Domingos Manso

Ler | ‘Apressa-te lentamente.’

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O cérebro é uma máquina lenta que criou máquinas velozes. Tudo isto seria pacífico, se não tivéssemos também o desejo de imitar essas máquinas velozes. A rapidez das relações e das decisões prevalecem sobre o pensar. Acreditamos nos milagres das máquinas, nos prodigiosos instrumentos eletrónicos, nos algoritmos, na indústria da imagem. A eles nos entregamos e, por isso, valorizamos o pensamento rápido ou digital. Emergem sonhos de domínio sobre a natureza e o próprio homem. Mas nenhuma máquina pensa como nós. Sairemos sempre derrotados, se competirmos com a biologia. Nenhuma máquina, por mais complexa que seja, se aproxima da complexidade da vida. Acreditar nas máquinas, na rapidez, na imagem, no imediato, no digital, acabará por nos aniquilar. Já hoje sentimos um certo cansaço, angústia e frustração, porque vivemos ao ritmo das máquinas velozes.

Depressa o ócio se tornou um negócio. Aquilo que era suposto ser um merecido descanso é preenchido por visitas rápidas, voos velozes, caminhadas incansáveis, praias ruidosas e comidas rápidas. Toda esta forma de mercantilizar e monitorizar tudo tem uma implicação direta no ritmo e qualidade de vida. O ritmo acelerado, as horas contadas e o tempo medido ao segundo deixam pouco espaço à saúde e ao prazer, aumentando as doenças sociais como a obesidade, a diabetes, a hipertensão, hipercolesterolemia e demência senil. Eis a fatura que pagamos por confundirmos ócio com negócio, felicidade com aquisições, liberdade com movimento. De sermos lentos e complexos, passamos a ser rápidos e estúpidos. Já não conseguimos pensar sem máquina, sem telemóvel, sem internet e sem redes sociais. Pensamos o que estas pensam e gastamos a nossa energia a discutir coisas sem interesse e sem sentido. Razão tinha Einstein, quando disse o que disse: «Há duas coisas infinitas, o universo e a estupidez, e não tenho a certeza do primeiro.»

Temos de abrandar o ritmo, encontrar o ponto de equilíbrio entre aquilo que queremos e aquilo que somos capazes de fazer. E aquilo que se quer pode ser tão simples. Se atravessarmos uma noite gelada, exauridos e famintos, a acolhedora porta e a sopa fumegante são a plena felicidade. Já aquilo que somos capazes de fazer encontra-se na velha filosofia grega: ter uma vida boa é desenvolver o seu potencial e viver de acordo com ele. Esta divisa aristotélica foi pensamento em ação na vida de um norueguês. Editor, montanhista, aventureiro e pai de três filhos, após vida confortável de escritório e perdas da bolsa, encontrou nos gélidos glaciares e nas subidas vertiginosas ao ponto mais alto os sentidos possíveis dos vários sentidos que a vida tem. Aí entendeu que a dor é temporária e que desistir é para sempre; que não existe um só sentido e que a vida é feita de muitos sentidos; que, muitas vezes, a razão de ser social é querer fugir de si próprio; que, quando nos sentimos muito seguros de nós mesmos, nos tornamos arrogantes e insuficientemente autocríticos; que a sorte que é fruto do acaso é lotaria e a sorte sistemática tem a ver com o modo como nos comportamos, sentimos e pensamos; que nem sempre temos de ser grandiosos e que podemos estar felizes e aconchegados; que a liberdade implica disciplina, atenção, consciência e generosidade e não correr egoisticamente em busca de coisinhas pouco excitantes; e que quem tem uma razão para viver pode suportar quase tudo. Quem assim pensa e assim vive compreende a importância do pensamento lento, do respeito pela natureza e da generosidade no compromisso. «A vida boa consiste em utilizar os nossos sentidos, procurar o conhecimento, viver em camaradagem e estar comprometido nesse esforço.»[1]

Imitar as máquinas velozes expôs as nossas fragilidades, insuficiências e angústias. Vivemos apavorados e atrapalhados com um vírus que seria mais facilmente atacado, se respeitássemos as regras e discutíssemos menos. Deixámo-nos afetar pelo medo comunicacional, porque já não somos capazes de pensar lentamente, porque nos tornámos estúpidos, porque virámos costas à natureza e não sabemos ler as mensagens que lá estão. «Vejo um falcão a voltear lentamente e com elegância no céu, parece explorar o solo com a sua visão agudíssima, e plana, com infinita paciência; depois, repentinamente, lança-se em direção à terra a grande velocidade… volta a subir lentamente. Pensou, repensou, analisou e depois, com rapidez, deu seguimento à decisão tomada com sabedoria eficiente, como se festina lente fosse a sua estratégia de pensamento.»[2]

 

[1] Kagge, Erling, Filosofia para exploradores polares, Quetzal Editores, 2020, p. 82.

[2] Maffei, Lamberto, Elogio da lentidão, Edições 70, 2018, pp. 20-21.

 

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Categories: Crónica, Cultura

About Author

Domingos Manso

Domingos Manso de Araújo, nasceu há 54 anos, em Braga. É professor do quadro da Escola Secundária D. Sancho I, V. N. Famalicão desde 1989. Licenciou-se na Faculdade de Filosofia de Braga e fez mestrado em Filosofia da Educação na Universidade do Minho. Escreve na Revista Sancho Notícias e é colaborador permanente no jornal Ecos da Gravia, Valadares, São Pedro do Sul.

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