‘De ti se esperava sempre mais e sempre mais, / Um mais que estava sempre anunciado’ / (…) / “Recuso-me a aceitar o que me derem.”

Carta a Jorge de Sena

Carta a Jorge de Sena

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1.

Em tudo foste superior, e nunca, mas nunca

Se te acabaram as palavras.

Em nenhuma das tuas facetas deixaste

o sabor amargo de te teres esgotado,

não havendo, por isso, nada mais a dar.

De ti não se pode dizer que devias ter parado

depois da obra tal ou tal.

Ao contrário, de ti se esperava sempre

mais e sempre mais,

Um mais que estava sempre anunciado.

 

2.

De tudo trataste, em perspectiva dialéctica,

que era o pano de fundo que enformava

a tua vasta cultura e invejada.

De tudo traçaste, apontaste e sugeriste

uma bissectriz harmonizadora e criativa,

e humana, demasiado humana.

Em tudo foste o poeta que sabias ser,

com coragem e com revolta.

Sabias da qualidade da tua obra,

Que afirmavas,

Para escândalo dos oficiosos e instalados

Para quem isso soava, e era

Afronta e blasfémia.

 

3.

Foste mais, e és mais,

muito mais que o teu nome.

Como a obra de arte que se ultrapassa

voando para além do seu criador,

também tu te ultrapassaste,

superando-te na tua obra,

que nos dás em fruição e conhecimento,

Fundindo-te para sempre nela.

 

4.

Não te falo dos quarenta anos de Camões

cuja pertinência numérica te querem roubar.

Não te falo de sôbolos rios, pedra de água

De valor incalculável,

Da pátria e da hipocrisia, não te digo nada,

Porque ficarias triste desta tristura sem fim tamanha.

Mas, para que entendas, e me,

deixo-te com as tuas

próprias palavras,

sibilinas sábias.

 

5.

Recuso-me a aceitar o que me derem.

Recuso-me às verdades acabadas;

recuso-me também às que tiverem

pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não derem

e às que ferem por não serem dadas.

Recuso-me aos eus-próprios que vierem

e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado

e a estar sozinho ou estar acompanhado,

Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado

como a ser livre ou a ser predestinado.

Recuso tudo, ó Terra dividida!!”

O amor é mais, muito mais, que o que vemos, sentimos e temos

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Obs: texto previamente publicado na página de facebook de António Mota, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

Imagem: Fernando Lemos

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Categorias: Cultura, Literatura, Poesia

Acerca do Autor

António Mota

Professor. Braga.

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