Anticomunismo primário e liberal

Anticomunismo primário e liberal

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Um intróito (mesmo necessário) e uma opinião (urgente) sobre as capas dos jornais relativas à substituição de Jerónimo de Sousa na liderança do PCP.

Nunca votei no PCP e não acho que o único Partido Comunista que existiu em Portugal tenha sido o PCP. Houve outras correntes comunistas – comunismo, anarquismo, socialismo radical, guerrilheirismo guevarista, trotskismo, maoismo, catolicismo progressista. Foram, de facto, muitos os partidos comunistas ou igualitaristas no país.

Também não acho que o PCP de hoje seja o PCP dos anos 20, mas sim dos anos 40: da estalinização e do frentismo como política. O Partido Social Democrata real em Portugal, que preconiza mediações e regulação do capitalismo através do Estado, é o PCP, e o PS é neoliberal de esquerda, há 3 décadas, pelo menos.

O ‘capitalismo regulado’ do PCP na Revolução dos Cravos

Fiz a minha tese de doutoramento sobre o PCP o que então provocou um pequeno escândalo num país escandalosamente pequeno, que vivia entre a mítica ideia de que o PCP era um Partido revolucionário e a ideia do PS que tinha tido que se aliar à direita porque havia uma ameaça de tornar Portugal numa ditadura soviética.

Tudo isso é ideologia e não história e, na minha tese – a única publicada até hoje sobre o período da Revolução dos Cravos relativamente ao PCP – desvendei com detalhe, não só dia a dia, às vezes hora a hora, a política do PCP face ao movimento de trabalhadores e aos 6 governos (está publicada na Bertrand). Costumo brincar e dizer que só eu e Álvaro Cunhal lemos todo o Avante! de 74 e 75 bem como todos os panfletos e relatórios do Comité Central (CC).

O PCP queria Angola, Portugal era da NATO. PS e PCP disputavam espaço no aparelho de Estado, nenhum queria revolução alguma ou socialismo algum – ambos sempre aceitando um quadro de capitalismo regulado (o PS só até fim dos anos 80, depois passou para o liberalismo e assistencialismo, como os seus congéneres europeus). O “capitalismo regulado” foi impossível – como domar um leão? – e transformou-se num desastre social com 47% de pobres (a mesma taxa de desigualdade social de 1973) e uma dependência estrutural que faz do país um negócio de dívida pública.

Anticomunismo primário nas capas dos jornais

Dito isto as capas dos jornais sobre o PCP (a do jornal i do Avante, a do Público de 6 de novembro fazendo o funeral de Jerónimo de Sousa – inenarrável – e a da Sábado, de extremíssima-direita) fazem parte de uma deriva perigosa em Portugal que é a adesão de jornais democráticos às ideias de extrema-direita que são o anticomunismo primário.

É preciso ser confrandedoramente ignorante para viajar na ideia neoliberal de que os “extremos tocam-se”, a “extrema-direita e a extrema-esquerda são idênticas”. Isso é propaganda liberal que de facto legitima a extrema-direita e o anticomunismo.

A URSS foi uma ditadura, mas a URSS não era comunista nem o comunismo é todo igual. O fascismo não é uma ideia que deu errado, é uma ideia que deu certo, é uma ideia de fazer da política crime, do assassinato táctica, da segregação ideologia.

O que falta em Portugal – e em quase todo o mundo, com excepção curiosamente dos EUA onde há um núcleo socialista sem vergonha – é uma política socialista ou comunista real contra a extrema-direita. Uma vez que a extrema-direita não está a crescer no comunismo, ela está a crescer no liberalismo. E com direito a capas de jornais.

‘Haja saúde! Também para Jerónimo de Sousa…’

Só há extrema-direita com esta dimensão no mundo porque não há, repito não há, uma política de extrema-esquerda que defenda um corte radical com este modelo de sociedade e com o passado das ditaduras comunistas. O ideal socialista pode não resultar, mas não existe outro que nos tire deste inferno. Ou caminhamos para uma sociedade de partilha e cooperação, ou vamos ser engolidos pela barbárie. Ou temos uma extrema-esquerda forte ou a extrema-direita será vitoriosa, levada ao colo pelos democratas liberais. O anticomunismo primário é a última fronteira que sobra aos neoliberais de esquerda e de direita para defenderem o indefensável – que não há alternativa ao capitalismo, à crise sistémica para onde nos trouxeram.

A democracia liberal e o Estado não vão combater a extrema-direita porque foram eles que a germinaram. Aqui, no Brasil, nos EUA ou na Suécia – nem por acaso é no seio das polícias, forças armadas, lugares centrais do Estado onde os partidos de extrema-direita primeiro se alicerçam, tendo depois amplo eco nos media liberais, os mesmo que ignoram o PCP, entrevistam Ventura, e a seguir fazem capas como a de hoje do Público, que mata Jerónimo, doente, em vida.

Haja saúde! Também para Jerónimo de Sousa. De quem sempre discordei.

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Obs: texto publicado previamente no blogue Raquel Varela | Historiadora, tendo sofrido ligeiras adeqauções na presente edição.

Imagem: PCP

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Categorias: Crónica, Mídia, Política

Acerca do Autor

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária da FCSH da Universidade Nova de Lisboa / IHC / Socialdata Nova4Globe, Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam) e membro do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho. Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de mais de 2 dezenas de livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora mais de 5 dezenas de artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP. Entre outros, autora do livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

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