O estranho caso da arma que nunca existiu… Ou será que existiu mesmo?

O estranho caso da arma que nunca existiu…  Ou será que existiu mesmo?

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Quase todos os interessados na Idade Média que jogaram Dungeons and Dragons, ou leram romances históricos, sabem o que é um mangual, também chamada de flagelo: uma arma medieval que consiste numa bola de metal presa a uma corrente num cabo curto (que não deve ser confundida com a sua “irmã” de duas mãos derivada de um instrumento agrícola para bater e debulhar os cereais, essa sim chamada de mangual em português). Muitas variedades da versão de uma mão apareceram em vários filmes e livros, e são inclusivamente expostas em colecções de museus como o Metropolitan Museum of Art.

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O único problema é que essa arma nunca existiu. Apesar da sua popularidade em representações culturais sobre a Idade Média, o flagelo foi quase certamente uma invenção de séculos posteriores. Claro que é muito mais difícil provar uma negativa (que algo não existe), do que o seu contrário. Os historiadores militares Kelly DeVries e Robert Douglas Smith debruçam-se sobre a questão no seu livro “Medieval Military Technology“:

“Essa arma de bola e corrente atraiu muitos comentários de historiadores modernos, alguns alegando que ela existia, outros considerando-a uma fantasia. No entanto, era provável que uma arma como essa fosse usada, embora não fosse comum”.

Philip Warner, escrevendo em 1968 no seu “Sieges of the Middle Ages“, foi mais directo, e classificou todos os exemplos existentes da arma como falsificações. Como gostamos de elucidar bem os nossos leitores, achamos por bem olhar para as provas.

O flagelo: uma arma de guerra?

Como arma de guerra, não tem uma concepção eficaz. O elemento que torna um flagelo único – a sua corrente – é também a sua maior desvantagem. A corrente e a bola oscilante torná-la-iam extremamente difícil de controlar. Numa formação compacta, uma arma oscilante teria tanta probabilidade de acertar nos companheiros de luta como nos inimigos do seu utilizador. Se rebatesse num escudo ou até mesmo num ataque bem-sucedido, seria mais provável que atingisse igualmente quem a empunhava.

Em termos de física, o balanço certamente daria à bola de metal uma velocidade maior do que a cabeça de uma maça similar. No entanto, a maça, sendo rígida, permite que o guerreiro acompanhe o balanço com o movimento do corpo. Qualquer movimento análogo com um flagelo apenas faria com que o potencialmente desastroso ricochete o atingisse com ainda mais força. Além disso, a corrente tornar-se-ia um ponto fraco que se poderia quebrar por acidente, ser quebrado pelo inimigo ou acabar enrolado à volta de uma espada ou de uma arma maior.

Mas… e todos aqueles flagelos no MET que acabámos de mencionar? É aí que a história fica interessante. A hipótese mais reconhecida pelos académicos é que todos aqueles exemplares em colecções similares encontrados ocasionalmente noutras partes do mundo são, como Warner afirmou com toda a franqueza, falsos. Há décadas que o mundo da arte reconheceu (e até celebrou) as falsificações existentes nas suas colecções, mas os museus de História têm sido muito mais lentos a lidar com essas questões, corrigindo discretamente os seus catálogos. Para seu crédito, o MET já não exibe flagelos no museu devido às questões levantadas sobre a sua origem e autenticidade.

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Representações artísticas do flagelo

Curiosamente, há uma fonte de evidência que complica as coisas: a arte. Há alguns flagelos representados num pequeno punhado de ilustrações medievais manuscritas, o que, a princípio, parece resolver o debate. Afinal de contas, essas armas existiam. De que outro modo seriam representadas por artistas se não existissem? No entanto, todas essas representações se encontram unidas num peculiar fio comum, pois surgem quase todas num contexto do exótico e/ou do fantástico – como as edições manuscritas das viagens de Marco Polo, onde são usadas por guerreiros Árabes, ou um dos primeiros manuais de tecnologia militar, o “Bellifortis” de Konrad Kyeser, certamente uma fonte mais confiável. Mas infelizmente Kyeser e o seu iluminador aqui também vaguearam para o fantástico. Estas armas também não são descritas em lado algum na literatura ou na cronística medieval, nem se encontram listadas nos catálogos de arsenais sobreviventes.

Isto deixa-nos com duas possibilidades: a primeira é a de que o flagelo era um protótipo tecnológico tardo-medieval que nunca evoluiu devido às suas falhas intrínsecas. Os poucos exemplares que temos datados desse período são autênticos, mas são raros em arsenais porque representavam um beco sem saída em termos de design militar. A possibilidade mais interessante é a de que seriam fruto da imaginação, e que os exemplos que temos são artísticos e ornamentais. Esta é uma hipótese fascinante, porque significa que o flagelo poderia ser um exemplo do que o filósofo francês Jean Baudrillard chamou de “simulacra” – um étimo latino usado para designar cópias de um qualquer artefacto que não possui original. Se eram “simulacra”, então os seus inventores não eram armeiros, mas sim ilustradores. Os armeiros que os fabricavam nos séculos XVI, XIX ou XXI, copiavam uma ideia, e não algo que realmente tivesse existido.

Qualquer que seja a explicação, o flagelo persiste no imaginário contemporâneo pela mesma razão pela qual surgiu na época em que nasceu: porque parece uma arma espectacular, perigosa, imprevisível, pesada e selvagem. Estes atributos tornaram-se atraentes porque se encaixam perfeitamente na visão deturpada que temos da Idade Média, inexoravelmente escura, crua e violenta. O flagelo não é uma arma, tanto quanto é um ícone. Existe e continuará a existir porque pinta de forma vívida a Idade Média. Não como ela era, mas como acreditamos que possa ter sido.

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Imagens: (0) Belliefortis de Konrad Kyeser, (1) Future Museum, (2) Livre des Merveilles du Monde, (3) Livro das Viagens de Marco Polo

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Obs: Este artigo foi previamente publicado em Repensando a Idade Média tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Crónica, Cultura

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