‘Saímos das grutas, mas a memória das cavernas mais misteriosas e hediondas não nos abandona’

Anoitece e oiço o mar: ignorância, transfiguração, humanidade, conhecimento

Anoitece e oiço o mar: ignorância, transfiguração, humanidade, conhecimento

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Ignorância

A ignorância apela a deus, o inexistente, a justificação da desgraça, aniquilando assim o passo seguinte para a expressão da ciência; ou, pelo menos, atrasando-a ou retrasando-a para a elevação da boa esperança da humanidade, incluindo todos os que dela fazem parte, ou seja, os crentes manipulados por leis de divina pressuposição e os ateus e agnósticos mais profusamente dados aos mistérios da ciência e seus consequentes desvelos que o motor da civilização ajuda a transparentar.

Transfiguração

A transfiguração transparente dos que estão sempre prontos a trair nos territórios obscuros, quando a mudança se torna urgente no fio da faca, é o retrato grotesco da animalidade selvática que ainda somos e com a qual somos obrigados a conviver. Saímos das grutas, mas a memória das cavernas mais misteriosas e hediondas não nos abandona.

Humanidade

Por vezes, a humanidade não nos deixa na solidão de um fim de tarde quando reconhecemos a beleza deste enigma que nos faz respirar num recôndito lugar do universo em que estamos rodeados por uma imensidão de vazio. Onde não há esquinas que nos signifiquem e onde os abismos só contêm precipícios para a mais pura irrelevância da existência.

Conhecimento

Que pão coze o metafórico forno universal? Gases e explosões turgem objectos astronómicos que o nosso conhecimento desconhece num espectáculo milimetricamente caótico e, ao mesmo tempo, organizado por forças reactivas incognoscíveis.

Na superlativa paisagem universal e absoluta

Anoitece e oiço o mar, sob esse mundo perfumado de luzes mortíferas, com uma vida tão diversa e eficaz que os manicómios capitalistas devastam criminosamente como se o luxo deste planeta fosse eternamente descomunal na sua pequenez anónima na superlativa paisagem universal e absoluta.

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Obs: texto original – pré-publicação de extracto do livro Commedia (2022) – publicado na página facebook de Luís Filipe Sarmento, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

Imagem: José Poiares

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Categorias: Cultura, Literatura, Livros

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