‘É verdade que temos muito boa educação na Constituição, no aperto de mão, quando acorremos a um irmão ou saudamos a procissão, se contestamos a perseguição e criticamos a delação. Mas infelizmente…’

O problema da Educação

O problema da Educação

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Antes de aqui chegar, tinha estado a conferenciar com alguns mestres e entendidos na matéria e pareceu-me observar uma espécie de acordo tácito quanto à necessidade de chegarmos a uma conclusão. As cabeças pensavam e depois abanavam, o que permitia deduzir que todos concordavam. Finalmente era verdade. Era verdade o que eu pensava, era verdade a verdade que eu achava ser a mais verdadeira de todas as verdades. Ora, saber que uma coisa é verdade é já um bom começo para um princípio de tarde.

Presumo que neste momento alguma curiosidade possa ter-se instalado nesta sala pois, como é natural, não servem as palavras para outra coisa senão para cumprirem esse destino fatal. Aguçar a curiosidade e, no contexto em que nos sentamos, desencadear a gula que é esse desejo insano de comer dez pães com marmelada como se isso não fosse nada. No caso presente não trataremos de pães nem de feijões, mas de opiniões. Tenhamos no entanto cuidado com as palavras, porque nem tudo está ao nosso serviço e por elas recebemos às vezes o aviso de alguém que não acha bem. Quem não acha bem acha mal e isso parece ser coisa natural.

Pois, pois, mas de que aviso se trata afinal?

Exactamente, tem toda a razão. Vamos lá então saber de que trata a dita coisa e se ela constitui o sinal de alguma coisa especial. Para responder com propriedade a Vossa Mercê, eu diria apenas que falar de aviso foi um processo de linguística geral que não tem nada de especial. Pode o caro cidadão dormir descansado que por esse lado não vem qualquer mal que possa importunar o santo Natal. Aliás o último sinal já tem dois mil anos e tal e toda a gente continua a considerar que ele constituiu um aviso essencial.

Vamos lá saber então de que trata o intróito. Até aqui tudo nos pareceu uma grande confusão e nós queríamos ouvir falar sobre o problema da educação.

Tem muita razão o Senhor Marquês e eu vou procurar falar em bom Português. Sou no entanto obrigado a avisar que tudo farei para manter os mistérios no seu lugar e não é sem emoção que juro solenemente e jurarei que usarei de toda a cautela para revelar hoje, em primeira-mão, a solução.

Muito bem, muito bem dizem os amigos que se encontram nos bastidores. Uma ou outra palma se ouve que ecoa por esta sala.

Muito e muito obrigado, fico muito contente, com este ambiente que começa a ficar deveras quente. Hoje viemos aqui, a estes altos lugares a que chamamos da Falperra, olhamos para um lado e viramos para outro, vemos duas cidades ao largo, a do berço e a do terço e… Ó divina inspiração que sobre nós desce e nos vai ajudar a resolver a equação! Não, não é para falar de união entre o que está aqui e o que está ali, para isso não serve a reunião. Viemos, sim, trazer-vos a solução para a vossa aflição, a solução, enfim, para o problema da educação.

Confesso que era minha intenção demorar um pouco mais nesta espécie de introdução. Esse tempo servir-me-ia, ó maravilha, para enganar esta azia que trago comigo e que me tem dificultado a digestão. Mas vamos à questão. A minha tese é esta e pode ser dita em poucas palavras:

O povo merece, mas não tem culpa do que acontece.

Quem tece e entretece não é o povo e já nem sequer é o polvo que esse anda lá na toca e está-se nas tintas, às vezes até choraminga, pois nem sempre consegue disfarçar o seu próprio ar. O problema é outro e desta vez é novo e redondo como um ovo. Perguntam-me se é da criação que venho falar? Não, caro Senhor, não é isso minha Senhora, Excelência por quem sois ou me tomais, eu vos juro, Senhor Embaixador, que o caso é muito mais.

Minhas senhoras e meus senhores, caríssimas autoridades, pecadores e outros doutores: todo o discurso tem uma parte que pretende submeter o ouvinte à boa arte. É conveniente também lembrar que a saborosa retórica, por mais doce que pareça, não se assemelha a um refresco de groselha e muito menos se aparenta com mexidos ou com enchidos.

O problema da educação é uma falsa questão. Ora aí está. Nos dias que correm, a malta está perfeitamente informada, tudo se sabe não falta nada e quando não é em português a educação existe, dá-se, mostra-se ou faz-se em inglês. Agora, cócegas toda a gente tem, gases também. O que é que falta então à nossa educação para que se possa dizer com orgulho que a nação está em franca evolução?

Eu cá para mim só deviam falar os da televisão. Eles é que sabem, os outros não. À beira deles eu sinto-me perdido, despido, esquecido. Não, não é por causa da imagem, é porque lá é que a coisa se dá. Aqui tudo é mentira, tudo parece uma avaria, um engano que o Senhor Deus se atreveu a magicar só para nos arreliar. E já é possível imaginar a primeira conclusão. Já todos adivinham, não é? É claro que é isso. Para resolver o problema da educação precisamos de muito mais televisão.

Vamos agora em directo para a segunda premissa que faz lembrar o que se ouve na missa e que é a seguinte:

Ele há muita realidade por esse mundo fora que além de não servir para nada estraga a juventude com ideais erradas acerca da verdade. Comecemos com um exemplo tirado da natureza. Vai uma vaca solta pelo monte, mú, mú, mú, aquilo são bifes ilegais que não respeitam os sinais e que fazem as suas necessidades sem observar a qualidade ambiental e a boa educação em geral. Come tudo quanto nasce da boa terra, engole todo o tipo de erva e quando chega o fiscal, o ruminante oferece-lhe uma cornada real. Se for do Barroso o animal, o dito fiscal vai mesmo parar ao hospital.

Com a passarada, a falta de respeito é exactamente igual, embora mais leve e manifestando-se através de outro canal. Como é possível andar a voar nestes tempos em que é essencial haver uma concentração total da nação em geral? Não, não é por causa do Natal, evitemos as confusões, é porque os pássaros são os grandes responsáveis do défice das exportações. O povo fica triste a vê-los voar. Então eles lá em cima voam quando querem, mudam de lugar, passam a vida a apanhar ar e nós é vê-los ir sem termos para onde fugir. Aliás, qualquer animal tem mais sorte do que nós. Um crocodilo até chora por engano sem ter de fazer o décimo segundo ano. Enfim, acredito mais depressa na cegonha do que no processo de Bolonha.

Outro aspecto muito importante desta profunda reforma que vai tornar Portugal um país sem igual é a necessidade absolutamente imperial da mudar a maneira de falar. Isto de cada um dizer o que quer e de se achar o rei do lugar vai ter de acabar. É necessário proibir as variações, as modulações e as reconstruções. A fala não é para estar à janela nem para a gente se servir dela. A fala é para a gente se calar e não há cá A nem meio A. Os bês são todos bês e os efes são todos iguais. Isto de uns falarem com b de gato outros com f de tripa ou z de espinafre não dá. Os tês são todos de panela e os vês são à moda de Vizela, de Penela, da Gandarela, de Vouzela e da Venezuela. Vamos comer todos pela mesma medida, se queremos uma Europa bem cozida.

Queremos também um país com velocidades automáticas e projectos originais para jantes especiais. Com ideias para todos, simpatia a rodos, juventudes em movimento, um Pirinéu para cada cidadão e um grande amor ao sentimento e ao parlamento.

O amor continua a ser respeitável e até obrigatório nos locais habituais, desde que haja duas partes iguais e o todo não ultrapasse a soma das partes. Nesse caso, o infractor estaria sujeito a uma coima d’amor que poderia custar muita dor. O ministério das relações bilaterais prevê um grande incremento no estudo das lágrimas, dos choques, das emoções, das vibrações e das ilusões, no sentido de encontrar o justo equilíbrio entre o deve, o haver, o receber e o perder.

O problema da educação resolve-se sem qualquer confusão. Há coisas que não custam nada e que podiam ser perfeitamente resolvidas à porrada. Não era preciso muito. Com umas galhetas por causa das tretas, já estaríamos muito mais adiantados. Ao mesmo tempo, oferecia-se um computador a quem quisesse ser doutor, uma volta na universidade e um fato no Cardoso da Saudade.

Quanto à imagem era preciso mudar a aragem. E é para já. Fica então proibido palitar os dentes de cima e os de baixo – exceptuam-se os que estão a abanar – arranhar o couro cabeludo, coçar todo o tipo de olho, franzir o sobrolho nas horas de expediente, cheirar o sovaco próprio ou do cliente em espaços com menos de 30 m2, fazer rodinhas de fumo, oferecer enchidos e outras peças fálicas sem estarem devidamente embaladas e analisadas, bem como comer à tripa forra ou a modinho tudo o que levar sangue além de vinho.

É necessário implementar novas áreas de estudo e de formação. O primeiro objectivo é controlar a comichão. De seguida, teremos de ensinar os jovens a não cuspir para o chão, para o ar ou para o lado e muito menos em andamento. Finalmente, e esta é a medida mais urgente para diminuir drasticamente os acidentes, vamos acabar com a aceleração geral que atravessa as estradas de Portugal, tornando obrigatório andar no conservatório para realizar estudos musicais e aprender a buzinar como deve ser.

Cremos ter chegado agora ao aspecto central da nossa comunicação. Quando é que os efeitos desta autêntica revolução no panorama da educação se vão começar a notar?

É verdade que temos muito boa educação na Constituição, no aperto de mão, quando acorremos a um irmão ou saudamos a procissão, se contestamos a perseguição e criticamos a delação. Também é verdade que me seria muito grato prometer-vos a solução disto tudo para antes do Entrudo. Mas infelizmente deverei ficar por aqui, deixando a resposta para uma outra ocasião; mesmo a terminar e antes de vos saudar, lamento informar que a solução para o problema da educação nunca fez parte desta lição que não pretendeu fazer mais lei do que uma fatia de bolo-rei.

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Obs: texto previamente publicado na página facebook de José Miguel Braga, com ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Crónica, Ensino
Tags: ensino

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