Escrita terna e afetiva de José Miguel Braga homenageia Maria Ondina Braga

Escrita terna e afetiva de José Miguel Braga homenageia Maria Ondina Braga

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“Bons Desejos”, assim chamou o meu querido amigo José Miguel Braga à sua nova aparição literária, sucessora do acolhidíssimo “Adelita”, publicado pela mesma editora, a Húmus, e na mesma colecção, 12catorzebold. Quando, no início do mês, o Zé Miguel me privilegiou com a oferta de um exemplar, assinalou no autógrafo que o novo livrinho alberga quatro “declarações amorosas”, peças autónomas oferecidas como prendas de aniversário: à Alexandra, sua esposa (“Canto”), à Ana Luísa, sua filha (“Tenho 15 anos”) e ao Luís, seu afilhado (“O Primeiro Poema”), escritos no biénio 2008/2009. Já “A Promessa” é um fruto mais recente, escrito para o 90º aniversário da mãe, D. Maria Angelina, em Abril do ano findo.

E isto deixa já antecipar uma nota marcante que atravessa este “Bons Desejos”: uma escrita marcada pela ternura e afectividade, uma declaração de amor aos seus. Cada um dos textos tem a sua autonomia, mas sim, esses sentimentos atravessam-nos, donde quiçá a doce coloração azul cerúleo da capa. Lidos os textos e a respectiva introdução, achei por bem arriscar estas breves notas, que não são de todo apreciações literárias, nem o teor dos textos me empurra para aí.

Exceptuando o texto dedicado à mãe, os restantes textos foram escritos após um prolongado internamento hospitalar do autor. Conta o Zé Miguel que, saindo do hospital, “sob o auspício de uma luz ou de uma porta que se abria”, se atirou de tal modo à pena e ao papel, “em modos de um ritmo e de uma respiração totalmente desconhecidos”, que suspeitou que ia ter “uma ataque literário”. De facto, os três textos desse período reflectem um estado de espírito mais feliz, numa escrita plena de frescura, leveza e musicalidade.

Mais lírico e introspectivo, “O Primeiro Poema” evoca a iniciação literária do autor e dele se retira este belo naco bem escolhido para figurar na contracapa: “Quando acabou a noite, fixei longamente uma flor esquecida num solitário. A água era um pequeno aquário e a flor pendia com a sua corola absorta. Algumas pétalas espalhavam-se sobre a mesa das fotografias. Sentei-me a ver pensamentos quando olhava os mortos. As flores caídas em volta. A imagem não respirava o presságio nem eu sentia emoção ou vislumbrava fulgurações. Era uma paz em casa, apenas aquele instante.”

Mais extrovertidos, humorados e amorosos, “Tenho 15 anos” e “Canto”, estão repletos daquelas variações da “espuma dos dias”, mas também das coisas maiores (como o dia do casamento do Zé Miguel), que enchem uma memória e fazem significar uma vida. No preâmbulo ao texto dirigido à filha, escreve o autor: “Quando tu nasceste, eu fui a correr e logo me pareceu ver um anjo. Aqui estou, disse ele, e chorou. Se quiseres acreditar, estamos à porta do céu e sorriu. Foi no dezoito de Março, na cidade do Porto”. Depois, é a identidade de uma jovem no fulgor dos seus 15 anos e do triplo olhar sobre ela (o do pai, o da mãe, e o próprio), os seus gostos, interesses e opiniões. E lá mais para o fim, pondo-se na voz da Ana Luísa: “A vida hoje é um algoritmo sem necessidade de um fado que lhe cante o raio que o parta. Hei lá, quem é que disse? Eu não fui, não sou malcriada e só posso dizer bem da minha vida”.

“Canto” é um hino de amor à Alexandra e às venturas e aventuras do casal, entre as quais a vida em Paris. E ao terminar: “Continuemos assim, a páginas tantas, entre coisas que se podem abraçar e líricos andamentos que nos fazem arejar os pensamentos. Não acredito que este dia seja mais do que isto, um beijo, um desejo, ai se tu gostasses de queijo, mas por ti, meu raminho almejado que me assalta a potência do carinho, meu princípio inventado na velocidade da luz sentada à beira do caminho, à mesa, no copo de vinho, no mistério do mais simples casal”.

Já “A Promessa” é uma narrativa mais sombria, muito bem contada e com um certo sabor camiliano. Remete para uma história real das memórias da mãe do autor, a que se acrescem condimentos ficcionais. São simples ocorrências numa caminhada devota, numa noite escura e gelada no centro de Braga. Mas o ambiente que a envolve e assombra tem a ver com essa “atmosfera de chumbo” que se respirava no país salazarista do início da década de 50 do século passado. Ora, isso, e também o modo muito cinematográfico de contar – onde não falta o suspense – acaba por cobrir a história de mistério e estranheza. O mais que possa dizer… não digo… É ler.

O título do livro, “Bons desejos”, homenageia Ondina Braga, que o Zé Miguel bem conheceu, recordando que essa era a expressão que muitas vezes a escritora usava para se despedir das pessoas. O Zé Miguel dedica este seu novo livro ao seu primo Manuel de Carvalho, “inventor de livros” (olá, Manel – digo eu agora – um dia destes temos que beber o copo combinado, aí no Porto), o qual se encarregou da produção artesanal dos livrinhos-prendas que o autor havia oferecido nos referidos aniversários. E também com a colaboração do nosso saudoso e querido Alberto Peixoto. Quanto a ti, Zé Miguel, bom êxito para este teu novo rebento literário e longa vida para a tua escrita.

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Categorias: Cultura, Literatura, Livros

Acerca do Autor

Amadeu Santos

Caro Pedro Costa, veja se isto serve (e corte o que achar dispensável): Amadeu Santos Nasceu em Guimarães, em 1953. Licenciou-se em Artes Plásticas/Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Professor aposentado do ensino secundário. Leccionou Cultura Contemporânea na Escola Superior Artística do Porto/extensão de Guimarães. Como artista, trabalhou para diferentes galerias e expôs individual e colectivamente no país e no estrangeiro. Fez diversas palestras e orientou diversos cursos livres nas áreas da cultura artística. Trabalhou em jornalismo em Lisboa. Foi director da revista Defacto.

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