‘Alguns costumes do século XVIII relativos à alimentação continuam bem actuais’

Parvoíces no comer

Parvoíces no comer

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A propósito do Dia Internacional dos Arquivos, que se comemorou a 9 de Junho, apeteceu-me explorar um pouco um manuscrito que existe no Arquivo Distrital de Braga e que me chegou pelas mãos de um funcionário que conheço há mais de 20 anos, o Luís Araújo. Os Arquivos, ao contrário do que alguns pensam, não contêm só papéis velhos sem qualquer interesse que não seja provar algum direito. O “arquivo morto” é expressão que não cabe aqui. Num Arquivo a vida pulula por todo lado e, por vezes, encontram-se verdadeiros tesouros.

Este é um manuscrito curioso. Está datado da primeira metade do século XVIII e pertenceu a um padre da região de Braga. Não vou referir a cota, para não provocar um engarrafamento de gente à porta do Arquivo, que luta, parece-me, com alguma falta de recursos humanos. De qualquer forma há sempre hipótese de, quem quiser, se aventurar na colecção de mais de mil manuscritos aí existentes.

Parvoíces do comer dos homens do século XVIII continuam bem actuais

Constitui uma espécie de diário onde o dito senhor foi escrevendo o que lhe ia na alma. Desde a clássica guerra entre vimaranenses e bracarenses, poemas vários, textos protocolares próprios da profissão e outras jocosidades que não cabem nesta crónica, mas muito do tempo em que o autor vive, retive o meu olhar numas frases relativas a várias atitudes que o autor considera parvoíces. Parvoíces dos homens nos estado de solteiro, no estado de casado, no jogo e no comer. Olhemos as que se relacionam com a comida. São bastante apelativas.

  1. “Comer muito em dia de Entrudo”. Era natural abusar-se da comida neste dia. Os tempos que se seguiam eram de rigoroso jejum. O autor considera, no entanto, que era uma parvoíce e tinha razão, pois não adiantava nada comer demasiado num dia para se passar fome no seguinte.
  2. “Não comer carne em dia de Páscoa por certa devoção” também não era de muito juízo. Páscoa é tempo de carne e não há devoções que a isso obstem.
  3. “Jejuar todo o dia e à noite perder o jejum” ou “Deixar de comer por comer depois”. Quer dizer, não resistir às tentações da comida era algo que o autor também não aplaudia.
  4. “Gastar quanto tem em comer”, sim, é uma parvoíce, tal como “Andar sempre por casas de pasto”. A melhor comida come-se em casa e com moderação.
  5. “Embebedar-se por galhofa” ou “Embebedar- se com mau vinho”. O vinho em excesso é sempre mau. Mas já agora se tiver que acontecer que seja com bom vinho.
  6. “Ir a banquete a que não he convidado”. Ainda hoje se diz que a festa e a baptizado não vás sem ser convidado.
  7. “Não ter bem que comer e convidar hospedes”. Pois! Não convém para não passarmos vergonhas.
  8. “Não ter que jantar e pôr-se a esgravatar os dentes para dar a entender que comeo” – aparência a quanto obrigas!! Hoje como noutros tempos. Curiosa aqui a presença do palito. Estava muito na moda nesta altura.
  9. Esgravatar os dentes e cheirar o palito – o palito estava no auge da utilização à mesa. Mas havia regras para o seu uso. Os monges beneditinos, por exemplo, ditam no seu texto constitucional que se deviam palitar os dentes disfarçadamente e apenas quando necessário. Mas esta regra também nos fala da pouca higiene oral que existia na época.
  10. “Pedir perdão aos hospedes depois de lhes haver dado de jantar”. De facto, são os hospedes que têm que agradecer. Mas dada a sociedade da época, muito hierarquizada, talvez houvesse esta prática entre algumas famílias.
  11. “Aparar a fruta na mesa e deitar as cascas na casa”. Eis uma regra de etiqueta que começava a entrar nos comportamentos à mesa. Nos mosteiros existe até uma peça de louça específica, hoje inexistente, – a aparadeira – onde se deitavam as cascas e as migalhas ou restos de pão.
  12. “Achar cabelo ou cousa que faça nojo no comer e mostra-lo aos convivas” – outra regra de etiqueta que começava a entrar nos comportamentos à mesa.
  13. “Comer barro ou coisa nociva a saúde” – de facto é uma parvoíce comer produtos nocivos à saúde, mas enfim…
  14. “Ir a caça ou romaria e não levar comer” – o farnel era muito importante quando se saía de casa.  Os restaurantes ainda não tinham aparecido. Com excepção das casas de pasto  e de alguma comida de rua não havia  outros locais para se fazer uma refeição.
  15. “Ser vilão ruim à mesa” – o que significaria “vilão ruim”? Sem normas, sem jeito, não usando qualquer etiqueta.

E pronto! Eram estas as parvoíces do século XVIII relativas ao comer. Convenhamos que algumas continuam actuais!!

Numa cozinha do século XVIII com Francisco Borges Henriques

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Acerca do Autor

Anabela Ramos

Historiadora.

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