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‘Temos que agir, todos e cada um, para que nos celebremos um dia, na dignidade e na alegria do nosso país, da nossa cultura e do nosso povo’

Quando as comemorações são uma farsa

Quando as comemorações são uma farsa

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1.

Quando as comemorações se comemoram a si próprias, e aos seus actores, e quase só, mais do que aos que se comemoram, e ao que comemoram, algo está mal, muito mal mesmo. Não seria melhor comemorar com afirmação, proveito e honra, Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas? Não são eles o nosso chão, a nossa alma, e a coragem que resta?

2.

Portugal, como entidade estruturada, para se proteger e defender, a si e aos seus, e para envidar todos os esforços na garantia e promoção do bem comum, já não existe. Que há que comemorar, então? A sua colonização e perda de soberania? Não seria melhor comemorar Portugal, recuperando a dignidade de país independente e soberano, bem como a sua função estrutural de protecção e garante do bem comum sagrado?

3.

Camões, o maior vulto da Literatura e da Cultura Portuguesa, príncipe da nossa Língua, comemora-se como? Com declarações superficiais e demagógicas de propaganda política, com paradas militares, e com jantarzinhos onde se dizem gracinhas? Que se está a fazer à obra do nosso épico e vate maior? Que se está a fazer à sua e nossa Língua? Não seria melhor comemorar Camões, valorizando e divulgando a sua obra sistematicamente, em Portugal e no mundo, e não passando por ela a correr nos programas escolares? E não se comemorava melhor a nossa Língua extinguindo o famigerado Acordo Ortográfico, um atentado à nossa inteligência colectiva? Mas os deputados é que sabem. E os partidos, claro! Quem são eles, que ninguém pergunta?

4.

As Comunidades Portuguesas, espalhadas pelo mundo, são também um rico eufemismo para dizer emigração. É um dizer mais leve. Mas não é o eufemismo que acaba com essa necessidade sempre presente. Nutrem, os nossos emigrantes, espalhados pelo mundo, um grande carinho e amor pela sua terra natal. Não seria melhor comemorar as suas comunidades, devolvendo-lhes esse carinho e amor, criando estruturas dignas, e de apoio sustentado e objectivo, ao seu desenvolvimento sócio-cultural e afectivo? Mas onde estão os professores e as escolas portuguesas junto delas? Onde está o apoio à Língua. Onde estão as universidades portuguesas?

5.

Sim, Portugal. Sim, Camões. Sim, Comunidades Portuguesas, espalhadas pelo mundo. Sois seguramente merecedores de melhores, mais profundas e duradouras comemorações. Em boa verdade, sois o nosso chão, o que de melhor temos, o a que nos prendemos com esperança ainda. Sois a nossa casa ainda, a nossa alma ainda, a nossa coragem ainda. Não chega, porém. Temos que agir, todos e cada um, para que nos celebremos um dia, na dignidade e na alegria do nosso país, da nossa cultura e do nosso povo. Queremos de volta os campos, os castelos e as quinas. E isso é difícil mas urgente. Mais fáceis são uns jantarinhos, e beijinhos, e fitinhas, e coisinhas.

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Acerca do Autor

António Mota

Professor. Braga.

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