‘Os telejornais de todas as estações de televisão e os seus apresentadores fizeram do caso da mãe de Abrantes e seu bebé morto a “novela” da segunda quinzena de julho’

Bebés que nascem, bebés que morrem…

Bebés que nascem, bebés que morrem…

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Não desejo a nenhuma mãe, presente ou futura, de Famalicão, de Portugal ou de qualquer outro país do Mundo, aquilo que as mães de Arnoso Santa Eulália e de quase todas as freguesias do Município de Vila Nova de Famalicão passaram há sessenta ou setenta anos atrás para poderem ter os seus filhos.

Naqueles tempos não muito longínquos, os médicos (ginecologistas, obstretas e todos os que relacionamos hoje com o acompanhamento da mulher grávida e com o nascimento dos bebés) eram uma miragem inacessível porque não existiam e a existirem não podiam ser chamados porque os miseráveis salários de então não “cobriam” estas despesas extraordinárias. Ou se chamava o médico ou se garantia o pão para a família! Além disto, não havia estradas, só caminhos de terra por onde os táxis, os carros (poucos) e as ambulâncias não podiam passar. A maioria das pessoas desconhecia até a existência de ambulâncias para os serviços de “emergência”.

Emergência? Não havia emergência nem telefones para as emergências… Os bombeiros só vinham quando havia grandes fogos nas casas…

Sorte ou azar representaram a morte ou a vida para mães e bebés vezes sem conta…

Falar em acompanhamento de uma mulher grávida, fazer os “exames” médicos para verificar se tudo estava a correr bem era um “luxo” que as famílias não podiam suportar. A mulher engravidava e voltava a engravidar sem qualquer tipo de acompanhamento e quando chegasse ao “fim do tempo” (e neste “fim do tempo”, as fases da Lua tinham uma influência decisiva), os bebés nasciam ou morriam ao nascer, na solidão da pobreza e, muitas vezes, da miséria…

Quando as “dores” da mulher grávida “apertavam” – e se era de dia -, lá se ia a correr chamar a “parteira” da terra, uma “habilidosa” que, sem conhecimentos científicos ou técnicos, ajudava a mulher grávida a “parir”, tentando aliviar o seu sofrimento. Se as “dores” chegavam de noite, a própria noite transformava-se em horas intermináveis de angústia e de terror. Pai, irmãos e irmãs da casa viviam horas intensas de sofrimento à espera que chegasse o dia para irem chamar a “tal parteira” da terra, a única ajuda que era possível obter.

Quando era de dia, ainda estas crianças, algumas bebés como o bebé que ia nascer, podiam brincar no “terreiro” das casas com os paus e a terra que davam para fazer casinhas e caminhos. Quando as “coisas” aconteciam de noite, só se ouviam os choros de quem não aguentava os gemidos da mãe na hora do parto. Ainda quando era de dia, relembramos o cuidado extremo da mãe que, adivinhando o que ia acontecer, preparava uma sopa forte para que os seus filhos não “passassem fome” enquanto ela (a mãe) “tinha” outro filho. Foram umas heroínas estas mães!

Quando o dia acabava e o pai regressava a casa do trabalho, as crianças suspiravam de alívio: tinham um adulto para as ajudar naquilo que fosse preciso e essencial. Casos havia em que as únicas palavras que se ouviam da boca destes pais eram: “Temos gente nova cá em casa”… Era assim…

Foram dias e noites que as pessoas da minha idade nunca esqueceram e que nunca esquecerão no futuro. Inconscientemente fazemos o filme voltar atrás e relembramos estes tempos de grande obscuridade e de grande dor, em que a sorte ou o azar podiam representar a morte ou a vida para as mães e para os bebés… E quantas vezes isso aconteceu…

A novela noticiosa do ‘caos’ hospitalar no atendimento a grávidas e seus bebés

É por isso também que hoje “mete raiva”, uma “raiva” imensa, nós assistirmos ao que assistimos nos “telejornais” das televisões, quando alguma coisa não corre bem ou corre menos bem com as mães grávidas e os seus bebés! A boca dos apresentadores e os “rodapés” dos “telejornais” enchem-se da palavra “caos”, o que nos faz suspeitar que esta gente que se julga muito culta não tem a mínima noção do que significa a palavra “caos”. Podiam evidentemente consultar um dicionário para não serem tão arbitrários na utilização da palavra. “Caos” é a desordem total, a arbitrariedade total e a anarquia total…

Na maioria das situações, nada disto se verifica. Penso que ainda se recordam de um caso das últimas semanas de julho em que uma mãe grávida se dirigiu ao hospital público da sua residência para ter o seu filho. Ouvindo por terceiros que havia alguns problemas na “sala de partos” desse hospital, decidiu, por sua conta e risco e em carro particular, ir para outro hospital que ficaria a cerca de 100 quilómetros do hospital da sua residência… Acresce que esta mãe tinha sido acompanhada na sua gravidez pelos médicos de um hospital particular… Infelizmente para esta mãe que, independentemente de todos estes contornos tem aqui a minha inteira solidariedade, o seu bebé acabou por morrer, estando em curso um inquérito para verificar as causas deste infortúnio.

Em vez de analisarem esta situação no seu contexto global, os telejornais de todas as estações de televisão e os seus apresentadores fizeram deste caso a “novela” da segunda quinzena de julho.

Podiam ter indagado com profissionalismo porque é que a senhora não foi numa ambulância para o tal outro hospital, em vez de utilizar uma viatura particular.

Podiam indagar porque é que a mesma senhora, tendo sido acompanhada na gravidez por um hospital privado, decidiu recorrer a um hospital público para ter o seu filho…

Podiam indagar tanta coisa para darem ao telespectador uma visão correta da globalidade dos fatos, mas preferiram falar “só” em “caos” e desordem…

São pessoas que ganham muitos milhares por mês!

É isto aquilo que temos e é com isto que temos que viver?

Ao contrário das mães de há sessenta e setenta anos atrás, esta mãe, pese embora o infortúnio, teve três alternativas para a sua gravidez e para o nascimento do seu bebé: o hospital privado, o hospital público da sua residência e o hospital público localizado a 100 quilómetros da sua residência. Comparado com quem não tinha nada, a diferença é abissal.

Hei-de voltar a este assunto para abordar outras situações e “contradições” que envolvem estes processos… Ele merece esta atenção!

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Categorias: Crónica, Mídia, Saúde

Acerca do Autor

Mário Martins

Nasci na casa dos meus pais, em 1951, em Arnoso Santa Eulália, e por lá me fiz adolescente, jovem e homem. Da minha infância, guardo na memória as longas jornadas da escola primária, para onde íamos muitas vezes descalços e com frio, a professora Beatriz, tirana e hostil para as crianças que nunca fomos, os dias sem fim a guardar ovelhas que pastavam nos montes… No fim da “instrução primária”, fui para o seminário, a “via de recurso” para quem não tinha “posses” para estudar no ensino oficial. Por lá andei cinco anos, dois em Viana do Castelo e três em Braga, nos seminários da Congregação do Espírito Santo. Foram tempos felizes: rezava-se muito, estudava-se muito, jogava-se muito “à bola” e havia boa comida! Com muitos sacrifícios dos meus pais, “fiz” o 7º ano (hoje 12º), no Liceu Sá de Miranda, em Braga. No fim deste “ciclo” fui operário na Grundig, em Ferreiros, também do Concelho de Braga, durante um ano. Entretanto, com uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian, entrei na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao fim de três anos, em janeiro de 74, fui para a “tropa”, primeiro em Mafra, depois em Lamego, nos “comandos”. Eu era pequenino e franzino, mas os campos e os montes de Arnoso Santa Eulália, tinham-me feito forte, ágil e robusto! Depois fui professor, a minha profissão, carreira que foi acontecendo, enquanto completava a licenciatura, interrompida pela “tropa”. Fui Chefe de Divisão da Educação e Ação Social e Diretor de Serviços (adjunto do presidente), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, na Presidência de Agostinho Fernandes, “no tempo em que tudo aconteceu”. Fui também Diretor do Centro de Emprego, num tempo difícil, em que a “casa” estava sempre cheia de desempregados, e vereador da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, primeiro eleito pelo MAF (Movimento Agostinho Fernandes) e depois pelo PS. Hoje sou bom marido, pai e avô. A vida já vai longa, mas continua a trazer com ela a necessidade de construir, pensar e fazer…

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