Assembleia Municipal | A visão do munícipe. Diário da primeira vez

Assembleia Municipal | A visão do munícipe. Diário da primeira vez

A Assembleia de um Município constitui um dos órgãos deliberativos a quem cabe aprovar, ou não, entre outras competências de iniciativa própria, as propostas do executivo camarário. Muitos defendem que é necessário reforçar a sua importância no teatro municipal enquanto órgão fiscalizador da própria Câmara.

Do ponto de vista do munícipe, é estimulante qualquer pessoa poder assistir à ordem de trabalhos e ver de perto em que circunstâncias as medidas são tomadas e as discussões que as antecedem.

Confesso-me pouco à vontade em relação aos poderes locais e às suas funções. Por muito gratificante que seja ao munícipe assistir a estas ordens de trabalho, nunca me tinha sentido motivada para sair do conforto do meu sofá, numa noite fria, para assistir a uma Assembleia Municipal. Um destes dias, liga-me uma amiga, entusiasta da política local, e tenta convencer-me a, pela primeira vez, ir assistir a uma delas. Resisti, e até me calei bem caladinha, até ao aproximar da hora do início, na esperança que ela se tivesse esquecido que me tinha convidado. Ainda pensei que a conseguisse demover desta investida e que comer um gelado seria melhor programa a ser partilhado por duas amigas. Enganei-me! À hora marcada lá estava ela, prontíssima, para me dar a conhecer as maravilhas do nosso Município.

Chegamos ligeiramente atrasadas. Mal olho em frente, de imediato, num púlpito, vejo alguém já a falar. Demorei algum tempo a perceber exatamente qual o assunto. Lá percebi que o que estava em causa era a extinção do posto dos CTT numa freguesia de Famalicão. Nos dias de hoje, este é um assunto que incomoda muito a população que se vê obrigada a deslocar-se, muitas vezes sem possibilidade motora ou logística de o fazer.

“Bem! Que cena profissional. Afinal até se aprende alguma coisa aqui”, pensei para com os meus botões cinco minutos após ter entrado.

Convém dizer que não conhecia nenhum dos presentes, e muito menos todos aqueles que se dirigiam à frente, ao púlpito, para tomar a palavra.

Escusado será dizer que não decifrei muito bem o argumento do primeiro interveniente que falava a ler naquela tribuna tão importante. Pelo menos, assim se sentia o orador (seja lá quem for o senhor – eu não o conhecia). De imediato, segue-se outro senhor com os seus papéis na mão. Estoutro falava muito baixinho e eu, lá atrás, não ouvia muito bem o que senhor ia lendo. Apercebi-me que começou com o mítico início “Quer-se dizer…”, pelo que logo teve a minha atenção. Fiz um esforço para compreender aquela voz que vinha lá do fundo, colada às folhas na sua mão. Expressões como “via-sacra política” e “trabalhadores a recibos verdes” foram proferidas naquilo que pareciam ser frases de provocação para iniciar debate.

A sala encontrava-se sempre com um burburinho de fundo. Tive a sensação que mais de metade da sala não sabia bem o que estava ali a fazer. A perceção com que fiquei é que, na verdade, nem sabem nem querem saber. O que, parecendo que não, como estava na posição de observadora, achei hilariante.

Nesse entretanto, havia dois senhores à minha frente que faziam parte da Assembleia e tinham direito ao voto – essa coisa importante -, e que falavam tanto – aquela conversinha de café -, e riam-se imenso. A dada altura, achei mais interessante ouvi-los do que àqueles outros que iam falar ao super importante púlpito. Eu vi, com estes olhinhos que a terra há-de comer, bocejos de sono naquela mesa principal. Não digo nomes porque pode parecer intriguista e isto em Famalicão nunca se sabe no que vai dar… Somos gente da luta, né?

Eis que se levanta um jovem multidisciplinar e dinâmico, passo acelerado, com cara de quem de preparava para fazer a intervenção do século. Antes dele, tinha lá estado alguém que estava a sentado a seu lado, por isso depreendi que seriam da mesma fação partidária. Mal chega ao púlpito, parecia um ser iluminado. Foi tão rápida a intervenção, carregada do nosso sotaque típico do norte, que com muita pena minha nem me deu tempo para perceber o argumento. O que me chamou à atenção foi o facto de, de repente, qual míssil a entrar na sala da Câmara, cheio de pompa e com a voz carregada de provocação, ouvir qualquer coisa como “E vocês pensem então na privatização da TAP”. Bolas, que Famalicão é importante!!! Foi neste preciso momento que me senti orgulhosa de viver numa cidade que é tão demasiadamente importante que assuntos como a privatização da TAP são chamados a discussão e pessoas como aquelas, que estão em burburinho à minha frente, vão ter um papel ativo neste assunto. Aquele jovem multidisciplinar e dinâmico, bastante diferente do que tinha ouvido falar naquele majestoso púlpito, afinal, traz assuntos à discussão de uma importância nacional e, quem sabe, internacional.

“Boa! Valeu a pena sair do sofá numa noite fria.”

Situada ao fundo da sala, estava atrás de todo. Ando um pouco constipada, de forma que, às tantas, os argumentos escaparam-me, mas eu fiz um esforço para ouvir tudinho. E sim, eu ouvi aquele jovem falar da privatização da TAP. Daí não ter percebido quando anunciaram que iaq falar a Presidente da Junta de uma freguesia.

“Chamem o Durão Barroso ou o Sócrates!” – pensei eu, revoltadíssima.

Vai daí, a Presidente da Junta veio falar da possível extinção do posto dos CTT na sua freguesia. Ainda era sobre este assunto que discutia. Foi então que cheguei a uma conclusão: o púlpito da Assembleia Municipal de Famalicão é mágico. Ali se podem colocar as mais variadas questões e iniciar os mais diversificados assuntos. Ora, percebi então, naturalmente, que a privatização da TAP e o fecho dos CTT são assuntos correlacionados em Famalicão, a minha cidade! De tal forma que, pelo facto do púlpito ser mágico, a intervenção fazer todo o sentido.

A Presidente da Junta, bem-falante, por sinal, acrescenta à ordem de trabalhos a questão do fecho das escolas. Ansiava pela inclusão das falhas do SIRESP ou a corrupção passiva de Sócrates ou mesmo a compra da Altice. O púlpito é mágico… Podia ser.

Neste entretanto, em defesa da Presidente e dos problemas que enfrenta, há alguém que usa o seu tempo de intervenção para dizer qualquer coisa como: “A Presidente enfrenta os problemas do dia-a-dia e faz um bom trabalho. A respeito das escolas, não me vou pronunciar porque não sei do que se passa”. PUMBA! Há que fazer gestão de espaço no nosso cérebro: ou vai que se pensa nas escolas ou vai que se pensa na privatização da TAP. Sejamos francos, a triagem é óbvia.

A importância que dão àquele púlpito mágico é semelhante à do anel no filme “Senhor dos Anéis.” Talvez pelos nervos de estarem num sítio tão mágico, muitas das pessoas atrapalham-se e o discurso fica mais ou menos sem sentido nenhum!

Haveria muito mais a dizer sobre a minha primeira experiência como espectadora da Assembleia Municipal de V. N. de Famalicão. Certamente que vou repetir a experiência e tentar perceber mais sobre o meu Município que, ao longo de tantos anos, desvalorizei. Até porque ainda decorriam as votações sobre as Ordens de trabalho e os senhores, que à minha frente falavam como se estivessem no café, distribuíam rebuçados daquelas promoções do Jumbo a 1,00 euro e eu tenho esperança de que um dia olhem para mim e me façam merecedora daquele rebuçadinho!

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Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Vânia Ferreira

Licenciada em Relações Internacionais com especialidade em género mas com uma paixão assumida pela geoestratégia. Profissionalmente, ligada ao comércio internacional de moda e marketing. Adora música, surrealismo e filosofia. Provocadora de nascença e vive a vida sem medo de brincar. Ambiciona um mundo em que todas as pessoas consigam galhofar com os seus próprios defeitos e com os dos outros sem que isso seja sinonimo de guerra.

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