‘The Mortal Storm’ – uma ‘tempestade mortal’ que reúne o céu à neve na mesma brancura

‘The Mortal Storm’ – uma ‘tempestade mortal’ que reúne o céu à neve na mesma brancura

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Tempestade Mortal, a “obra-prima de Frank Borzage e um dos momentos maiores do cinema americano dos anos quarenta”[1] começa com um céu carregado de nuvens em movimento, que se vão tornando cada vez mais negras e ameaçadoras, em simultâneo com uma voz off:

Quando o Homem era novo sobre a Terra assustava-se com os perigos associados aos elementos. E gritava: ‘Os deuses do relâmpago estão furiosos, e eu tenho que matar o meu semelhante para apaziguá-los!’ À medida que o Homem se tornou mais audacioso, criou abrigos contra o vento e a chuva e tornou a força do relâmpago inofensiva. Mas dentro do próprio Homem havia elementos tão fortes como o vento e tão terríveis como o relâmpago. E ele negou a existência desses elementos porque não ousava enfrentá-los. A história que estamos prestes a contar é a da tempestade mortal em que o homem se encontra hoje. Ele grita novamente: ‘Tenho que matar o meu companheiro’. A nossa história pergunta: Quando  é que o Homem encontrará sabedoria no seu coração e construirá um refúgio duradouro contra os seus medos ignorantes?“.

O texto declamado, no entanto, abriria na perfeição um retrato dos tempos actuais.

Tempestade Mortal – dos sentimentos dos homens, da luz e das trevas…

O crítico e ensaísta de cinema João Bénard da Costa escreveu uma folha de sala de quatro páginas sobre Tempestade Mortal, onde descreve demoradamente algumas das cenas-chave do filme, para nos falar: do quarto encontro do realizador Frank Borzage com o par prodigioso Margaret Sullavan e James Stewart (“de todos, o actor que melhor se ‘casou’ com ela por idêntica pureza e por idêntico fervor”); da densidade das personagens; da excelência dos vários actores, destacando Maria Ouspenskaya; das imagens encantatórias; do rigor compositivo; da força das cenas; da crueldade, ambiguidade e fragilidade dos homens, mas também da lucidez, generosidade e grandeza doutros homens; da luz e das trevas…

Nesse texto, diz “falar fragmentariamente” do filme, apesar de ele ser um todo.

‘The Mortal Storm’ é construído em torno da destruição de uma família e da ascensão do nazismo

The Mortal Storm é quase sempre citado pela fabulosa morte de Margaret Sullavan nas neves […] essa espantosa morte, certamente das mortes mais líricas e mais belas do cinema […]. E se nunca mais se esquecem mortes dessas – e sequências dessas – segredo do lirismo intimista do soberbo melodramatismo do grande Borzage, The Mortal Storm merece ser recordado muito mais do que pelas celebradas sequências finais e é – todo ele – um prodígio de construção e de visão.

Um dos poucos filmes que em 1940 – ainda a América era neutral – levou Hollywood a pisar o risco e a pronunciar-se abertamente contra o nazismo[2], […] The Mortal Storm é um todo admiravelmente construído em torno dos temas (depois tantas vezes repetidos) da destruição de uma família e da ascensão do nazismo. […]

No filme de Frank Borzage, reunir o céu à neve, na apoteose da mesma brancura

Começado entre as nuvens (nuvens negras) por uma voz off declamatória e retórica, Tempestade Mortal termina com o texto de Minnie Louise Hopkins (“Gate of the Year”) que incita a “go out into the darkness”. Antes, […] em off ouvem-se as vozes de Freya e do pai, falando de “gracious living, tolerance, sense of humour”. Por esses valores vale a pena enfrentar as trevas das tempestades mortais. Em 40, Borzage, com este sublime melodrama, anuncia as razões que Roosevelt – um ano mais tarde – daria à América para a necessary war. E anuncia-as com uma história exemplar, exemplarmente encenada e que leva a sua arte de meios-tons e meias-tintas à mais suprema hora de beleza.

Entre o Carry On do dia de anos do Professor e o Wacht am Rhein da cervejaria, a coralidade[3] em Tempestade Mortal adquire o sentido oposto. Mas contra ela emergem os quatro protagonistas que no dia do advento de Hitler se não levantaram da mesa. Eles provarão que esses corações individuais jamais se vergarão perante o todo totalitário. Por isso ascenderão à luz da ressurreição e as suas perspectivas nunca serão distorcidas […]. Por um lado, a grande harmonia cósmica e moral. Por outro, as grandes sombras da morte. Só o amor transcendental como a liberdade transcendental – aqui personificados pela imponderabilidade e beleza de Margaret Sullavan e James Stewart – podem varrer as segundas e restituir as primeiras. The Mortal Storm, a mais comovente das obras de Borzage, é o filme que, como afirma João Bénard da Costa, reúne o céu à neve, na apoteose da mesma brancura”.

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Obs: texto original publicado em Lucky Star – Cineclube de Braga, que exibiu o filme em 6 de setembro de 2022, inserido no ciclo ‘O bacilo do Fascismo – ontem como hoje’, tendo sido sujeito a ligeiras adequações na presente edição.

[1] João Bénard da Costa.

[2] O filme assumiu audaciosamente o antinazismo antes da entrada dos EUA na guerra (que só ocorreu depois do ataque a Pearl Harbor, em 1941). A Alemanha não aceitou a crítica, proi- biu a exibição do filme e baniu todos os filmes da MGM no país.

[3] Relativo a coro, conjunto de cantores que cantam em conjunto e ao mesmo tempo.

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Categorias: Cinema, Cultura

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