Estes lares não são para velhos

Estes lares não são para velhos

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“Morreu, em Portugal, uma mulher que passou os últimos tempos de vida acamada, ferida, entubada e com uma mão presa. Essa mulher teve o seu corpo atacado por centenas de formigas e não pôde sequer coçar-se. Essa mulher, cujo nome desconheço, deu rosto à miséria e degradação vividas por centenas de idosos, diariamente, num país que continua a não saber valorizá-los e reconhecê-los. Essa mulher destapou o manto dos maus cuidados, da má adaptação e da precariedade da rede de apoio aos idosos, em Portugal, [revelando a necessidade de criação urgente de uma unidade de saúde geriátrica por concelho].

E, não, essa mulher não é caso único. Entrem em dezenas de lares, como tenho feito nos últimos dois anos, e depois contem-me o que encontraram. Depois digam-me se é ou não urgente repensarmos a forma como cuidamos e protegemos os idosos.

A mulher das formigas era mãe e avó de alguém. A mulher das formigas foi filha de alguém. E morreu privada do conforto e da dignidade que nos tornam humanos.”

Estas palavras e frases não são minhas. São de Carmen Garcia, enfermeira e autora de A Mãe Imperfeita, que escreve aos domingos no Jornal Público, crónicas cheias de sentido, de humanidade e de solidariedade, escritas numa linguagem simples e acessível a todos. É por ela, Carmen Garcia, e também por Teresa de Souza, que escreve crónicas que têm mais a ver com a “política do Mundo”, que compro todos os domingos o “Jornal Público”. O resto do conteúdo do jornal, para quem acompanha com normalidade a informação do dia a dia, não merecia este cuidado especial. As crónicas de Carmen Garcia e de Teresa de Souza merecem o custo de todo o jornal. É por isso que, aos domingos, compro com prazer, o Jornal Público. Vale bem o investimento.

A necessidade de uma unidade de saúde geriátrica por concelho

Acrescenta Carmen Garcia, na tal penúltima crónica, que “não gosto de escrever crónicas muito técnicas, mas, neste caso, porque sou enfermeira em geriatria, não consigo fugir à tentação de apresentar soluções. E a primeira delas, quanto a mim, passaria sempre pela criação de uma equipa, com representantes dos ministérios da Saúde e da Segurança Social que se sentasse à mesa e repensasse, de facto, a solução para os utentes idosos com níveis mais elevados de dependência. E essa solução poderia passar, por exemplo, pela criação de uma unidade de saúde geriátrica por concelho, com enfermagem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e um rácio de pessoal adequado às elevadas necessidades dos utentes.

Mudar o paradigma dos lares de idosos

Os nossos lares atuais são estruturas residenciais que não estão aptas a oferecer uma resposta tão complexa em cuidados de saúde e a nossa rede de cuidados continuados é demasiado pequena para cobrir estas necessidades.

À parte disto, era importante que as inspeções da Segurança Social fossem mais frequentes e sem aviso prévio e que se criassem equipas distritais de formação contínua que garantissem, por exemplo, formação trimestral gratuita aos funcionários das instituições – porque, acreditem em mim que conheço bem esta realidade, muito do que se faz de errado nos lares acontece mais por desconhecimento do que por falta de vontade.”

Carmen Garcia diz: “Escrevi esta mini-história (que eu agora reescrevo parcialmente) no dia em que vi as imagens da idosa coberta de formigas no lar de Boliqueime. E desde aí que me sinto doente…”

E se o sofrimento fosse connosco, com os idosos que nos são mais próximos?

Os factos relatados por Carmen Garcia referem-se à velhinha do lar de Boliqueime, no Algarve, que emocionou todo o País há semanas atrás. Custa efetivamente a crer que uma pessoa aos cuidados de um lar seja atacada e “comida viva” por milhares de formigas, sem possibilidades de reagir e, inclusive, de se coçar, porque tinha as mãos presas. Temos imensa dificuldade em acreditar que isto possa ter acontecido e continue a acontecer, com maior ou menor gravidade, nos nossos lares. E então, podemos olhar para os idosos que nos são mais próximos – avós ou pais -, antevendo que aquilo que aconteceu a esta velhinha também pode acontecer-lhes a eles. O sofrimento será muito intenso e difícil de suportar… Não podemos, obviamente, permitir que isso aconteça, em Portugal, em circunstância alguma.

Proporcionar tempos normais e dias tranquilos aos nossos velhos

A solução proposta por Carmen Garcia para Portugal ultrapassar estas dificuldades e constrangimentos e evitar o sofrimento atroz das pessoas idosas, pode passar efetivamente pela construção de “unidades geriátricas” no País, uma por cada concelho, apetrechadas com recursos humanos e recursos materiais capazes de garantirem tempos normais e dias tranquilos a todos aqueles que, sabemos, nos vão deixar mais cedo ou mais tarde.

Enquanto isso, há que apostar seriamente no desenvolvimento de estratégias, iniciativas e ações para o envelhecimento ativo e saudável, retardando até onde for possível retardar, a institucionalização dos nossos idosos.

Urge dar o salto qualitativo no acolhimento de idosos muito dependentes

Tenho um grande amigo que me diz com frequência que há-de fazer tudo aquilo que puder para não ir para um lar. Diz ele que pode ter que rastejar para chegar à porta da cozinha, que pode ter que subir paredes para conseguir entrar em casa, mas lar, não!

Claro que não podemos avaliar o funcionamento e os “cuidados” de todos os lares pela mesma bitola. Há naturalmente aqueles que funcionam muito bem e aqueles que funcionam menos bem. Mas só a palavra “lar” mete medo a muita gente em Portugal. E a culpa não é, muitas vezes, de quem lá trabalha com humanidade…

Daí que a proposta de criação de uma “unidade geriátrica” por concelho deva ser tomada a sério. Em paralelo com as políticas de envelhecimento ativo e saudável que a Câmara Municipal de Famalicão, em colaboração com outras instituições, faz muito bem, é necessário “dar o salto” em relação a outras formas de acolhimento de idosos muito dependentes, para que, no futuro, não tenhamos de ter pesadelos com novas velhinhas ou novos velhinhos de Boliqueime a serem autenticamente “comidos” por formigas…

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Acerca do Autor

Mário Martins

Nasci na casa dos meus pais, em 1951, em Arnoso Santa Eulália, e por lá me fiz adolescente, jovem e homem. Da minha infância, guardo na memória as longas jornadas da escola primária, para onde íamos muitas vezes descalços e com frio, a professora Beatriz, tirana e hostil para as crianças que nunca fomos, os dias sem fim a guardar ovelhas que pastavam nos montes… No fim da “instrução primária”, fui para o seminário, a “via de recurso” para quem não tinha “posses” para estudar no ensino oficial. Por lá andei cinco anos, dois em Viana do Castelo e três em Braga, nos seminários da Congregação do Espírito Santo. Foram tempos felizes: rezava-se muito, estudava-se muito, jogava-se muito “à bola” e havia boa comida! Com muitos sacrifícios dos meus pais, “fiz” o 7º ano (hoje 12º), no Liceu Sá de Miranda, em Braga. No fim deste “ciclo” fui operário na Grundig, em Ferreiros, também do Concelho de Braga, durante um ano. Entretanto, com uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian, entrei na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao fim de três anos, em janeiro de 74, fui para a “tropa”, primeiro em Mafra, depois em Lamego, nos “comandos”. Eu era pequenino e franzino, mas os campos e os montes de Arnoso Santa Eulália, tinham-me feito forte, ágil e robusto! Depois fui professor, a minha profissão, carreira que foi acontecendo, enquanto completava a licenciatura, interrompida pela “tropa”. Fui Chefe de Divisão da Educação e Ação Social e Diretor de Serviços (adjunto do presidente), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, na Presidência de Agostinho Fernandes, “no tempo em que tudo aconteceu”. Fui também Diretor do Centro de Emprego, num tempo difícil, em que a “casa” estava sempre cheia de desempregados, e vereador da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, primeiro eleito pelo MAF (Movimento Agostinho Fernandes) e depois pelo PS. Hoje sou bom marido, pai e avô. A vida já vai longa, mas continua a trazer com ela a necessidade de construir, pensar e fazer…

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