A praia da Ramalha na Apúlia

A praia da Ramalha na Apúlia

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Chegados à Apúlia, a pequena vila agrícola e balnear do concelho de Esposende, olhamos para sul e vemos uma grande extensão de dunas e areia – a praia da Ramalha.

Vem crescendo o mar do norte no seu contínuo ondear, vai soprando forte o nosso Bóreas nortenho, que não há outro mais intenso e saboroso. Cheiram bem as águas ricas de sargaços, envolvem os viajantes numa espécie de maresia rija, perfumada de sal e brometos.

Pôs-se uma bela tarde de Verão quando os actores reuniram no areal. Era a última cena do filme O que vêem os anjos, uma evocação da escritora Maria Ondina Braga. Foi um dia especial e para mim uma espécie de banho santo cheio de imagens e vento. A nortada soprava desalmadamente, mas era preciso fixar imagens, ficar bem de pé olhando as águas, sentindo o vento.

Essa água inicial da praia da Ramalha, essa água no fim de todas as coisas

Confesso que temi algum achaque. Com a idade, tornei-me um pisquinho de maleitas. Sou previdente, no entanto. Homem do norte, se vai à praia, leva sempre agasalho. Ele era a camisola, a grossa camisa de flanela à pescador, ele era cachecol a cobrir a cabeça e o vento cada vez mais forte enregelava as mãos e o nariz, empertigava os pés.

Deixei-me ficar até ao fim, naquela praia de Esposende, sólido como um penedo. Ficámos todos, aliás, actores e técnicos. Não se ouviu uma discussão, algum achaque de impertinência, comportamentos de vedeta-não-me-toques. Só o vento e o sam-pan pousado na areia, o longo mar da história, de todas as histórias, essa água inicial, essa água no fim de todas as coisas, um outro modo de começar.

Na Apúlia, hei-de talvez ainda viajar na memória da água fria em azuis e verdes

Pelo fim da tarde, regressámos a Braga. Fui aligeirando o guarda-roupa. A verdade é que cheguei com um arzinho moreno, um sorriso pespegado no semblante e um brilho nos olhos, diz a minha gente. Foi um dia muito feliz.

Hei-de voltar à praia da Ramalha e, nesse dia, irei lembrar-me de tudo e talvez possa viajar um pouco na memória daquele vento, a água fria em azuis e verdes, a imagem da casa em ruína, ao longe, no centro da Apúlia, meu breve castelo romântico, meu encantado café de piratas.

Imagem: Marcelo Marques

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Obs: publicação original na página facebook de José Miguel Braga, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Acerca do Autor

José Miguel Braga

Professor, encenador, ator.

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