, descrevendo algumas das suas próprias vivências, José Gomes Pereira também descreve as relações institucionais entre os comandantes portugueses e ingleses, contando que “O General comandante do C. E. P. foi avisado pelo general inglês, oferecendo-lhe tropas de reforço, o que ele não quis, dizendo que fazia confiança nas suas tropas.” A descrição inicial que Pereira realiza a propósito da Batalha de La Lys, começa assim:

“Pelas 3h e meia da madrugada se travou este terrível combate com os Portugueses, ouvindo-se os primeiros tiros. Os alemães começaram bombardeando as trincheiras fortemente e com os canhões de grosso calibre, cercando lá ao largo com milhares de granadas. Os carros de munições de artilharia portuguesa andaram num sarilho, enquanto puderam transportando granadas por debaixo do fogo inimigo. O bombardeamento era terrível por toda a parte, cortando as estradas e as comunicações telefónicas das trincheiras. Aonde quer que se viam soldados espedaçados pelos estilhaços da artilharia que se entrelaçavam por entre nós. Pelas oito horas da manhã julgamos já as trincheiras arrasadas e começaram a avançar, saltando fora das trincheiras a primeira Divisão de assalto. Mas ainda na nossa primeira linha, um pouco escangalhada, uma metralhadora, aqui, ali, estendendo aquela divisão por terra. Continuavam avançando outras Divisões, mas os portugueses com as metralhadoras estendiam tudo por terra. A artilharia portuguesa fazia fogo vivo enquanto tiveram munições e depois empunharam as espingardas não arredando da beira dos canhões. Os alemães como viam que as metralhadoras Portuguesas não cessavam de fazer fogo, pediram às artilharias o “S. O. S.” para as primeiras linhas, a ver se destruíam tudo, a fim de puderem avançar. A artilharia volta novamente sobre as primeiras linhas com milhares de canhões, mas como ainda escapava alguma metralhadora, ainda lhe não era fácil avançar. E, por isso, atacaram ao nosso plano esquerdo os Ingleses, os quais recuaram e os alemães vieram cerrando, tomando muitos prisioneiros. Aí, então, desde que já não havia munições, comunicações e tudo estava já desorganizado é que houve a ordem de se salvar [quem pudesse].”

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O descalabro, em primeira voz, é geral! Mas este descalabro, esta tragicidade, esta heroicidade (pelo menos mais de dez famalicenses tombaram em La Lys, outros tantos tomaram parte e sobreviveram, outros feridos, uma grande parte foram feitos prisioneiros), e do sacrifício que José Gomes Pereira fala na primeira citação, será entre hoje e amanhã reconhecido em França, com a presença dos Presidentes Francês e Português, Emmanuel Macron e Marcelo Rebelo de Sousa, lembrando e honrando aqueles que “nos campos de honra derramaram a sua última gota de sangue em defesa da liberdade”.

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Imagem: Dois famalicenses no Corpo Expedicionário Português (De pé: no lado direito, Daniel da Costa Ferreira; Sentados: no meio, José Gomes Pereira). Espólio: José Ferreira.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Amadeu Gonçalves

Técnico-Superior do Município de V. N. de Famalicão é licenciado pela Faculdade de Filosofia de Braga / Universidade Católica Portuguesa e mestre pela Universidade do Minho, Braga, em Filosofia. Tem participado como conferencista em colóquios, seminários e encontros sobre Filosofia, Literatura e Cultura Portuguesa. É ainda membro do Conselho Consultivo do “Boletim Cultural” da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, onde tem colaborado. Tem ainda publicado sobre os mais diversos assuntos, sobretudo relativos ou relacionados à História local famalicense.

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