Partidos políticos | O fim da Fórmula Partidária

Partidos políticos | O fim da Fórmula Partidária

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Nas últimas eleições (autárquicas) pudemos verificar novamente todo o circo existente à volta das campanhas dos candidatos e a tristeza das dinâmicas partidárias. No geral, as campanhas eleitorais foram fracas, ponto. Trouxeram-nos pouca informação, o que se veio a refletir no debate de ideias entre candidatos. E decorreram, em demasia, demonstrações populares de apoio ao candidato, com a distribuição de toda uma panóplia de material de campanha, desde bolas, chapéus, camisolas, canetas, a slogans quase idênticos (no caso de Braga), e com foco nas ditas “caravanas partidárias” que nada mais eram do que um folclore automobilístico sobre rodas, onde os apoiantes, na sua maioria integrantes da lista do candidato, andavam pelas estradas da cidade, vila, aldeia, etc, a buzinar constantemente e a acenar com bandeirinhas. Só não percebi o que é que isto tinha a ver com o interesse da população ou de que maneira indicava que um candidato era melhor do que o outro. Certamente não seria pelas suas ideias visto que com aquele buzinar constante dos carros mal se conseguia ouvir alguém… Seria então pela sua capacidade em juntar multidões eufóricas? Talvez, mas não vamos por aí porque também os líderes fascistas de antigamente se baseavam nisso…

Algo positivo que vi nas eleições foi, sim, o aumento das candidaturas independentes que afirmavam representar a sociedade como um todo, sem discriminação, ao contrário dos candidatos dos partidos. Embora muitas dessas candidaturas “independentes” tivessem o apoio de um ou outro partido (o que mais parecia uma tentativa disfarçada de fingir que não eram “candidatos partidários”), não deixa de ser importante, na medida em que denota uma maior percepção por parte dos candidatos de que uma grande parte da população já não se revê nas retóricas partidárias. Além disso, começa a inverter-se a cultura de votar em partidos para se votar em candidatos.

A crítica às instituições partidárias não é de agora, já Simone Weil em Nota sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos fala contra o “rolo compressor” dos aparelhos políticos pela subjugação de cada um dos seus membros a uma doutrina interna que restringe o pensamento individual. Mesmo na atualidade existem imensas evidências da ineficácia das estruturas partidárias em trabalhar para o bem dos seus cidadãos e o abusivo aproveitamento do poder pelos políticos. Podemos falar de quando, em 2017, partidos como o PSD e o CDS-PP tentaram durante meses que Mário Centeno, Ministro das Finanças, fosse demitido por causa das alegadas sms trocadas com António Domingues. Centeno acabou por ser ilibado das acusações que lhe fizeram e continuaria a desempenhar as suas funções, sendo inclusive eleito, em Dezembro desse mesmo ano, presidente do Eurogrupo, um dos mais poderosos grupos da economia mundial. Neste caso específico, os partidos pouco se interessaram pelo bom desempenho demonstrado por Centeno no cargo onde estava, ou do quanto isso afetaria a estabilidade governamental (e consequentemente o país), mas antes preferiram procurar enfraquecer o governo, num braço de ferro que pouco ou nada tinha a ver com o que era mais benéfico para os portugueses. Por outro lado, temos políticos como Carlos César, líder parlamentar do PS, que além dele próprio, tem a mulher, o filho, a nora e o irmão na administração pública, todos cargos de nomeação ou de eleição política. Sendo verdade que tal é permitido na nossa sociedade, não deixa de ser menos verdade que é uma situação, no mínimo, lamentável, embora não seja única no nosso país. Há até quem fale da existência de uma espécie de monarquia democrática, onde o poder político vai passando de pais para filhos e se perpetua o poder da família, num sistema onde as câmaras municipais servem de porta de entrada para os filhos de políticos. Posto isto, é necessário recordar que a representação política devia ser sempre levada a sério pela sociedade, não devendo ser apenas interpretada como uma vocação (em ser político), mas como um cargo onde quem ganha é a sociedade e não o candidato que, por sua vez, se deve desprender da ambição em querer viver da política como se fosse uma escada a subir para ficar melhor na vida e enriquecer sem fazer rigorosamente nada.

Nas autárquicas não me senti representado por nenhum dos candidatos das listas, mas como a política é inerente ao viver em sociedade, e sendo igualmente necessário alguém que nos represente politicamente, optei por votar em quem, para mim, tinha melhor capacidade para exercer um cargo de tão grande responsabilidade. Ainda assim, conto que chegue o dia em que se possa votar individualmente nos candidatos, escolhendo-os pela sua qualidade/mérito e se acabe com a votação em listas onde está o João que pertence a uma juventude partidária e que apenas se interessa em subir na carreira política, a Rita que é sobrinha do candidato e que foi convidada para fazer parte da lista, o Pedro que não tem qualquer mérito para lá estar, mas que por ser uma das maiores figuras do partido lá na terrinha tinha de estar na lista, a Marta que estava realmente interessada em fazer algo pela sua população, mas que ficou como suplente, o candidato Afonso Silva, político de carreira, que foi convidado pelo partido a ser figura da lista, não pelos seus ideias, mas pela sua capacidade em obter votos e que sendo eleito irá estar sempre atento aos interesses do partido, e assim continuamente… É claro que isso não significa que não existam pessoas competentes nas listas ou que se o indivíduo não tiver partido, ele não irá entrar em politiquices, mas aí será ele o responsável pelos seus atos e não terá a proteção partidária que tantas vezes salvaguarda pessoas sem mérito para lá estar e exercer esses mesmos cargos. Pelo menos teríamos a garantia de que o nosso voto estaria na pessoa em que votamos, e não no partido ao qual ela pertence, como se verifica atualmente.

Muitos poderão alegar que é impossível mudar o sistema como ele está, que é uma ideia absurda ou que será incrivelmente difícil. Meus amigos, possível sabe-se que é, absurdo será continuar como está e quanto a ser difícil… Bem, nunca na história da humanidade, a implementação de algo que fosse explicitamente contra a vontade das “elites” no poder foi facilmente introduzido na sociedade. Contudo, isso nunca impediu a ideia de ir avante!

Por fim, termino aplicando uma citação de Simone de Beauvoir à realidade das instituições partidárias: “À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade”. Obviamente haverá sempre exceções.

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Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Carlos Oliveira

Carlos Oliveira é Licenciado em Relações Internacionais, desde 2016. Frequenta atualmente o Mestrado em Direito dos Negócios Europeu e Transnacional, na Universidade do Minho. Identifica-se como um europeísta convicto e um analista das relações internacionais. Autor de Ditocracia, um livro distópico onde aborda temáticas como a religião, política, sociedade civil e guerra.

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