‘O amor é a chave da compreensão do Mistério Divino, pois o amor é a origem e o fim da história do Todo e de todos os seres’

A arte como via de conexão com o infinito

A arte como via de conexão com o infinito

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Os ícones manifestam o Mistério Divino através das cores e dos símbolos. Quando se visiona um ícone, não estamos diante de uma mera obra artística especialmente bela.

Um ícone é uma representação e da imagem do Sagrado. Estamos diante do Mistério, porque o ícone marca a passagem do visível ao invisível, do imanente ao transcendente. Um ícone pode ser considerado como uma janela que se abre sobre a infinitude do Divino e um portal para entrarmos em conexão e comunhão com o Divino.

Um dos ícones mais emblemáticos é o ícone da Trindade Divina, concebido pelo monge russo Andrei Rublev, com a colaboração de Daniel Chorny, na década de 1420. Os dois autores do ícone tinham uma sabedoria interior muito profunda, tendo com certeza acesso ao conhecimento das dimensões esotérica e gnóstica do cristianismo.

A unidade e a diversidade do Divino

Diversas tradições espirituais da humanidade reconhecem a ideia de que a Fonte Divina é una. Por detrás de tudo o que é visível ou invisível, existe uma Realidade absoluta, eterna, ilimitada e imutável.

Esta Realidade é o Absoluto indiferenciado, o Uno primordial, a Causa sem causa, a essência de tudo o que existe, além do tempo e do espaço, acima de toda a imaginação da mente humana.

Portanto, todo o estudo proveitoso sobre a Essência Divina deve ter como ponto de partida a afirmação de que ela é una.

O gnosticismo também considera que no princípio e na origem de tudo está a presença de uma Realidade absoluta. O Absoluto é a fonte e a essência de toda a Criação (manifestada e não manifestada). No princípio de tudo o que existe, é o único e irredutível Uno.

É a oceano infinitamente vasto e silencioso, do qual tudo emana tudo o que existe. É o aspeto absolutamente transcendente do Divino. Meister Eckhart falou dele como a “Divindade” e a Kabbalah judaica chama de Ain Sof (que é hebraico para o “infinito”). Existem outras denominações para o Absoluto, como Brahman, Parabrahman, Sat Chit Ananda e Uno, entre outras.

O Absoluto manifesta-se e projeta-se, estabelecendo um âmbito divino mais amplo. Esta projeção é feita através da emanação de um conjunto de entidades divinas. Estas emanações intradivinas constituem o que o gnosticismo chama o Pleroma ou a Plenitude da Divindade.

Segundo a perspetiva gnóstica, o Plano Divino é infinitamente vasto, constituído por diversos seres divinos e pela rede de suas relações entre si. Os gnósticos compreendiam o Plano Divino como uma realidade complexa, que emana do Absoluto, afastando-se do monoteísmo mais estrito preconizado pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islão, pelo menos nas suas vertentes mais institucionais e exotéricas.

De acordo com a generalidade das grandes correntes religiosas e filosóficas, o Divino desdobra-se numa Trindade.

Antes de mais, a Essência Divina manifesta-se em dois polos – o polo masculino e positivo e o polo feminino e recetivo – que assumem designações diferentes consoantes as tradições.

Da relação, do Amor entre estes dois polos – Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria, Pai Divino e Mãe Divina, entre outras denominações – surge um terceiro polo, que é designado pela tradição cristã esotérica como Filho ou a Luz do Mundo.

De acordo com o gnosticismo e outras tradições espirituais, da unidade divina primordial, emana, antes de mais, uma dinâmica de três. Não é coincidência a existência da trindade em diversas tradições espirituais da humanidade: Osíris, Ísis e Hórus (religião egípcia antiga); Brama, Vishnu e Shiva (hinduísmo); Kheter, Chokmah e Binah (judaísmo cabalístico); Pai, Filho e Espírito Santo (cristianismo).

O ícone da Trindade Divina

No ícone da Trindade Divina de Andrei Rublev e de Daniel Chorny, cada uma das hipóstases do Divino têm um conjunto de caraterísticas que as identificam.

O ícone apresenta um forte simbolismo e mostra a unidade e a manifestação do Mistério Divino.

Os três seres angélicos representados são idênticos na aparência, demonstrando a fé na unidade de Divino em três hipóstases.

O facto de Andrei Rublev recorrer aos anjos para retratar a Trindade mostra ser um lembrete da natureza da Divindade, que é Espírito puro.

No centro, vemos a árvore da vida, e o anjo correspondente representa o Pai, a fonte da Vida, do Cosmos e do Ser. Segundo o gnosticismo, o Uno ou o Espírito Invisível é entendida como ilimitado, insondável, invisível, eterno e inominável.

A túnica do anjo é azul, com uma sobrepeça púrpura, indicando a natureza transcendente do Mistério Divino.

Do lado direito, vemos um anjo que tem um aspeto feminino e materno, apresentando o aspeto feminino do Divino. No judaísmo místico, é o aspeto feminino da Divindade, a Ruach HaKodesh. No cristianismo exotérico, é chamado de Espírito Santo. Nas línguas semíticas, o termo Ruach, com o qual se identifica o Espírito Divino, é do género feminino. Existem textos do cristianismo siríaco, que tem influências gnósticas, que referem expressamente ao Espírito Santo como consoladora. Com efeito, a presença da dimensão feminina do Divino é amplamente reconhecida pelo gnosticismo. Segundo o gnosticismo, a primeira emanação do Uno ou Espírito Invisível é a Barbelo, a Mente Cósmica, a Sabedoria Divina Suprema, a Mãe Divina, a Pronoia, termo que se pode traduzir como Pensamento Primordial.

O terceiro anjo tem uma túnica azul e uma sobrepeça verde, que aponta para o papel da renovação, de regeneração e de cura. O verde está ligado à celebração do Pentecostes.

Como o Pai, o Uno, é Amor Infinito, manifesta-se e gera a Barbelo. Pela obra da Barbelo, que é a própria presença do poder criativo multiforme e infinito da Divindade, a Criação Cósmica aparece, pois ela contém a energia e a matéria primordiais.

Por cima da cabeça do anjo da direita, está um monte, sinal de que Barbelo manifesta o Divino no Cosmos e eleva todos os planos da existência ao Divino.

Do lado direito do ícone, vemos um anjo que representa o Filho ou o Cristo Cósmico. Em cima da cabeça do anjo, está um templo, que representa a comunhão mística de todos os seres com o Divino. O carvalho atrás do anjo lembra a árvore da vida e a cruz, símbolos de ligação entre os planos celeste e terreno.

No centro do ícone, há uma mesa similar ao altar. Colocado sobre a mesa, existe um cálice dourado, que é abençoada pela refeição. A combinação destes elementos recorda-nos a Eucaristia.

Instituída por Jesus, embora com influência de outros rituais anteriores, a Eucaristia é um sinal privilegiado da comunhão espiritual, que tem simultaneamente uma dimensão vertical e horizontal. Por um lado, promove a interação vertical entre o Divino e a humanidade. Por outro lado, tem uma dimensão horizontal, na medida em que renova e fortalece o envolvimento espiritual comunitário.

De facto, toda a espiritualidade humana tem uma dimensão simultaneamente vertical e horizontal. A dimensão vertical representa o movimento de descida e da ascensão da Energia Divina e a dimensão horizontal é a expansão e a ampliação da consciência humana, nas suas vertentes individual e coletiva.

Colocar o pão e o cálice na Eucaristia celebra os alimentos essenciais para a vida humana: o pão da subsistência quotidiana e o vinho da festa.

De uma forma mais profunda, pode-se afirmar que o pão e o vinho são os símbolos dos dois princípios, o masculino e o feminino, no qual assenta a Criação no seu todo. Em todos os reinos da natureza, bem como nos mundos espirituais, existem manifestações destes princípios.

Segundo o gnosticismo, do amor eterno entre o Espírito Invisível, o Uno, o Pai Divino, e a Barbelo, a Mãe Divina, gera-se o Filho ou o Cristo Cósmico. O Cristo faz a ponte entre a Trindade Divina e os demais seres que compõem o Pleroma e consequentemente a Criação no seu todo.

Uma observação atenta do ícone mostra que existe uma relação ocular entre ambos os anjos uma correspondência entre a mão direita do anjo de centro e a mão direita do anjo da direita, o que significa a reverência do Filho ou do Cristo Cósmico ao Uno.

Convém fazer a distinção entre Cristo e Jesus. O Cristo cósmico é a Inteligência Divina Infinita que está presente em toda a Criação. Cristo também designa um estado superior de consciência.

Jesus é um ser iluminado e iluminador, um Cristo, uma manifestação sublime do Cristo Cósmico, embora não seja a única. E o mesmo se aplica quando se fala de Siddhartha Gautama, como Buda. Pode considerar-se que Cristo e Buda são termos que expressam a consciência divina universal e a unidade com Deus, manifestada por Jesus, Siddhartha e outros grandes mestres espirituais e que todos nós somos convidados a manifestar.

Entre os três anjos, existe um movimento circular que parte do anjo da direita, mais concretamente dos seus pés, passa pelo anjo do centro, e termina no anjo da esquerda, também nos seus pés, demonstrando que o amor é a chave da compreensão do Mistério Divino, pois o amor é a origem e o fim da história do Todo e de todos os seres.

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Categorias: Arte, Ensaio, Espiritualidade

Acerca do Autor

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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