“No fim do mundo um zé-ninguém toca piano” – algumas leituras

“No fim do mundo um zé-ninguém toca piano” – algumas leituras

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Uma breve nota de abertura, a servir de contexto. A lista que se segue, estando aqui disponível na VILA NOVA, surge a convite do editor, Pedro Costa, que a apanhou no seu primeiro formato na minha página do Facebook, propondo-me a sua divulgação nesta revista. O que vale o mesmo que dizer: apanhou uma lista de leituras que fiz ao longo deste ano, temperada com a leveza frívola de uma lista exposta numa rede social, mais o desmazelo infrene na escolha vocabular e o puro prazer de uma partilha em torno daquilo que se faz com o tempo, seja em contexto de trabalho, seja no que dispensa qualquer contexto, e por isso mesmo sabe melhor. Não é, de modo algum, um balanço dos dez ou dos cem melhores livros de 2022 – facilmente se constata, por um lado, que a publicação da maioria destes títulos recua no tempo alguns largos anos (e acerca da praxe associada a este tipo de listas nos suplementos culturais na véspera de fim de ano, limito-me a sugerir a leitura atenta do último artigo de António Guerreiro no ípsilon/Público, intitulado “Guerra e Paz no campo literário”); por outro, ficará perceptível que não morri de amores por tudo aquilo que li, mesmo que não me tenha dado ao trabalho de explicar porquê. De resto, nem arrumei os livros pela cartilha dos géneros, nem distribuí esmolas com feições estelíferas.

Há aqui, por assim dizer, uma espécie de testemunho involuntário de que é também com o impensado que pensamos muitas coisas – e nada como andar com a net no bolso e ceder à compulsão da ubiquidade digital para proporcionar ao que é impensado esse instante de morte súbita, e que é, no fundo, o tempo de uma vida na sofreguidão das redes sociais. Ou o tempo de um disparate. Ou o tempo desta deriva, tão simples e fortuita quanto implacável e obsidiante: “A pouca importância das ideias de onde se parte. A muita importância, já a caminho, de bater involuntariamente a cabeça contra a parede.” (Sergio Solmi, Meditações sobre o escorpião, tradução de Ana Cláudia Santos, ed. Barco Bêbado, 2022, p. 95).

Eis, portanto, nada mais e nada menos do que uma lista, do que o dispêndio de energia ao sabor impetuoso de um pouco de paixão e memória, aos solavancos da graça, num desarrumo de estantes e pilhas, namorando a vertigem do que, numa lista, permanece inacabável, com lugar à mesa para acolher o inesperado no que se sabe ser infinito, como se diz em alguma filosofia contemporânea. Ou como se diz, mais terra a terra, das cerejas que levamos à boca, umas a seguir às outras. E é justamente assim, terra a terra, neste plano de imanência, que aflora pelo nosso corpo de leitores o aroma de versos como estes, da poetisa russa Yunna Morits, como um gesto de gratidão perante o que ainda há de possível num talhe de palavras: “Feliz é aquele cujo ofício consiste em, / Amorosamente, com recurso a um chuveiro de cristal, / Lavar-me os olhos, a boca e os ouvidos / De tudo aquilo que foi espalhado pelo vento” (tradução de Luís Filipe Parrado, na antologia É por isso que a alegria é mais alta, 2022, p. 145). Terra a terra, em carne e osso, abrindo em cada leitor um recomeço do mundo: “O que é contemporâneo num livro? / Quem, ao lê-lo, o invade.” (Rui Nunes, Suíte e Fúria, 2018, p. 93). Quem, ao lê-lo, comunga dessa luz fraterna que Eduardo Lourenço irradiava na sua prática ensaística: entrando nos livros por osmose. Ampliando a vida com a vida, que é a matéria, ou o “claro enigma”, de que são feitos os livros que nos aumentam, expondo-nos à ferida de sermos incorrigivelmente singulares, que é a ferida de nos sabermos incorrigivelmente vários.

Algumas leituras em 2022

Livro que me deu particular gosto ler em 2022: A Caverna, de Saramago.

Livro que me soube bem como uma aragem fresca nas ventas: Palavras Aladas, de Maria Filomena Molder e Cristina Robalo.

Livro que me deixou rombo o bico do lápis de tanto o sublinhar em 2022: Extreme Metaphors, de J. G. Ballard.

Livro que me fez gritar por dentro muitas vezes “puta que pariu esta merda toda”: Vida a Crédito, de Tomás Maia.

Livro que me deu, se não esperança, qualquer coisa parecida, da mesma substância: Exalação, de Ted Chiang.

Livro que já valeu a pena ter lido só por causa de um modesto parágrafo: Ponto Ómega, de Don DeLillo.

Livro que tardou a chegar-me a casa e com um título tão bonito: Fui ao mar buscar laranjas, de Pedro da Silveira.

Livro que foi como um sítio onde pousar a cabeça: Para viver em qualquer mundo. Nós, os lugares e as coisas, de André Barata.

Livro que foi um presente inesperado na caixa do correio: Medição dos Arvoredos, de José Carlos Soares.

Livro que entreluz, na sua ourivesaria verbal, por entre esta marcha de “dias áridos, em que a terra não consegue conceber senão sombras”: Meditações sobre o escorpião, de Sergio Solmi.

Livro que, em retrospectiva, me faz desejar ver atribuído o prémio Pessoa a um tradutor como o Aníbal Fernandes: A Mulher 100 Cabeças, de Max Ernst.

Livro que já me parece tão longínquo, com aquela pesagem sóbria das ideias e a vigorosa inteligência de quem diz ao que vem e o que vê, sem pudor em chamar a estas coisas “uma fé que nos une” à “profundidade dos Gregos, que aceitaram o desconhecido como elemento positivo do real”: A Realidade do Artista. Filosofias da arte, de Mark Rothko.

Livro que merece da minha parte um texto que tenha a decência de iluminar a sua dignidade de existir: Arte Nenhuma, de Carlos Poças Falcão.

Livro que não tinha a mínima vontade de ler, e depois li e me levou a pensar “olha que bem, dez euros bem fodidos”: Fogos, de Ismael Ramos.

Livro que me deu vontade de reler Dante (que é, como quem diz já com alguma maturidade a pesar-lhe no discernimento destas matérias, o mesmo que ler Dante, como se fosse a primeira vez): Paraíso, de Pedro Eiras.

Livro fabuloso que li no comboio rumo a Castelo Branco: Ocorrências na Irrealidade Imediata, de Max Blecher.

Livro que me fez fotografar poemas e enviá-los a um par de pessoas que não tem Facebook: É por isso que a alegria é mais alta. Poemas russos dos séculos vinte e vinte e um.

Livro que me lembrou mais vezes de que, nestas andanças, há virtude moral em não ousar escrever poesia se sei de antemão que só vou fazer merda: Diários do Exílio, de Yannis Ritsos.

Livro que me forçou a ser um pouco mais optimista apesar de tudo: Mobilização Total, de Maurizio Ferraris.

Livro do caralho: Haverá sempre um lento alfabeto de chuva, de Denis Johnson.

Livro que te dá um par de estalos na cara e está todo cheio de uma desesperada ternura: Entrevistas Corsárias, de Pasolini.

Livro a que regressei enquanto calibrava envergonhadamente a angústia de ser contemporâneo de uma época que põe alarmes nas latas de atum: A Morte sem Mestre, de Herberto Helder.

Livro saboroso que não cheguei a acabar porque me pus a boiar na maionese: Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa.

Livro sobre o qual tentei escrever de “espingarda na mão / granada na boca / a esventrar aqueles que amo”, mas a qualidade tão excelente do seu prefácio acabou por me inflacionar as crónicas inseguranças: Poucas Virtudes e Cidadão Valente, de Miyó Vestrini.

Livro que não sabia que tinha a ganhar humidade na estante mais alta do quarto e que finalmente li com demorado prazer: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar.

Livro que trouxe de um alfarrabista e li à sombra da laranjeira no terraço cá de casa, com a mordedura do tempo no granulado envelhecido das folhas, nos seus limites esborcelados, num ou noutro minúsculo insecto fixado para sempre ao papel, mais o selo dos Estúdios Cor no rodapé da capa: Páscoa Feliz, de José Rodrigues Miguéis.

Livro que será para mim a lembrança de um dos mais longos e comovidos telefonemas: Irradiante, o negro, de Rui Nunes.

Livro que não fez grande mossa: As Horas, de Michael Cunningham.

Livro que abandonei por volta da página 40: O Fulgor Instável das Magnólias, de Ivone Mendes da Silva.

Livro que até põe um eunuco de pau feito: Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar.

Livro que comprei na Bertrand da Póvoa a cagar para o preço, por me lembrar dos que fazem desta língua, não a asséptica necrose com que se dá uns ares líricos à desolação em curso, mas antes um prodigioso luxo de vida que nos prende à irredutibilidade, amiúde sensual, de sermos a nossa circunstância: Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade.

Livro da & etc que arranjei pela net, todo contente: Seios, de Ramón Gómez de la Serna.

Livro da & etc que reapareceu sob outra face – li o original, Ossuário, na biblioteca de Famalicão, há uns bons anos –, como uma vinda de que não sabia ter estado à espera, trazendo consigo o mais castiço dos prefácios e uma arca cheia de insuspeitos tesouros: Ossos de Sépia, de Rui Diniz.

Livro tão desossado e violento na sua afirmação de liberdade quanto a respectiva adaptação ao cinema: O Acontecimento, de Annie Ernaux.

Livro que ainda não consigo, por muito que tente, ler: Motim, de Rui Baião.

Livro que, da sua luta com o anjo, deixou o poeta coxo: Segredos de Beleza, de Jean Cocteau.

Livro ao qual voltei com uma comoção especial: Basta que um pássaro voe, de Rui Dias Monteiro e Vítor Ferreira.

Livro que ainda estou a ler: O Ouriço e a Raposa. Ensaio sobre a Visão da História de Tolstói, de Isaiah Berlin.

Livro tão bonito: Res Prima, de Manuel Rosa e Tomás Maia.

Livro que me deixou mais desolado aquando da puta da invasão da Ucrânia por Putin, em Fevereiro deste ano: a Correspondência entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade.

Livro que me soube a pouco, como se nem o tivesse lido, como se nem o próprio livro tivesse acontecido (e que espécie de raiva fria esta, histerizando o desconsolo, por me saber a pouco um livro do mesmo autor de Imagem da Fotografia, que adorei descobrir há dez anos, ruminando-o por entre as estantes da biblioteca municipal): A Estrada Menos Viajada, de Bernardo Pinto de Almeida.

Livro que me soube bem reler: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Livro que vou ler por maior que seja a ansiedade que me assola só de olhar para os dois volumes fazendo-me, da prateleira, um intimidante manguito, quando não espetando em riste um vigoroso dedo do meio (como quem diz: “oupa, morcão, não tens tomates para tanto, pois não?”), desde o mês de Setembro de 2017, altura em que os comprei com um generoso desconto na Feira do Livro da Invicta: Guerra e Paz, de Lev Tolstoi.

E pronto. É isso: paz. Paz e sossego e essa “intransigência sem lacuna” de que falava Sophia sobre a sua relação com o real e com a “vida concreta”: “ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão”.

Ah, livro que também reli, acho que em Agosto: Geografia, de Sophia.

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(A partir de um post do autor na sua conta pessoal do Facebook, publicado a 23 de Dezembro de 2022; a versão desse post foi ligeiramente reformulada.)

Nota: o título deste texto é retirado do poema “Na costa, cheiro a iodo”, da poetisa Regina Derieva (1949-2013), incluída no volume É por isso que a alegria é mais alta. Poemas russos dos séculos vinte e vinte e um, com selecção e tradução de Luís Filipe Parrado (ed. Contracapa, 2022).

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Imagens: 0) Soir Bleu, 1914, do pintor norte-americano Edward Hopper; 1) Diogo Martins

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Categorias: Cultura, Literatura, Livros

Acerca do Autor

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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