Ricon | O encerramento. Um olhar sociológico sobre a destruição de um capital acumulado e a reprodução social do (in)sucesso de um grupo empresarial

Ricon | O encerramento. Um olhar sociológico sobre a destruição de um capital acumulado e a reprodução social do (in)sucesso de um grupo empresarial

O território do vale do Ave é amplamente reconhecido pela excelência no setor têxtil e do vestuário. Este território configurou-se, social e politicamente, em torno de um rio, o rio Ave, que alimentava as múltiplas oficinas, manufaturas e indústrias que se distribuíam ao longo das suas margens, primeiro, e que se dispersaram na paisagem, depois, ao longo das vias de comunicação.

O setor têxtil e do vestuário, pioneiro no processo de industrialização neste território, desde meados do século XIX, cresceu, modernizou-se, reestruturou-se, reinventou-se, e fez da inovação e da criatividade o farol para a sua recomposição e (re)afirmação mais recente. Este setor contribuiu enormemente para o desenvolvimento do território, pelo emprego que gerou, o saber fazer que proporcionou, a obra social construída, a melhoria das condições de vida, a saída da mulher para o mercado de trabalho, o contributo líquido para o PIB nacional, sendo, ainda, de assinalar o papel fundamental desempenhado no processo de internacionalização do território.

Vila Nova de Famalicão, concelho com forte tradição no setor, foi escolhido desde cedo por muitos empresários e empreendedores, que aqui se instalaram e desenvolveram o seu negócio, tendo como horizonte, no início, a região, o país e as colónias portuguesas, rapidamente alargado à Europa e ao mundo, que se abriu paulatinamente, mas de forma mais franca com a globalização, que emergiu já nos anos 1990 e se tem consolidado. Vila Nova de Famalicão afirmou-se cada vez mais um território têxtil e da moda com a instalação do CITEVE – Centro Tecnológico, em 1989, com a atração de novas empresas do setor, de investimento nacional e estrangeiro, com o crescimento e desenvolvimento de empresas já instaladas e com o contributo das universidades e de outras instituições de enquadramento, como a ATP – Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal, o CeNTI, mais recentemente, bem como o forte envolvimento da Câmara Municipal através da implementação de políticas públicas de fomento da atividade industrial, de educação e formação, de construção de infraestruturas, de qualificação e promoção do território.

Nesta lógica de cooperação institucional, num território que acarinha o investimento, o setor cresceu e modernizou-se, abriu-se à inovação e ao mundo. Contrariamente aos prenúncios de morte que surgiram por todo o lado, nos finais do século passado e inícios do atual, que se materializaram inclusivamente em políticas públicas de reconversão industrial e de forte encorajamento à substituição da indústria pelos serviços, fruto da resiliência dos empresários, dos trabalhadores, das organizações de educação e investigação e das autarquias locais, o setor soube renascer e (re)conquistar competitividade e reconhecimento a nível internacional.

Este processo de crescimento e de transformação do setor, não foi simples nem linear, tendo conhecido, ao longo das últimas três décadas, avanços, recuos, conflitos com o poder político e os diversos governos, conflitos sociais, impasses, conquistas. A evolução da indústria têxtil marca o ritmo do desenvolvimento do território, caracterizado por processos de ambiguidade, ambivalência e contradição.

O contexto de forte sofrimento social vivido neste território do vale do Ave, particularmente em Vila Nova de Famalicão, em Guimarães, em Vizela, em Santo Tirso, mas também em concelhos vizinhos do Cávado, como Barcelos, marcou as gentes. Principalmente a partir de meados dos anos 1990, o setor libertou um número extraordinariamente elevado de pessoas, que, desprovidas de qualificação escolar, mas peritas na arte de bem fazer, tiveram o desemprego de longa duração como destino. Foram mais de 150.000 postos de trabalho que se perderam e vidas pessoais que se transformaram profundamente. A crise e as crises que aqui se viveram contribuíram para estruturar a sociedade e o território, tendo constituído importantes fatores de desqualificação, mas também de qualificação das pessoas e do espaço regional. O setor têxtil e do vestuário é percecionado pela sociedade na confluência de sentimentos contraditórios, e por olhares distintos conforme os protagonistas do momento e os resultados conjunturais que vão sendo divulgados.

No dealbar do ano de 2018, fragmentos desta história parecem repetir-se, aqui e acolá, colocando-nos, possivelmente, face a uma reprodução social de um fenómeno que conhecemos por dentro e que desejamos poder enfrentar agora com um manancial de instrumentos poderosos, capaz de evitar o sofrimento social de um tempo não muito distante.

O encerramento do Grupo Ricon que arrasta cerca de 800 pessoas para o desemprego, principalmente mulheres, incluindo famílias inteiras, pessoas que cresceram e dedicaram toda a sua vida à empresa, dinâmicas de lugar que se perdem numa freguesia industrializada, como é a Vila de Ribeirão, tem na sua origem, pelo que se conhece, uma forte dependência de um único cliente – a gigante marca internacional GANT. Esta dependência quase extrema de um único cliente, conjugada com a prática de trabalho a feitio, parecem configurar uma situação de dominação que outrora lançou muitas outras empresas deste território para a insolvência, e que agora se repete. Neste caso, as novas gerações de empresários e as novas práticas de gestão parecem não ter conseguido alterar o rumo traçado da história, numa empresa criada em 1973, com quase 45 anos portanto, e que revelou ao longo da sua existência visão, ambição, acumulação de capital humano e reconhecimento nacional e internacional bastantes que nos mantêm perplexos perante o cenário atual, num grupo empresarial outrora sólido e que se apresentava sob o lema sugestivo: DE FABRICANTES ESPECIALIZADOS A “ESPECIALISTAS DE MODA” (conforme o site http://www.ricon.pt/pages.php?page_id=8&site_lingua=pt, consultado em linha, em 1 de fevereiro de 2018), o que vislumbrava a perfeita adaptação em consonância com as novas exigências do mercado internacional.

O passado aqui não pode, pois, ser encarado como um simples repositório de factos históricos, mas deve antes ser convocado para nos fazer refletir sobre as alternativas de pensamento e de ação no presente.

Vivemos um tempo de grande incerteza a nível global.

A nível local, a baixa taxa de desemprego atual (6,5%, IEFP, dezembro de 2017), a dinâmica do setor têxtil e do vestuário no território, a existência de um cluster da moda, com epicentro em Vila Nova de Famalicão, a forte internacionalização das nossas empresas, o aumento do valor acrescentado dos produtos têxteis aqui produzidos, faz-nos acreditar que o desemprego destas cerca de 800 pessoas possa ser passageiro na maioria dos casos, não sem sofrimento pessoal, obviamente, e será, certamente, transformador de rotinas, de movimentos pendulares e de liames sociais, com reflexos na vida pessoal e da comunidade.

É um tempo também de intervenção das instituições locais, designadamente a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e o IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, que, por via de políticas públicas municipais e de políticas públicas nacionais, em articulação, e numa lógica de proximidade aos beneficiários e de potencialização da intervenção local, poderão minimizar os efeitos nefastos do desemprego e da desafiliação destes trabalhadores, por um lado, encontrando mecanismos de proteção social, medidas de qualificação escolar e profissional, medidas de reconversão profissional, respostas para a reinserção socioprofissional, e, por outro lado, fomentando, do lado da economia, neste caso em particular com maior ênfase a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, através das suas políticas de valorização económica e da inovação, de atração de novos investidores, de incentivos às empresas, de fomento do cluster têxtil, a viabilização futura deste importante espaço industrial de produção têxtil.

O encerramento de uma empresa é sempre uma notícia triste. O encerramento de uma empresa com 45 anos, sobrevivente a muitas outras crises cíclicas, e que sucumbe agora justamente numa conjuntura muito favorável ao setor têxtil e do vestuário nacional, levanta-nos a questão de procurar perceber o que terá falhado. O desemprego de cerca de 800 pessoas é uma notícia que nos deve preocupar a todos enquanto comunidade. São 800 pessoas, que com as suas respetivas famílias, poderão ascender a cerca de 2.500 pessoas, afetadas por este infortúnio.

É tempo de acudir ao drama individual de cada caso, apelando à solidariedade de todos e à proteção social instituída. Depois, virá o tempo de se promover a recomposição do tecido social e económico que este encerramento subitamente quebrou e de procurar, em diálogo institucional, com a participação de protagonistas políticos e da indústria, bem como de atores sociais, encontrar a mediação necessária para a revitalização económica desta que já foi uma grande empresa de referência no nosso território.

É com uma atuação concertada e localizada, no tempo e no espaço, e com uma consciência coletiva de cidadania participativa e de pertença à comunidade que combateremos as desigualdades sociais e que contrariaremos a tendência global para que o capital se concentre e a produção se fragmente.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Paula Peixoto Dourado

Paula Peixoto Dourado nasceu em 1971, em Vila Nova de Famalicão, onde reside. Doutorada em Sociologia, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e Pós-graduada em Conceção, Gestão e Avaliação de Projetos em Parceria, pela Universidade Católica Portuguesa, embora tenha iniciado o seu percurso académico em Relações Internacionais, em Braga, na Universidade do Minho. Autarca, é deputada municipal.

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