Saúde | VIH e SIDA – Pelo fim do estigma

Saúde | VIH e SIDA – Pelo fim do estigma

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Inês Grenha, especialista em Medicina Interna recém-formada e atualmente a fazer o seu Internato no Centro Hospitalar de  Entre o Douro e Vouga, assinala com este seu primeiro artigo o Dia Mundial da Luta contra a Sida. Aproveita, assim, para referir que não pode haver rótulos nesta doença, nem espaço para a estigmatização.

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O VIH é um retrovírus descoberto apenas nos anos 80. (…) Os indivíduos infetados podem cursar numa baixa de defesas severa e, consequentemente, desenvolverem tumores e infeções secundárias importantes – (…) (a que) se dá o nome de (…) SIDA. A infeção pelo VIH é, gradativamente, menos indicadora de comportamentos disruptivos, para além de ser cada vez mais uma condição não fatal, de caráter crónico, sem evolução para doença.

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Portugal tem pouco mais de 10 milhões de habitantes e cerca de 45000 destas pessoas estão infetadas pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH). Ainda assim, falar dele é, preferencialmente, em surdina e frisando que nos referimos “aos outros”.

O dia 1 de dezembro está definido como o Dia Mundial da Luta contra a SIDA mas tanto quanto lutar contra esta doença, parece-me, a mim, imperativo lutar também contra o preconceito e o estigma que ela acarreta. Para tal, nada melhor do que começar por conhecê-la.

O VIH é um retrovírus descoberto apenas nos anos 80, algum tempo depois de já ter vitimado vários doentes. Foi reconhecido pela sua capacidade de se ligar e destruir células do sistema imunitário, nomeadamente linfócitos T CD4+. Assim, os indivíduos infetados podem cursar numa baixa de defesas severa e, consequentemente, desenvolverem tumores e infeções secundárias importantes – a este quadro dá-se o nome de Síndrome da ImunoDeficiência Adquirida (SIDA). Entende-se, por isso, que infeção pelo VIH e SIDA sejam condições diferentes. Um indivíduo pode estar infetado pelo vírus mas, com a medicação adequada, não ficar com o sistema imunitário deficitário e não chegar a progredir para a doença em si que é a SIDA. Não se pode considerar à partida que uma pessoa com VIH está doente; ela tem uma infeção vírica agressiva mas com potencial tratamento e estabilização.

Outro dos dados importantes a saber sobre o VIH prende-se com a sua forma de transmissão: sangue e outros fluidos corporais. A utilização de drogas injetáveis com recurso a agulhas usadas e as relações sexuais desprotegidas são os comportamentos majores de risco de transmissão. Ainda assim não se pode excluir a transmissão vertical (mãe-filho) ou o risco dos profissionais de saúde que têm acidentes de trabalho com agulhas, entre outros.

Sabendo o que é a infeção/doença e como ela se transmite, importa saber que há já inúmeros tratamentos, cada vez mais direcionados e eficazes, para que se evite a infeção após exposição ou se previnam estadios avançados da doença. A terapêutica antirretrovírica combinada consiste em medicação oral diária (comprimidos) e atua de forma a impedir a ação do vírus sobre os linfócitos e a manter baixos os níveis do VIH no organismo, com minoração dos danos causados por este.

Estando nós na posse de toda esta informação, acessível por vários canais abertos à comunidade, parece-me pouco razoável o nível estigmatizante ainda associado ao VIH. Segundo um dicionário de língua portuguesa, estigma é definido como marca ou cicatriz perdurável. Assim, de cada vez que um infetado pelo VIH sofre de algum comportamento exclusivo, estamos a incutir-lhe um sentimento de rejeição que se repercutirá no tempo.

É perentório perceber que um infetado pelo VIH não é necessariamente alguém que usa drogas ou é homossexual; aliás, mais de 50% das infeções ocorrem em relações heterossexuais. Outra situação é a de um profissional que pode contrair VIH no exercício da sua função e nada ter a ver com comportamentos de risco.

Já não é tempo de se julgar saber quem tem ou não VIH e já não é tempo de se ficar surpreso com o diagnóstico de algum vizinho ou colega de trabalho. Não se vê alguém na rua e se diagnostica o VIH. No início de toda esta descoberta era mais certeiro o apontar o dedo; o vírus e os tratamentos em si levavam a uma lipodistrofia (redistribuição da gordura corporal) marcada. Os indivíduos com VIH tinham um fácies característico, com uma magreza extrema do rosto e dos membros, e uma acumulação de gordura preferencialmente a nível abdominal. Agora, a lipodistrofia é cada vez mais um relato teórico associado ao vírus e à SIDA e cada vez menos uma realidade.

A infeção pelo VIH é, gradativamente, menos indicadora de comportamentos disruptivos, para além de ser cada vez mais uma condição não fatal, de caráter crónico, sem evolução para doença.

O Dia Mundial da Luta contra a SIDA deve ser sempre celebrado para alertar sobre o que ainda há a fazer na prevenção e no tratamento da infeção pelo VIH mas pode ser usado também para nos lembrar que não pode haver rótulos nesta doença, que já não há espaço para a estigmatização sob a desculpa da ignorância ou do medo.

David Kirby, ativista dos direitos dos portadores de HIV/SIDA, acompanhado pela família no seu leito de morte (Therese Frare – Oliviero Toscani / United Colors of Benetton, em Aids Education Posters; fotografia):

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Imagem de destaque: HIV Positive – uma das fotografias de uma das mais polémicas campanhas da Benetton alertando para a problemática. Os modelos eram todos eles representados com a tatuagem HIV Positive, por vezes em partes muito íntimas do corpo (Oliviero Toscani / United Colors of Benetton, no Observador; fotografia).

 

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Categorias: Ciência

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Inês Grenha

Inês Grenha formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 2016. No corrente ano de 2018 é Interna de Formação Específica de Medicina Interna na Unidade Local de Saúde do Alto Minho.

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