Vivo num mundo estranho, as notícias chegam como aves agoirentas. Dói-me um bocadinho os dentes, mas que é isso à beira da fome, do frio e do abandono?
Ainda não fizemos o presépio. Gosto tanto desta história, uma das mais belas do mundo. O deserto, a estrela, a cabana, o calor dos animais, a visita dos pastores e os reis do mundo trazendo os tesouros à redenção, a criança e a salvação.
Inocência, alguns séculos para existir ou sobreviver.
Choro um pouco, sei que não posso acudir a toda a desgraça, mas choro ainda mais pelos inocentes e por aquele homem velho, tão doce e perdido. Ó, meu senhor, meu rei das areias, que importância têm as horas, o destino. Deixa-me ir contigo, atravessamos o Sena e depois ficamos a olhar a planície, a verde planície do silêncio. A Leste ficaram as memórias da guerra, as trincheiras, mas nós vamos andar por aí.
Não estamos sós. Levo comigo a tristeza de Stefan Zweig, os maravilhosos milagres de Joseph Roth, as hirsutas barbas de Dostoievski, levo ventos difíceis e doces conventuais e em certa hora, no alto do inverno, do luar incandescente, há-de ficar um verso, um lenho a arder, a reunião, a garrafa em volta, vodka, talvez ou bagaço nascido num presépio a ocidente.
Obs: texto previamente publicado na página facebook de José Miguel Braga, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

