Anabela Ramos

Sabores | Quentes e boas

Sabores | Quentes e boas

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Chega o Outono e com ele chega também o fruto rei da época: a castanha. Fazem-se os tradicionais magustos, comem-se castanhas cozidas e assadas durante uns tempos e, pelos fins de Novembro, torna-se um fruto praticamente esquecido. Os vendedores de castanhas assadas ainda tentam resistir ao longo do Inverno mas sem grande sucesso. As regiões produtoras tentam também, através dos seus restaurantes, aliciar os turistas com novos pratos onde a castanha é a rainha, mas a moda ainda não pegou.  A castanha torna-se, assim, num fruto sazonal sem grande importância alimentar. Salva-se apenas a tentativa, que se tem afirmado nos últimos anos, da comercialização de castanhas congeladas.

Mas nem sempre foi assim. Ao longo da história, a castanha foi importantíssima na alimentação dos portugueses e os castanheiros abundavam por todo o país. No entanto, não fazia parte da ementa quotidiana das elites por ser considerada indigesta e flatulenta. Assim o afirma, em 1731, Francisco da Fonseca Henriques, médico real, natural de Mirandela, considerando, no entanto, que nutria “copiosissimamente”. Realidade que hoje os nutricionistas confirmam e aplaudem. Era pois uma alimento para o consumo dos mais pobres  e eram também eles, segundo um dicionarista dos inícios do séc. XVIII, que faziam os magustos, ou seja, grandes fogueiras onde, depois de “apagadas as labaredas, se lançam quantidades de castanhas nas brasas sem abri-las e depois de as tirar as comem”.

Por esta razão não encontramos qualquer receita sobre este fruto nos livros de cozinha publicados ao longo dos séculos XVII a XIX, pois eram livros que traduziam a alimentação dos mais ricos e, em especial, da família real. Apenas num receituário anónimo do século XVII,  “Arte de cozinha ou método de fazer guizados”, se anotam as várias formas de assar castanhas: no borralho, no forno e com vários tipos de lenha. Anota-se, ainda, uma receita de caldo de castanhas que levava cebola, salsa, azeite, erva-doce, açafrão e, naturalmente, castanha seca ou pilada, muito abundante nos séculos passados, antes da divulgação da batata.

Para se secarem as castanhas bastava colocá-las na pilheira (pedra por cima da lareira) e aí iam secando ao longo do Inverno. Quando já estavam muito duras guardavam-se em sacos e consumiam-se em caldo ou em falachas, uma espécie de pão feito com castanha moída e sem fermento.  Este caldo era um alimento quotidiano, consumido até à Páscoa, e as falachas substituíam a falta de cereal, que começava a escassear e a aumentar de preço nos inícios do ano. A castanha tornava-se, deste modo, numa espécie de cereal, aporte alimentar importante ao longo do Outono e do Inverno.

E de tal forma  era importante na alimentação  que se dotavam castanheiros às noivas que iam casar, um sustento importante para começar a nova vida. Mas os tempos mudaram e os castanheiros foram desaparecendo da paisagem e da castanha pilada já ninguém tem memória. A batata, ao longo do século XIX, foi ganhando terreno no prato dos portugueses, o que em termos nutricionais representou um retrocesso porque a castanha é mais nutritiva.

Hoje é alimento gourmet para se adicionar aos rojões ou à carne assada. Tempos houve em que era o pão dos pobres!

 

Imagem: Município de Esposende

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Categories: Crónica, Cultura

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