Os Magos e a Estrela

Os Magos e a Estrela

No primeiro domingo de cada ano, celebra-se a festividade da Epifania, na qual se recorda a visita dos magos ao menino Jesus.

A palavra Epifania significa aparição manifestação e vem do grego “epiphanéia.” No sentido religioso, a festividade da Epifania é a festa do reconhecimento da universalidade da salvação. Não há um povo, um grupo, uma pessoa a quem se destina com exclusividade a salvação oferecida por Deus em Jesus, o Cristo.

A visita dos magos a Jesus é descrita no Evangelho de Mateus. É um texto de caráter essencialmente teológico, o que não significa que não tenha uma base histórica, como veremos. Olhando para o povo da antiga Aliança, o evangelista quer falar do significado e do lugar do Messias na história da salvação. O Messias prometido pelos profetas do Antigo Testamento, enviado por Deus, realmente veio não somente para cumprir as promessas realizadas na antiga Aliança, mas para salvar a humanidade no seu todo. Jesus é o Messias da humanidade, o enviado por excelência de Deus, para transformar a História humana.

Existem fortes evidências de que os magos não são personagens criados por dois milénios de tradição cristã. A sua existência, além de estar bem testemunhada no Evangelho de Mateus, pode ser constatada por descobertas históricas.

Os Evangelhos marcam o nascimento de Jesus quando Otávio Cesar Augusto era imperador de Roma, quando Quirino era governador da província romana de Síria, e nos últimos anos do rei Herodes, o monarca vassalo dos romanos que governava Israel, que faleceu no mês de março do ano 4 AEC. Para a generalidade dos historiadores, Jesus nasceu entre os anos 7 e 4 antes da nossa era. O evangelista Mateus relaciona o evento com a aparição de uma estrela particularmente luminosa no céu do Médio Oriente.

Esta curiosa e extraordinária aparição está descrita numa tabuinha, na qual foram redigidos carateres cuneiformes (uma das antigas formas de registos escritos). Trata-se de um autêntico documento astronómico e astrológico (então as duas ciências eram irmãs gémeas) que revela a existência de uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes no ano 7 antes da nossa era.

Existem muitas hipóteses sobre a estrela que os magos viram e que os levou a viajar com o objetivo de prestar homenagem a este recém-nascido tão especial.

Em 1603, Johannes Kepler, astrónomo e matemático da corte do imperador Rodolfo II de Habsburgo, descobriu que tinha existido uma conjunção planetária de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, no ano 7 antes da nossa era, lembrando também que o famoso rabino e escritor Isaac Abravanel (1437-1508) havia falado de um influxo extraordinário atribuído pelos astrólogos judeus àquele fenómeno.

Faltava uma demonstração clara. Chegou em 1925, quando o erudito alemão Padre Schnabel decifrou anotações neobabilónicas de escritura cuneiforme gravadas numa tábua encontrada entre as ruínas de um antigo templo, na escola de astrologia de Sippar, antiga cidade localizada na confluência dos rios Tigre e Eufrates, a uns cem quilómetros ao norte da Babilónia. A tabuinha encontra-se agora no Museu estadual de Berlim.

Entre os vários dados de observação astronómica sobre os dois planetas, P. Schnabel encontra na tábua um dado surpreendente: a conjunção entre Júpiter e Saturno, na constelação de Peixes, ocorreu no ano 7 antes da nossa era. Além disso, segundo os cálculos matemáticos, esta tripla conjunção pôde ser vista com grande clareza na época.

Na astrologia antiga, Júpiter era considerado como a estrela do Príncipe do mundo e a constelação de Peixes como o sinal do final dos tempos. O planeta Saturno era considerado no Oriente a estrela da Palestina. Quando Júpiter se encontrou com Saturno na constelação de Peixes, significou que o Messias tinha nascido em Israel.

Há quem considere que os magos pertenciam à casta de sacerdotes persas e babilónios que se dedicavam ao estudo da astronomia e da astrologia. Apesar de não serem judeus, provavelmente eram seguidores da religião de Zoroastro e tinham conhecimento das profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias, dado que existiam importantes comunidades judias na Mesopotâmia e na Pérsia.

Há quem tenha formulado a hipótese dos magos serem monges budistas, estabelecendo uma conexão entre Jesus e o budismo. Na época de Jesus, existiam estreitas ligações económicas, culturais e inclusive político-diplomáticas entre o Império Romano e a Índia, o berço do budismo. Além disso, existiam comunidades judaicas na Índia e mestres budistas em Alexandria, no Egito, cidade onde existia uma grande população judaica.

Para finalizar, a visita dos magos mostra a universalidade da missão e da mensagem de Jesus, o Cristo, que visa a salvação para todos os seres humanos. Além disso, é uma salvação integral, que diz respeito à pessoa humana na sua plenitude, em todas as suas dimensões: pessoal e social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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