Comédia dramática conversa connosco sobre o ato de dizer adeus àqueles a quem amamos

Cineclube | ‘A Despedida’ de Lulu Wang, um drama familiar sino-americano de sabor agridoce

Cineclube | ‘A Despedida’ de Lulu Wang, um drama familiar sino-americano de sabor agridoce

Pub

 

 

A Despedida‘ (“The Farewell, 2019) é um filme algo diferente (no panorama do cinema americano) pelos riscos que corre: falado maioritariamente em mandarim, sobre um tema sombrio e sobre uma cultura específica, bastante discreto e sem grandes fogos-de-artifício, baseia-se acima de tudo na sua capacidade de criar empatia com as personagens numa situação peculiar. Uma frase, antes de começar o filme, prepara o caminho: “based on an actual lie”, salienta João Araújo, no À pala de Walsh.

Ficamos por isso de pré-aviso em relação ao que vamos ver. “A tendência americana de compartilhar livremente pensamentos e sentimentos colide com a maneira chinesa de agrupar emoções. As duas identidades coexistem em Billi, até ao momento em que descobre que a sua avó Nai Nai foi diagnosticada com cancro terminal e que a sua família decidiu não lhe dar a conhecer a situação. “O povo chinês tem um ditado: quando as pessoas sofrem de cancro, elas morrem”, diz a mãe de Bili (Diana Lin). “Mas não é o cancro que as mata, é o medo””, refere Wendy Ide, no The Guardian, dando a conhecer o ponto de partida para esta muito agradável narrativa de paladar entre o ácido e o adocicado.

“A [jovem] chinesa Bili cresceu com os pais nos EUA. Quando a família descobre que Nai Nai (…) é diagnosticada com uma doença terminal e que lhe resta pouco tempo de vida resolve fazer-lhe uma visita. Uma vez que a velha senhora nada sabe sobre a sua condição, filhos e netos organizam o evento perfeito para uma reunião familiar: um casamento. Contudo, com o sabor amargo da despedida, a jovem Bili tem dificuldades em lidar com a resolução dos adultos de guardar um segredo tão importante da sua adorada Nai Nai”. Então, “a Billi pedem-lhe que aprenda a esconder as emoções, a acomodar a sua tristeza tal como os seus parentes próximos fazem, e fica claro o confronto geracional e cultural que o filme pretende abordar – ao mesmo tempo, ancorando-se emocionalmente na forte relação entre avó e neta, complicando a resolução – é o velho e o novo, o oriente e o ocidente em conflito, mas também em harmonia”, detalha João Araújo. Mas este é também um filme que nos remete para espaços e momentos de insegurança, “sobre sentir-se entre dois lugares, entre dois momentos de indefinição e (re)descoberta pessoal”.

“Da mesma maneira que os filhos são fruto da educação que lhes é dada desde o início, dos erros e dos acertos dos pais, também eles são um resultado das crenças defendidas pela cultura que é escolhida para o seu futuro, que molda inevitavelmente as suas recordações e angústias mais profundas. Independentemente de quando se der a despedida, por mais assustadora que possa parecer ou por maiores que sejam as incertezas e arrependimentos que dela provierem, o que mais deveria importar é fortalecer a lembrança de cada riso, choro, refeição e silêncio que se partilhou ao longo de anos, de décadas. Pois, existirá melhor veículo que a memória para voltar atrás e enterrar os cabelos nos braços de quem se sente saudade?”, interroga-se Francisco Quintas, em Kubrickamente.

Talvez a resposta à questão levantada se encontre nas declarações que a realizadora prestou, em tom delicado, a Rui Pedro Tendinha, publicadas no DN, : “É mesmo uma comédia, mas é essencialmente um objeto sobre o ato de dizer adeus. Cada vez que vou à China tenho de estar preparada para me despedir da minha avó. Sim, apesar de tudo ainda está viva! E o filme faz essa pergunta filosófica: Às vezes mentir não faz mal? Ainda agora não consigo responder. A verdade é que a minha avó vive muito mais do que aquilo que pensávamos. Como americana, acredito sempre que a verdade é o caminho, mas depois olho para o exemplo da minha avó – caramba, ainda está viva e não sei realmente se a mentira não terá ajudado… Sou apenas humana, não tenho as respostas. Quero deixar o público em conflito moral. Muitos ocidentais vão pensar que esta mentira em torno da minha avó é erradíssima.”

‘A Despedida’ foi exibido, em televisão, no canal TVCine Top, anteontem e hoje, pelo que pode ser recuperado no espaço desta semana, e voltará a sê-lo em 2 de novembro, pelas 19h45. O filme, realizado por Lulu Wang estreou no Festival de Cinema (alternativo) de Sundance. Trata-se de uma comédia dramática vagamente autobiográfica que tem obtido enorme sucesso entre o público. No elenco, encontramos Awkwafina, Tzi Ma, Diana Lin, Zhao Shuzhen, Lu Hong e Jiang Yongbo.

‘A Despedida’ de Lulu Wang – trailer

Prémios e Festivais:

Festival de Sundance 2019 – Prémio do Público

Globo de Ouro – Melhor Atriz Principal em Comédia ou Musical

The New Yorker ★★★★★, Now Magazine ★★★★★, Daily Mirror ★★★★★, The Times ★★★★★, Vox ★★★★★, Rolling Stone ★★★★, Cinema Blend ★★★★, Time Out ★★★★, The Guardian ★★★★

Notas da Crítica:

«Comove e diverte» – The Times

«Perfeito» – The Herald Tribune

«Autêntico e belíssimo» – Daily Mirror

«Um dos melhores filmes do ano» – The Independent

«Poignant and funny» – The New York Times

«Outstanding» – Vox

«A true crowd-pleaser» – Vanity Fair

«A Knock out of emotional resonance» – The Playlist

«One hell of an introduction for Awkwafina» – The Guardian

«A movie that reminds us of the awesome power of film» – Cinema Blend

«One of the most genuinely moving films I’ve ever seen at the Sundance Film Festival» – Rolling Stone

 

Fontes: À pala de Walsh, DN, Kubrickamente, Público, Cineclube da Maia, Octopus Cineclube, The Guardian

**

*

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver.

A Vila Nova é cidadania e serviço público.

Diário digital generalista de âmbito regional, a Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será.

No entanto, a Vila Nova tem custos, entre os quais se podem referir, de forma não exclusiva, a manutenção e renovação de equipamento, despesas de representação, transportes e telecomunicações, alojamento de páginas na rede, taxas específicas da atividade.

Para lá disso, a Vila Nova pretende pretende produzir e distribuir cada vez mais e melhor informação, com independência e com a diversidade de opiniões própria de uma sociedade aberta.

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de donativo através de netbanking ou multibanco. Se é uma empresa ou instituição, o seu contributo pode também ter a forma de publicidade.

NiB: 0065 0922 00017890002 91

IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91

BIC/SWIFT: BESZ PT PL

*

Pub

Categories: Agenda, Cultura

About Author

Write a Comment

Only registered users can comment.